A linhagem interrompida • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 04 de junho de 2015

A linhagem interrompida

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 2 de 2 da série Vamos falar sobre carne

Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
Mateus 1:1

 

Antes de nos aproximarmos dessa conclusão poderá ser útil que nos detenhamos por um momento diante desta única ideia: o quanto o conceito de perpetuação – perpetuação da herança, perpetuação da história e dos valores, mas acima de tudo perpetuação da linhagem – está incrustado na noção de família (e portanto de valor) que prevaleceu ao longo dos milênios.

Uma família, no sentido tradicional, é uma máquina construída para repetir e multiplicar sucessos; porém, mesmo quando tudo dava errado numa determinada derivação da história, restava este consolo e esta missão: persistir. Uma família é uma máquina do tempo: enquanto restam viajantes num determinado ramo de sangue, há esperança de se corrigir a história e de aprimorá-la. Uma família quer muitas coisas, mas sua diretiva primordial é perdurar.

Virtualmente todas as tradições da terra dão testemunho da crença humana no valor inerente da perpetuação da linhagem; para tomar um exemplo que se mostrará ao mesmo tempo típico e relevante, examine-se o Antigo Testamento.

Não há leitor da Bíblia hebraica que não esbarre mais cedo ou mais tarde (e quase imediatamente para quem começa sua leitura no livro de Gênesis) na obsessão dos seus autores com a genealogia. Listas de pais e filhos não fazem boa literatura e não aumentam a legibilidade de um texto, mas o que hoje vemos como tédio ou como obstáculo era evidentemente muito importante para os autores e leitores originais.

No fio da narrativa do Antigo Testamento, a insistência em deixar claro quem é filho de quem, quem é pai de quem e quem é irmão de quem não está ligada a qualquer verdadeiro interesse na acuracidade do registro histórico. A ascendência e a descendência não servem para empoeirar genealogias: são chaves fundamentais da própria trama. Em muitos casos (não seria talvez exagero declará-los maioria) são os laços de sangue que determinam o temperamento, as inclinações, a trajetória pessoal e até mesmo o destino final de um determinado personagem – ou povo.

É portanto para explicar a natureza e o atual estado do mundo aos seus leitores que os livros de Gênesis e de Números pausam tantas vezes para deitar extensas e áridas tabelas genealógicas. Para seus autores, a genealogia era claramente mais importante do que a cronologia ou do que a confiabilidade das fontes. Numa cultura em que todas as espécies de adivinhação eram proibidas, a árvore genealógica funcionava como uma ferramenta de visualização do destino, e portanto da vontade divina. No zodíaco das gerações, só os ramos que continuam a crescer tem chance de experimentar a fortuna; os que esbarram no desfavor divino – para usar uma metáfora a que a Bíblia retorna continuamente – são cortados.

Porém mesmo as dinastias sobreviventes não têm a garantia do divino aval; mesmo para os vivos e para os férteis os laços de família podem determinar um destino indesejável ou fatal. Vir a este mundo, por exemplo, com o sangue de Ismael correndo nas veias é tido (mesmo ainda hoje, mesmo por muitos cristãos) como postar-se do lado errado de uma disputa feroz com desdobramentos cósmicos. Ou, para colocar a coisa de outra forma: se Deus te achasse digno de ser abençoado teria feito você nascer na família certa.

Em conformidade com esse modo de ver as coisas, a narrativa não faz nada para esconder que a esterilidade deve ser entendida como sinônimo de embaraço e de infâmia. Fica claro, através de exemplos negativos e positivos, que morrer sem deixar descendentes é no mundo do Antigo Testamento o destino mais vergonhoso de todos, o emblema visível da mais formidável derrota. Ser incapaz de ter filhos representava, muito literalmente, ser incapaz de ser abençoado. E (por certo a fim de não colocar em dúvida o cacife dos varões bíblicos) na trama são sempre as mulheres – mulheres como Sara, como Ana, como a esposa de Manoá que não chega a ser nomeada, – os personagens maculados pelas esterilidade. Sempre as mulheres, sempre insuficientes, trazendo sempre infâmia para seus esposos viris não fosse pela redentora intervenção divina.

E o Deus do Antigo Testamento, que demonstra uma forte inclinação tribal até ter sua imagem corrigida ou esclarecida pelos profetas, não hesita em intervir na história quando se trata de proteger a família que escolheu para servir de vaso da sua própria singularidade: quando se trata de proteger a sua família. Quando é para corrigir a injustiça e confortar o necessitado não é sempre que o Deus do Antigo Testamento se digna a mover a sua mão; mas se se trata de proteger a fertilidade da linhagem que adotou, o mar se abre, o cutelo é detido, os úteros se aquecem e os inimigos tombam.

 

Quando o Antigo Testamento fechou finalmente as suas portas a ideia da perpetuação da linhagem como símbolo de salvação e de benção já fazia a cabeça hebraica por dois mil anos. A ideia de que Deus faria a todo custo sobreviver o seu povo escolhido – sua carga genética favorita, por assim dizer – contra todas as probabilidades e contra o assédio e a competição de um mar de outras nações, era parte fundamental da vocação de ser judeu e de sentir-se judeu. Essa fé na divinamente garantida fertilidade do sangue definia a leitura do passado, a atitude presente e as futuras esperanças.

Isso era especialmente verdadeiro, e especialmente declarado, no que dizia respeito à dinastia do rei Davi, a quem Deus prometeu que nunca faltaria um descendente para sentar-se sobre o trono de Israel (1 Reis 8:25). Essa ininterrupta dinastia monárquica garantiria que Davi teria para sempre uma lâmpada – isto é, um digno representante – brilhando diante de Deus em Jerusalém (1 Reis 11:36).

Nessa promessa fica escancarada a costumeira associação, onipresente no Antigo Testamento, entre valor, honra, benção, salvação e perpetuidade do sangue. Fica evidente que Deus não encontrou algo mais admirável, valioso ou invejável para dar a Davi que não fosse a garantia de uma dinastia imorredoura. Ela implicava que Davi seria para sempre abençoado, porque não seria jamais esquecido; implicava que o mundo teria sempre esperança de salvação, porque a imorredoura posteridade de Davi serviria ao mesmo tempo de agente divino e de prova física da sua fidelidade.

E implicava que alguém que não tivesse descendentes devia sentir-se um desgraçado.

Por trás de tudo estava ainda a noção, sempre presente no modo de pensar hebraico, de que uma linhagem ininterrupta funcionava como vida eterna honorária. Na porção mais antiga do Antigo Testamento, antes que se desenvolvesse a ideia de ressurreição dos mortos (e portanto de eternidade pessoal e de vida após a morte), a descendência era o modo com que as pessoas contavam provar o sabor da eternidade.

Morrer sem filhos, nessa visão de mundo, implicava ainda em perder a ponte possível com a vida eterna.

Foi a partir desse pano de fundo que o pensamento pré-rabínico, décadas e décadas antes de Jesus, encontrou na Bíblia hebraica material para delinear o retrato falado do Messias. Essa figura tinha como primeira descrição de cargo ser descendente de Davi, nascido de um dos ramos de sua imperecível linhagem; depois, quando viesse à luz, seria reconhecível por reunir os judeus dispersos no exílio, por restabelecer a independência de Israel e por assumir finalmente o seu posto de direito no trono de Jerusalém, conforme Deus havia prometido. Desse modo, marcado por um governo tão formidável que acabaria conquistando o respeito e a devoção de todas as nações, o messias inauguraria uma nova e admirável dinastia que não teria fim.

É preciso ter tudo isso em mente para meramente começar a apreender o escândalo e o protesto que Deus ou os autores dos evangelhos engendraram no desalinhado rabi da Galileia; o assombro e a subversão que representou, num mundo condicionado a pensar desse modo, que Jesus tenha angariado a reputação de messias sem ter deixado descendentes de sangue – isto é, sem deixar qualquer demonstração palpável e permanente de valor, de benção, de eternidade e de salvação.

Pois por tudo que sabemos (Dan Brown pode ser ignorado com segurança) Jesus nunca se casou, e é ainda menos provável que tenha tido filhos. No mínimo, é essa a impressão que os autores do Novo Testamento querem que tenhamos dele: o homem da dinastia de Davi que ao mesmo tempo honrou essa linhagem mais do que qualquer outro e deixou-a formidavelmente interrompida, morrendo de modo violento e prematuro. Seria talvez passível de perdão que se tenha deixado assassinar, tivesse deixado um rebento para levar o seu nome e municiar a sua vingança, mas metade do drama reside em que o sangue de Jesus tenha sido derramado sem que ele tenha tido ocasião de produzir um vaso de carne para portar o seu sangue futuro adentro.

Veja-se por exemplo o evangelho de Mateus, que inaugura o próprio Novo Testamento e começa tomando imediatamente seu leitor pela mão e rastreando com ele uma longa e nobre linhagem que parte de Abraão e chega obedientemente até José (Mateus 1:1-17). Ao que tudo indica, na verdade, Livro das gerações (ou da genealogia) de Jesus Cristo (conforme o primeiro verso do primeiro capítulo) é o título que o autor do evangelho de Mateus teria escolhido ele mesmo para o seu livro (“Evangelho segundo São Mateus” foi nome atribuído à obra só muito tempo depois da sua composição).

Naquele tempo e naquela cultura, é impossível que o autor do evangelho de Mateus não tenha entendido ou planejado a ironia que representava dar ao seu livro o título de Livro das gerações de Jesus, e de abrir a obra retraçando apoteoticamente a sua árvore genealógica, quando sabia muito bem que o próprio Jesus não havia deixado descendentes. Não tinha como ignorar que, no que diz respeito à carne, a linhagem gloriosa a que ele recorria como aval e como argumento em favor da autoridade divina de Jesus tinha sido incontornavelmente interrompida pelo próprio. É pouco provável, na verdade, que os cristãos que decidiram colocar o livro de Mateus (e portanto a formidável genealogia interrompida na pessoa de Jesus) para abrir o Novo Testamento não tenham sacado eles mesmos a potência ou as implicações dessa ironia.

O que quero nas próximas páginas, essencialmente, é convidá-lo a ponderar comigo o significado de uma contraste deste calibre.

Embora não cheguem a tratar explicitamente da questão, entendo que para os autores do Novo Testamento o fato de Jesus não ter deixado descendentes de carne é tão importante para a compreensão de sua missão e para a interpretação da sua mensagem quanto o fato de ele ter morrido e ressuscitado.

Intérpretes contemporâneos tendem a encontrar na tácita castidade de Jesus um indício precoce da demonização do sexo que sequestraria a mentalidade cristã logo nas primeiras décadas depois da saída de cena dos apóstolos. De minha parte, enxergo na resoluta infertilidade do Filho do Homem uma carga mais exigente e subversiva, e espero poder demonstrar que os autores do Novo Testamento viam a coisa de modo semelhante. Em questão não estava a demonização do sexo, mas uma denúncia e um convite implícito a uma ampla reavaliação e ressignificação da ideia da supremacia e da suficiência da carne/família.

Porque a ânsia por perpetuar é, em última instância, movida pelo medo de perder – e os autores do Novo Testamento queriam crer, incrivelmente, que Deus estava em Jesus inventando um ser humano que não tinha medo de nada.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Vamos falar sobre carne

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  1. A herança perdida
  2. A linhagem interrompida
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