Modos de se ver • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de dezembro de 2015

Modos de se ver

Estocado em Goiabas Roubadas

Esta é a parte 1 de 5 da série Eles sãos

Daniel Oudshoorn

Quero começar reconhecendo que falo na qualidade de ocupante da terra que o Criador deu ao cuidado dos Anishinaabe e compartilhou com as tribos Haudenosaunee e Lenape. Ergo as mãos aos cuidadores desta terra e agradeço a eles por permitirem que gente como eu viva, trabalhe, brinque e e viva nos territórios que pertencem a eles ao lado do Askunessippi e ao longo de toda a ilha Turtle.

Na qualidade de colono, beneficio-me do projeto em andamento de colonialismo como se desenrola nos territórios ocupados que recebem o nome de “Canadá” nos mapas que estudamos na escola (mapas que deixaram de mostrar colônias europeias como Rodésia, Congo Belga e Guiné Espanhola, mas que continuam a mostrar o Canadá). Nesses territórios mais de seiscentas nações indígenas foram alvo de práticas e políticas genocidas antes da independência e até o dia de hoje. Em tudo isso o governo do Canadá, as igrejas cristãs, as instituições de caridade e de fato todos os colonos e cidadãos da nação estão envolvidos.

É na verdade necessário reconhecer desde o início que na qualidade de colono branco do sexo masculino e de descendência europeia, sou beneficiário do processo genocida de colonização que assegurou-me direitos legais, acesso a riqueza e educação, status social e político. É portanto com a consciência de minha imputabilidade e da minha responsabilidade que expresso gratidão e ergo as mãos aos cuidadores da terra que ocupo. Chi-miigwetch.
 

Nesta reflexão quero que pensemos sobre o modo como vemos as coisas. Quero que pensemos por que algumas coisas nos parecem boas enquanto outras nos parecem más. Por que algumas coisas nos parecem óbvias e outras nos parecem mais ambíguas? Por que algumas coisas nos parecem naturais e outras nos parecem não-naturais, pervertidas, artificiais ou forçadas?

Enquanto refletimos sobre o que vemos, é importante lembrar que ver é algo que somos ensinados a fazer. Vemos o que vemos porque fomos ensinados a ver as coisas desse modo.

Digamos que vejo um casal de aliança no dedo se beijando no banco do parque enquanto o sol se põe. Isso parece uma coisa boa pra mim? E se o casal for casado mas composto por dois homens? Isso parece uma coisa ruim para mim? Aprendemos a ver as coisas de determinado modo, e esse aprendizado nos é sempre passado por outras pessoas.

Somos ensinados os nomes das coisas desde o momento em que nascemos, e esses nomes incluem não só substantivos como “árvore” e “parque” e “pôr do sol”, mas também qualificativos como “bom” e “mal”, “natural” e “pervertido”. Com frequência, no entanto, há modos diferentes, competidores, contraditórios e simultâneos de se ver a mesma coisa. De onde viemos, quais vozes e perspectivas são dominantes no nosso ambiente e quais vozes consideramos ter maior autoridade – esses fatores nos influenciam para que certos modos de ver nos pareçam mais óbvios, claros ou naturais do que outros.

É isso o que Slavoj Žižek tem em mente quando diz que a natureza não passa de uma grande ideologia (ideologia, no fim das contas, é só uma palavra difícil que se usa para se falar de modos de se ver). Com isso ele quer dizer que somos ensinados a ver algumas coisas como naturais e outras como feitas pelas pessoas, mas essa distinção entre natureza e não-natureza foi ela mesma feita por pessoas. A natureza é portanto ela mesma uma ideologia, e o que nos parece natural revela a ideologia que foi mais bem-sucedida em formar o modo como vemos o mundo.

Em outras palavras, do dia em que nascemos ao dia em que morremos nos dão óculos para usar. Esses óculos são as palavras que aprendemos a utilizar em relação ao mundo. A receita do óculos que você usa depende do contexto em que você nasceu, cresceu e vive.

É com frequência que não entendemos ou entendemos mal uns aos outros, porque olhar para o mundo com os óculos de outra pessoa muitas vezes torna tudo borrado e indistinto, podendo causar náusea e tontura. Consequentemente, tendemos a nos associar a outros que usem a mesma receita de óculos que nós, porque desse modo podemos dar a nós mesmos o conforto de que vemos as coisas do modo certo.

Ver, portanto, é algo que somos ensinados a fazer, e aquilo que vemos é sempre contestado. Acontece, porém, que em cada dado momento histórico um modo específico de se ver pode chegar a dominar determinado campo de interesse. Esse domínio é alcançado através de um processo de luta, negociação e conquista.

A ortodoxia cristã é um bom exemplo disso. Nunca houve um cristianismo só. O que existiu foram sempre cristianismos competidores, concorrentes, sobrepostos e contraditórios. Vemos isso já nas cartas de Paulo no Novo Testamento. Quer ele esteja argumentando contra Cefas e a facção de líderes de Jerusalém escrevendo aos gálatas, ou contra os “super-apóstolos” de Corinto, o que vemos é que é havia muito conflito e discordância a respeito do que eram (ou não) crenças, atitudes e modos de ver de importância crítica – e isso entre pessoas que alegavam ser membros do mesmo grupo.

Quando uma forma de cristianismo chega a dominar as outras, normalmente o seu sucesso está ligado a conexões com gente que tem dinheiro, riqueza, poder e tecnologia militar mais avançada. Agostinho, por exemplo, ajudou a moldar o que é hoje considerada a ortodoxia cristã porque tinha conexões com a corte imperial, de modo que foi capaz tanto de silenciar quanto de eliminar os seus inimigos. Antes disso, é claro, ele ensinou as pessoas a verem os inimigos dele como “hereges”, “inimigos de Cristo” ou “ameaças à segurança pública” – o que tornava muito mais fácil matá-los e apagar da história a versão deles dos eventos.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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