Minha disciplina pessoal mais antiga • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 08 de agosto de 2009

Minha disciplina pessoal mais antiga

Estocado em Manuscritos

78

Minha disciplina pessoal mais antiga é escrever histórias. Escrevo desde muito cedo, e contar histórias foi para mim uma resposta muito natural a um mundo generosíssimo que cercou-me de narrativas desde o berço, maravilhando-me e calibrando-me continuamente através delas. Nas canções de ninar, na literatura, nos filmes e séries da televisão, nas novelas e desenhos animados, no cinema, no teatro e na ópera (mais ou menos nesta ordem) fui encontrando um universo que dançava ao meu redor oferecendo-se para contar uma história sempre que eu me dispusesse a parar para ouvir. Escrever foi para mim uma forma de retribuir esse desprendimento, aceitando ao mesmo tempo o convite para brincar.

Muito cedo intuí que o mundo era um lugar seguro, porque fui percebendo que em todas as culturas — entre chineses e piratas, açougueiros e siberianos, deputados e cangaceiros, cantores de ópera e assassinos, debaixo de todas as arquiteturas e em todas os idiomas — as pessoas se alinhavam nisso, no interesse de ouvir histórias e de contá-las.

A não-ficção sempre foi para mim um interesse secundário, atividade mais ou menos empolada e incompreensível, e esse parecer não mudou muito com o passar do tempo. Na verdade, comecei a escrever ensaios e dissertações porque gente como Lovecraft e Borges tratavam de misturá-los à sua ficção, e eu queria imitá-los (e continuo, como vivo dizendo, tentando).

Escrevo desde os sete ou oito anos, mas tudo que concluí até hoje foram histórias pequenas e contos curtos. Já investi em narrativas ambiciosas, algumas delas bastante complexas, mas não cheguei a concluir nenhum dos grandes romances que idealizo e esboço desde os treze ou quatorze anos.

Agora que penso nisso: Cândida, um dos contos pseudo-borgianos que escrevi antes de completar dezoito anos e que ninguém além de mim chegou a ler, começa com uma frase pomposa que eu sabia ser profética e acurada mesmo então: Nada é certo sobre o homem que tem muitas histórias para contar, a não ser que morrerá sem tê-las contadas todas.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas é constrangedoramente grande