Manual de emergência do observador de catástrofes • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 13 de setembro de 2015

Manual de emergência do observador de catástrofes

Estocado em Manuscritos · Pense comigo

A conspiração contra a raça humana (2010), de Thomas Ligotti, foi recebido como o livro mais pessimista de todos os tempos, tendo entre outros méritos inspirado os discursos do policial niilista da primeira temporada de True Detective. Thomas Ligotti é um escritor que me deixa otimista com relação às possibilidades da literatura de horror; seus textos de ficção, reunidos em outros livros, são a única coisa contemporânea que chegou até mim e se aproxima da vertigem que é Lovecraft.

Na qualidade de pessimista, no entanto, Ligotti tem ainda muito a aprender. Comigo.

Diversas vezes tive de interromper a leitura de A conspiração contra a raça humana para balançar cerimonialmente a cabeça e refletir sobre o estado deplorável do pessimismo contemporâneo. “Então esse é o pior cenário que Ligotti consegue conceber?”, eu pensava. “A vida não faz sentido, mimimi? Púats, que amador.” A conspiração é um livro curioso, mas encontro fonte mais segura de desespero e de horror naquelas contas de frases motivacionais do instagram.

Como eu ia dizendo, sou o cara mais pessimista que conheço. Tomando Ligotti como parâmetro, não tenho qualquer evidência de que não sou o cara mais pessimista que já existiu. Como os pessimistas genuínos (está ouvindo, Luiz Henrique), falo raramente sobre o meu pessimismo – porque, naturalmente, não adianta.

Se toco no assunto é porque estes são dias gloriosos para nós, observadores de catástrofes. Chegou a hora da retribuição, inclusive para nós.

É há décadas (milênios?) que pessimistas bem informados (em outro tempo o ofício do pessimismo era chamado de profético) vêm dizendo que a assolação estava chegando para cobrar as nossas promissórias e as promissórias que nos deixaram as gerações. Mas agora que a casa está caindo, tudo ruindo e começando tudo a carcomer, é tarefa difícil escolher para onde olhar.

Para o isento observador de catástrofes, qual cenário apocalíptico deve ter a precedência? Devo dar continuidade às crônicas dos conflitos no Brasil, retomar o estado emblemático da Europa ou começar a falar sobre o Estado Islâmico? Encontro quem sabe tempo para falar sobre o clima?

Século vinte, você acha que empurrar uma Guerra Mundial atrás da outra serviu para garantir a sua precedência na calçada da infâmia? A propósito, você chama aquilo de Guerra Mundial? Veja isto e aprenda.

Diante do número de personagens e da complexidade dos cenários apocalípticos, mesmo o mais experimentado pessimista pode precisar de ajuda para preencher as linhas pontilhadas e decupar os conflitos. Considerando que este é o último espetáculo da Terra, seria grave desperdício você não saber para onde olhar. Para sua conveniência, deito aqui um breve

Manual de emergência do observador de catástrofes

Crise de refugiados na Europa? Índios arrochados no Mato Grosso do Sul? Mercado internacional sequestrado pela dependência da China? Guerra no Oriente Médio entra para o Patrimônio da Humanidade? Crise de abastecimento de água em São Paulo? Proposta da ONU para incluir o desmatamento da Amazônia na lista de direitos humanos? 2015 é já o ano mais quente jamais registrado? Fracasso econômico da política desenvolvimentista do PT está sendo corrigido com mais e mais acelerado desenvolvimentismo?

As veias abertas do Apocalipse são tantas e suas hemorragias tão exuberantes que nenhuma lista será completa o bastante para guiar a atenção do observador de catástrofes. A vantagem é que, macro ou micro, a catástrofe que o amigo pessimista escolher observar estará convenientemente submetida à mesma e didática lógica fundamental.

1 Você está olhando para os resultados de uma monocultura

A história das economias locais demonstrou vez após outra que é insensatez acreditar que há estabilidade nas monoculturas. Quando uma monocultura dá errado, tudo debaixo da sua esfera de influência dá errado (pergunte ao ciclo da borracha, ao do café). No século 21 estamos colhendo pela primeira vez os frutos impensáveis (ou, melhor dizendo, a impensável infertilidade) de uma monocultura global.

Em algum momento processual do século vinte, como resultado da invenção da ideia de país subdesenvolvido, as culturas do globo deixaram de se acreditar suficientes. Países e civilizações inteiras tinham vivido por milênios debaixo da noção (e retroativamente entendemos o quanto essa noção era subversiva) de que seus modos locais de fazer e de olhar o mundo tinham legitimidade inerente, e vantagens inerentes sobre as soluções de outras culturas.

Todas essas perspectivas se deixaram esmagar pela monocultura do capitalismo global e urbano. Que o mundo inteiro esteja desejando as mesmas coisas é por si mesmo uma formidável catástrofe, mas dessa fonte bebem todas as outras.

2 Você está olhando para os resultados de uma crença sem fundamento

A mesquinharia branca foi sempre embalada por alguma sorte de crença pragmática, sem qualquer correspondência com as hesitações e pausas da poesia. Os ingredientes são os mesmos, mas nova é a embalagem, a ideia de promover crenças convenientes e sem fundamento pelo método manhoso de chamá-las de racionais.

Os conflitos que assolam a presente iteração da Google Earth nascem das implicações e complicações de um único artigo de fé:

A crença de que os bens a que tem acesso uma minoria privilegiada podem chegar a ser possuídos pela maioria que deseja ter acesso a eles.

O observador de catástrofes vai encontrar inúmeros deleites em reler o parágrafo acima (encontrei a frase, perfeita como está, neste artigo de Pankaj Mishra ). Pode haver receita mais formidável ou mais certa para o desastre? O magistral é que essa crença – de que os despossuídos podem chegar a aquistar aquilo a que tem acesso os privilegiados – permaneceria sem fundamento mesmo num mundo de recursos ilimitados, coisa que o nosso está longe de ser.

3 Você está olhando para os resultados de uma evangelização universal bem sucedida

Uma boa nova não precisa ter fundamento para ser pregada pelas elites e abraçada pela multidão; basta que pareça comparativamente boa para a maioria e se mostre de fato boa para os mais privilegiados.

A vontade de enriquecer foi tradicionalmente usada como combustível para toda sorte de injustiças (veja-se a história da colonização da África e das Américas), mas até recentemente esse apelo não tinha sido articulado em sua versão mais absurdista. “Estamos sendo pouco ambiciosos aqui”, disse um homem branco de gravata em alguma reunião. “Em vez de partirmos da lorota de que todos querem ficar ricos, por que não partirmos da lorota de que todos podem ficar ricos?”

Nenhuma outra pregação ou ortodoxia mostrou-se mais eficaz do que a do capitalismo/fundamentalismo de mercado, porque antes dele não tinha ocorrido a ninguém articular a singela (e duplamente mentirosa) ideia de que toda desigualdade é justa porque ricos todos podem ficar.

A insatisfação das massas já foi represada com a promessa de uma eternidade de abundância no céu; hoje em dia a mesma insatisfação é represada com a possibilidade de momentos de riqueza na terra. Como se vê, as massas se mostram cada vez menos exigentes e mais crédulas, e a sua apaziguada insatisfação pode ser, de maneira mais eficaz do quem em qualquer sistema anterior, canalizada em favor da causa das elites.

O fundamentalismo de mercado é a monocultura do mundo. Por um lado, todos dentro do sistema podem ser apaziguados à plena submissão: Então você não quer um mundo em que qualquer um possa ficar rico, inclusive você? Sai do caminho que não é por interesse próprio, é por amor à igualdade que estou derrubando essa floresta, seu comunistinha de merda.

Por outro, a inviabilidade e a popularidade do projeto capitalista fazem com que um enorme número de pessoas dentro do sistema conheça medidas desfigurantes de frustração pessoal. Esses decepcionados com a fé podem ser facilmente aliciados por sistemas alimentados pela mesma frustração, como o Estado Islâmico (que é em muitos sentidos uma versão Apple Incorporated – extra focused e inteiramente design-oriented – do terrorismo tradicional).

4 Você ainda não viu nada

Como dizia um pessimista que já partiu desta para melhor, este é só o começo das dores.

A boa notícia é que a justiça poética existe: a promessa de riqueza universal do capitalismo não poderia produzir outra coisa além de miséria universal. Se parássemos hoje mesmo, fechando a lojinha, deixaríamos uma esmagadora quantidade de promissórias não pagas para as gerações posteriores. Naturalmente, estamos longe de parar.

Se tudo der certo, se houver amanhã, seremos lembrados como a geração mais irresponsável da história, isso na história nada insignificante das irresponsabilidades humanas. Por décadas o mundo se perguntou como os alemães sob o nazismo puderam não reagir às arbitrariedades, truculências e injustiças sempre crescentes que culminaram no Holocausto. Agora sabemos de primeira mão como se faz o que eles fizeram.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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