Meramente viviam • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de maio de 2008

Meramente viviam

Eu adoraria encontrar registros da existência de teólogas influentes na igreja primitiva, na era medieval e na Reforma. Porém, embora as mulheres estivessem certamente presentes e tenham sido fundamentais na vida espiritual do Cristianismo ao longo de toda a sua história, até recentemente nenhuma delas foi capaz de influenciar consideravelmente o curso e a direção da teologia da igreja.

Para alguns a escassez de “mães da igreja” é evidência de preconceito por parte dos teólogos de sexo masculino, ou do caráter irremediavelmente patriarcal do próprio cristianismo. Creio que essa escassez é evidência da natureza patriarcal da cultura ocidental como um todo (da qual o cristianismo é parte integral) e da acomodação cultural por parte da igreja e de suas instituições. Deveriam ter existido mães da igreja paralelamente aos pais da igreja. O fato de que não tenham existido é um escândalo para a igreja, mas não justifica as histórias revisionistas que as inventam.

 

Este é Roger E. Olson na introdução de seu História da teologia cristã, de resto um livro valiosíssimo, embora não pelos motivos que supõe o autor.

Neste trecho Olson está se esforçando para, sem ofender ninguém, corrigir uma falácia: a ideia revisionista de que na história do cristianismo existiram mulheres que se ocuparam de teologia, pensadoras cuja voz foi silenciada por uma ardilosa conspiração de teólogos do sexo masculino. Olson está certo em dizer que historicamente as mulheres não se ocuparam de teologia, mas para corrigir essa falácia ele reforça outra ainda maior e muitas vezes mais popular, a noção de que a teologia é o modo relevante, o modo último e ótimo de se exercer o cristianismo. Ele está efetivamente dizendo: “é uma pena que não tenham havido mulheres teólogas, porque o pensamento teológico é a esfera na qual o cristianismo verdadeiro se desenrola”.

Falando assim, Olson está destilando eficazmente dois mil anos de pensamento masculino: para homens, fazer cristianismo é fazer teologia.

Para homens, fazer cristianismo é fazer teologia.

Não importa o que pensem Olson ou os revisionistas que ele procura refutar: o fato é que não foi por mera falta de oportunidade que as mulheres não se ocuparam de teologia. Num sentido muito essencial, o que as manteve longe das especulações teológicas foi a consciência profunda de que tinham (como mulheres e como cristãs) coisa mais importante para fazer.

A teologia é um exercício intelectual, uma manobra de ideias, um jogo expansionista cujo objetivo é anular a posição do antagonista. A proposta da teologia não é apenas fixar, tabular e estabelecer limites para a imponderável verdade espiritual; seu objetivo declarado é vencer, derrubar, eliminar a oposição pela manobra rasteira do convencimento. Essa sua qualidade de “jogo de quem é mais forte” (ou, no caso, “quem está mais certo”) mantêm-na, irremediavelmente, no terreno dos interesses masculinos.

Não é caminho que as mulheres tenham prazer em trilhar. O jogo masculino, qualquer que seja, não as interessa.

Além disso é preciso reconhecer que escrever teologia é tradicionalmente atividade de homens que não estão fazendo sexo (naturalmente há outros homens, além de teólogos, que não estão fazendo sexo, mas esses estão amortizando essa carência compondo poemas candentes, escrevendo romances vigorosos ou buscando uma solução ainda mais eficaz para remediar a sua situação). Historicamente, portanto — e disso dão evidência tanto as linhas quanto as entrelinhas — a teologia foi escrita por homens obcecados por sexo, e pelos motivos errados. A teologia é o esforço masculino de demonstrar que a verdadeira espiritualidade implica em afastamento do mundo real; daí a abstinência, daí a assepsia das ideias, daí o caráter infantilmente selado das discussões, das quais só podem efetivamente participar os iniciados na adequada gnose.

Escrever teologia é tradicionalmente atividade de homens que não estão fazendo sexo.

Falando claramente, as mulheres não têm esse problema sexual. Não acham necessário contrastar a vida cristã com o que quer que seja, muito menos com algo tão desejável e natural quanto o sexo ou os demais embaraços e delícias da realidade física. Nesse sentido as mulheres rendem-se imediatamente aos charmes de Jesus de Nazaré, o curador e contador de histórias, que por um lado recusava-se a rebaixar-se à especulação teológica, por outro abraçava o mundo dos sentidos com mais avidez e candura do que o mundo das ideias.

Intuitivamente, portanto, as mulheres sabem que a espiritualidade não é coisa a ser cultivada na cabeça, mas no coração; não é atividade que se desenrole no palco das ideias, mas nos bastidores das atitudes. Ao longo da história, enquanto os homens se ocupavam de teologia, as mulheres cristãs viviam (e, como homem, minha tentação é escrever “meramente viviam”, como se viver fosse coisa de somenos).

Elas apostaram consistentemente na ideia de que, se havia algo de relevante na herança de Jesus, isso se manifestava em pés empoeirados, em abraços, em unhas sujas, em panelas de comida, em manchas difíceis de sair, em cafunés, em consolos, em longas conversas na madrugada, na cabeceira dos doentes, na limpeza das secreções, em lágrimas, na confecção de presentes, na sustentação de relacionamentos, na cura de doentes, nas visitas aos esquecidos, no repartir do pão, no sorriso dividido, no dilema de consciência, na intimidade da cama, na companhia silenciosa, na ausência impensável.

Em primeiro de abril de 1933, aos 91 anos de idade, Julie Bonhoeffer (avó do teólogo Dietrich) atravessou desafiadoramente o cordão de isolamento que os soldados das tropas de assalto nazistas haviam estendido no centro de Berlim para promover o boicote aos estabelecimentos judeus. Caminhando além da linha divisória e dos soldados perplexos, Julie foi fazer suas compras na Kaufhaus des Westens, a loja de proprietários judeus que costumava frequentar.

Se resta na terra evidência que honre a herança de Jesus, isso não se deve aos meandros da teologia; não se deve, em grande parte, a homens.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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