O bebê proclama Deus • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 04 de maio de 2009

O bebê proclama Deus

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ABRAÃO: O bebê proclama Deus

Dessa forma Abraão foi deixado na caverna, sem quem cuidasse dele, e começou a chorar. Deus mandou o anjo Gabriel para dar-lhe leite, e o anjo fez com que o leite fluísse do dedo mindinho da mão direita do bebê — e desse dedo ele mamou até os dez anos de idade.

O bebê então levantou-se e começou a andar, deixando a caverna e seguindo pela orla do vale. Quando o sol se pôs e surgiram as estrelas, ele disse:

— Esses são os deuses!

Mas veio o amanhecer e as estrelas não se viam mais, pelo que ele disse:

— Não devo prestar-lhes adoração, pois não são deuses.

Então surgiu o sol, e ele disse:

— Este é meu deus; a ele prestarei louvor.

Mas o sol também se pôs, e ele disse:

— Esse não é deus.

Ao contemplar a lua ele chamou-a de deus, aquele a quem haveria de prestar adoração. Mas a lua foi obscurecida, e ele exclamou:

— Esse também não é deus! Deve haver Um que coloca-os a todos em movimento.

Ele ainda refletia consigo mesmo quando o anjo Gabriel aproximou-se dele e saudou-o:

— Paz seja com você.

— E paz seja com você — respondeu Abraão, e perguntou: — Quem é você?

— Sou o anjo Gabriel, mensageiro de Deus — disse o anjo, e levou Abraão até uma nascente próxima.

Ali Abraão lavou o rosto, as mãos e os pés e orou a Deus, pondo-se de joelhos e prostrando-se no chão. Enquanto isso a mãe de Abraão pensava nele com tristeza e lágrimas, e saiu da cidade a fim de procurá-lo na caverna em que o tinha abandonado. Não encontrando o filho, chorou amargamente.

— Que tristeza a minha, ter dado à luz você apenas para ser presa de animais selvagens, ursos, lobos e leões!

Ela foi até a orla do vale, e ali achou o filho, mas não o reconheceu, porque ele havia crescido muito.

— Paz seja com você — ela disse ao rapaz.

— E paz seja com você — ele respondeu, e prosseguiu: — Por que você veio ao deserto?

— Vim da cidade para procurar o meu filho — ela respondeu.

— Quem trouxe seu filho para cá? — inquiriu ainda Abraão.

— Fiquei grávida de meu esposo Tera — respondeu a mãe, — e quando chegou a hora de dar à luz fiquei procupada com o filho no meu ventre, com medo de que o rei viesse, o filho de Canaã, e o matasse como fez com os outros setenta mil meninos que nasceram. Mal cheguei à caverna e me sobrevieram as dores de parto, e dei à luz um menino, a quem deixei na caverna, retornando para casa. Agora voltei para procurá-lo, mas não encontro.

— Essa criança da qual você fala — disse Abraão, — que idade tem?

A mãe:

— Cerca de vinte dias.

Abraão:

— E pode haver mulher no mundo que abandone seu filho recém-nascido no deserto, e só volte para procurá-lo vinte dias depois?

A mãe:

— Quiçá Deus se mostrará um Deus misericordioso!

Abraão:

— Sou eu o filho que você veio procurar aqui no vale.

A mãe:

— Meu filho, como você cresceu! Mal tem vinte dias, e já pode andar e usar a boca para falar!

Abraão:

— Assim é, e dessa forma, mãe, é manifesto a você que existe um Deus grande, terrível, vivo e sempiterno que vê mas não pode ser visto. Ele está nas alturas do céu, e toda a terra está cheia da sua glória.

A mãe:

— Meu filho, existe Deus além de Ninrode?

Abraão:

— Sim, mãe, o Deus do céu e Deus da terra também é o Deus de Ninrode, filho de Canaã. Portanto vá e leve essa mensagem até Ninrode.

A mãe de Abraão voltou à cidade e contou a seu esposo, Tera, que havia encontrado o filho deles. Tera, que era um príncipe e um maioral na casa do rei, dirigiu-se até o palácio real e prostou-se de rosto no chão diante do rei. Rezava a norma que aquele que se prostrava diante do rei não tinha permissão para erguer a cabeça até que o rei lhe dissesse para fazê-lo. Ninrode deu permissão para que se levantasse e fizesse sua solicitação.

Tera então contou tudo que havia acontecido com sua esposa e seu filho. Quando ouviu a história Ninrode foi tomado de terrível temor, e perguntou a seus conselheiros e príncipes o que fazer com o rapaz. Eles responderam:

— Nosso rei e nosso deus, por que está atemorizado por causa de uma criancinha? Há miríades e miríades de príncipes nos seus domínios, governantes de milhares, governantes de centenas, governantes de grupos de cinquenta, governantes de grupos de dez, e administradores sem conta. Mande o menor dos seus príncipes buscar o garoto e jogá-lo na prisão.

Mas o rei replicou:

— Vocês já viram um bebê de vinte dias andando sozinho, abrindo a boca para falar e usando a língua para proclamar que há um Deus no céu, que ele é um e não há outro além dele, que vê e não é visto?

E todos os princípes reunidos foram tomados de horror diante dessas palavras.

Nesse momento Satanás apareceu em forma humana, vestindo um traje de seda negra, e pôs-se de joelhos diante do rei.

— Erga a cabeça e faça sua solicitação — disse Ninrode.

— Rei, por que tanto medo, e por que estão todos apavorados diante de um rapazinho? Deixe-me dizer qual medida o rei deve tomar: abra seu arsenal e dê armas a todos os príncipes, oficiais e governadores, bem como a todos os guerreiros, e mande-os buscar o menino para viver a seu serviço e debaixo do seu domínio.

Essa recomendação, dada por Satanás, o rei aceitou e seguiu: mandou um grande pelotão armado para trazer Abraão até ele. Quando viu o exército se aproximando o menino ficou apavorado, e entre lágrimas implorou a Deus por socorro. Em resposta à sua oração Deus mandou o anjo Gabriel até ele.

— Não fique temeroso nem inquieto — disse o anjo, — pois Deus está com você. Ele o resgatará das mãos de todos os seus adversários.

Deus ordenou que Gabriel colocasse nuvens escuras e espessas entre Abraão e seus assaltantes. Transtornados diante das nuvens cerradas eles fugiram, voltaram a seu rei, Ninrode, e disseram:

— Vamos fugir e ir para longe deste lugar!

O rei então deu dinheiro a todos os seus príncipes e servos, e junto com seu rei partiram todos para residir na Babilônia.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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