Não acende essa vela • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de outubro de 2015

Não acende essa vela

– A ternura – disse o anjo para me atormentar – é uma vela que qualquer um pode apagar, mas que você pode reacender quantas vezes quiser.

– Não me venha com frasezinha de caligrafia de timeline – eu disse, muito indignado, – que é o cacete que vou acender de novo essa vela. Já fui muito manézão; quero mais é que a ternura vá pra

– Você tá ligado que vai reacender, né velho.

Pulei da cama para estrangular o anjo mas ele tinha se transformado num gato apaixonado que miava lá fora às duas da manhã, e que na boa soava mais como demônio do que anjo. Achei muito patriarcalzinho do superego me desovar de cima para baixo uma frasezinha de efeito na tentativa de me remanobrar a uma ternura burguesa que beneficiava o sistema e só o sistema. A ternura é uma vela superfrágil, nossa, se cada um mantiver acesa a sua luz – ora tenha santa.

Nessa hora o anjo virou dois livros, um de Jorge Luis Borges, outro de Oliver Sacks, que da minha prateleira de cabeceira disputavam pela minha alma madrugada afora. Fiquei furioso com eles porque abusavam do fato de serem superternos e meus autores favoritos para me tentarem fazer capitular.

– Não acende essa vela, Brabo – disse o meu advogado que estava ali de plantão do lado da cama, – que a amargura é um direito inalienável. Borges e Sacks nem estão vivos, pra eles não custa nada alimentar a tua culpa com esse discurso ternurinha. E tem mais, o papel aceita tudo. Ninguém nunca perdeu moral se fazendo por escrito mais virtuoso do que é, você sabe disso melhor do que ninguém.

Nessa hora chegou um email do Ricardo Gondim, e o anjo era agora Castro Alves recitando um superpiegas E existe um povo que a bandeira empresta pra cobrir tanta infâmia e covardia! Chorei muito, mas não reacendi a vela.

Vendo que eu estava chorando se reuniram ao redor da cama uma multidão de vivos superternos e me cobriram com tanto carinho que achei que ia morrer. Estavam ali o Rondinelly, o Zé Márcio, o Ed René, o Ricardo Gouvea, o Gustavo Brandão, a Rudgy, a Sil, a Eliane, a Débora, o Viveiros, o Simas, o Cláudio Oliver, o Tuco e o Tato, meus pais, uma multidão de índios e de italianos e de cordelistas do Serestão. Totalmente perdidos, mas se aproveitando do fato de que alguém estava gravando a cerimônia, deixaram também uma palavrinha a Dilma e o Eduardo Cunha.

– A ternura – disse a Dilma – é uma vela que qualquer um pode apagar, mas que você pode reacender quantas vezes quiser.

Acordei pra lá de apavorado e suando frio. A vela e a caixa de fósforos estavam ali mesmo na cabeceira, e o anjo era agora o Odacir da seguradora, entediadíssimo, esperando em pé que eu reacendesse a ternura ou pagasse a prestação do seguro do Corsa, ou uma coisa ou outra.

– Se você for acender mesmo essa vela – disse o Odacir, que é um sujeito muito estoico e na dele mas que na vida real já me salvou a pele uma vez ou duas – só preciso que saiba que isso não está na cobertura. Você nunca vai saber se a ternura que está acendendo é mesmo sua ou se está, sei lá, tipo imitando mimeticamente uma ternura que está projetando em outras pessoas que você admira, e admira porque acha que é genuína uma ternura que está na verdade projetando neles. Sei lá, é tudo muito confuso; até gente supercínica e desiludida digamos Deleuze ou Derrida tinha um lado muito doce. Aparentemente tinha uma galera que achava superimportante não perder a ternura, tipo Gandhi, Gisele Bündchen. De qualquer modo, danos por ternura a gente não cobre. E Deus sabe que são muitos.

– Não acende essa vela, Brabo – disse o advogado do diabo, que estavam ali também os dois do lado da cama. E me levou em espirito ao inferno, onde vi que reinava a amargura e a igualdade entre os homens. Entendi que ele queria que eu visse que a amargura faz de todos os homens irmãos. Atrás do trio elétrico vinham abraçados num imenso cordão israelenses e palestinos, terroristas do Oriente Médio e fundamentalistas americanos, freiras e travestis, índios e ruralistas, ricos que não tinham encontrado na vida sentido e pobres que não tinham encontrado na vida justiça. Todos bebiam e cantavam e se beijavam e chafurdavam na rua da amargura, e pareciam infinitamente recompensados e satisfeitos.

– A ternura nunca vai fazer isso por você – disse o diabo, que parecia ser um cara super gente boa, vendo que eu chorava emocionado diante daquela comunhão. – Só a amargura verdadeiramente irmana os povos, as classes e as raças.

O calor era infernal, mas abracei o diabo forte forte e ele me abraçou de volta.

– Você promete que vou ser feliz aqui? – eu disse.

– Não responde isso – disse o advogado do diabo.

Abri os olhos e estava de volta na cama. As letrinhas da tela do netbook escorriam em cima de mim e sobre a cama e iam ficando presas nos cabelos do peito. Levantei jogando o computador para longe e sacudi dos lençóis e do corpo todas as letras que consegui.

Eu estava com tanto sono que não lembrava mais se Deus existia ou não, se a virtude existia ou não, se tinha inventado ou não Thomas Ligotti pela vontade de estender presente adentro a pajelança de Lovecraft. Porém foi besteira minha pensar naquilo, porque na hora entendi que no ato de escrever sobre horror espreitava uma medida pesada e mal escondida de adocicagem. No cadáver havia mel, como na história de Sansão.

Lembrei de uma frase de Che mas deixei quieto.

Vamos combinar que você está sozinho, eu disse a mim mesmo, e ninguém na terra vai ficar sabendo se você reacendeu ou não a porcaria da vela. Quando alguém perguntar você vai poder sempre responder do modo que for mais conveniente. Alguém pode até se sentir iluminado e achar que entreviu alguma luz mesmo se não for esse o caso.

Nessa hora Deus falou comigo, Deus que não falava comigo há anos e que tinha me bloqueado no whatsapp.

– Paulo – Deus disse. – Tá me ouvindo?

– Eis-me aqui, superego.

– Não é o seu superego. Aqui é Deus falando.

– É exatamente o que diria o superego, mas tudo bem. Fala que o teu ego ouve.

– Vem cá, reacende a vela da ternura. E se alguém apagar, trate de acender de novo, quantas vezes for necessário.

– E porque eu iria fazer uma coisa autodestrutiva dessas? É super golpe baixo da sua parte me assombrar com a ternura de gente morta e viva na tentativa de aliciar a minha.

– Escuta, não estou te ouvindo bem. Espera que vou reiniciar o Skype.

Falei mais perto do microfone.

– Não vou acender a vela.

– Sabe o que mais, se você não acender a bendita vela eu mesmo vou acender.

– A vela da ternura nem Deus pode acender pela gente – eu disse.

– Ei, mas espera – Deus disse. Ele nunca ligava a cam, mas pela voz se via que estava sorrindo – O que é isso que estou vendo aí dentro do seu coração? Estou enganado ou é uma vontadezinha de reacender a vela?

– Estou enganado – eu disse – ou foi você quem implantou essa vontadezinha aqui dentro contra a minha vontade?

– Estou enganado ou você nunca vai ficar sabendo? – Deus disse, e na hora mais conveniente de todas a internet caiu.

– E aí, Jesus, o que você acha – eu disse a uma mulher que ia passando, – acendo a vela da ternura sim ou não.

– Não posso decidir por você, colega.

– Me ajuda aí.

– Bom, você quer acender a vela. Mas querer nunca foi motivo pra fazer.

– Também nunca foi motivo pra não fazer.

– Mais ou menos. Depende de pra quem você está fazendo. No caso você quer reacender a vela da ternura para voltar a ser capaz de ser gentil com os outros.

– Acha mesmo?

– Não tenho dúvida. E a sua ideia tem algum fundamento, porque ninguém pode ser legitimamente gentil com os outros sem ser primeiro gentil consigo mesmo.

– Vou acender então.

– Tenha só certeza – disse Jesus, que agora era um maori gordinho – de estar fazendo por você mesmo, porque se estiver reacendendo a ternura pelos outros não vai estar sendo gentil com você mesmo em primeiro lugar, e consequentemente não vai ser capaz de ser legitimamente gentil com os outros.

– Jesus, ninguém vai nunca ter pureza de motivos com esse grau de certeza.

Jesus pulou de alegria.

– É o que eu estou tentando dizer desde o começo! Questionar a pureza dos seus motivos acaba sendo tão miserável quanto ter motivos questionáveis em primeiro lugar. Nem um método nem outro levam você a ser gentil com você mesmo. Culpa e graça, aquela história.

– Tenho medo de acender a ternura e alguém apagar.

– Brabo, velho, nunca acredite na Dilma ou em frase de caligrafia de timeline. Então que ternura é essa que qualquer um pode apagar? Que metaforazinha infeliz; nada está mais longe da verdade.

– Jesus, tenho de saber se sou o tipo de cara que tendo passado o que eu passei reacende ou não a vela da ternura.

– Brabo, você é o tipo de cara que coloca palavras na boca de Jesus para dar conselhos a você mesmo, e isso é já tenso (e terno) o bastante. Ouça, sou eu que estou falando, e portanto você: apaga essa luz e volta pra cama.

– Eu sou um cara terno pra cacete – eu disse em voz alta, sem saber se estava me vangloriando ou me confessando numa reunião dos AA, tipo primeiro passo no caminho para a recuperação.

Depois de reacender a vela da ternura nunca mais fui capaz de reconhecer se quem estava falando comigo era de Deus ou do diabo, mas retroativamente saquei que era essa mesmo a ideia.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas informa que ao ler esta página você se compromete contratualmente a concordar com a totalidade do seu conteúdo, obrigando-se ainda a alinhar suas crenças e prioridades às nossas; subscrever todas as nossas opiniões e juízos; acalentar, fomentar, promover e maravilhar-se diante da lucidez de tudo que dizemos até o fim dos seus dias