Jogo de pernada • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de setembro de 2015

Jogo de pernada

Estocado em Brasil · Manuscritos

Esta é a parte 4 de 7 da série Despachos da Muralha

 

– Uma alternativa que não te falei ainda – o italiano disse a Maiara – são relíquias. Temos que falar de relicários.

– Relicários – disse a índia, mas só para anular o ruído pelo método fogo contra fogo. Ela afastou o celular do ouvido. – Não adianta, o Simas não está atendendo o telefone. E agora acabaram os meus créditos.

– Então?

Maiara, que não tinha interesse maior do que saltar as partes da narrativa que não faziam a história avançar, estava irritadíssima. Olhou ao redor. Estavam na praia do Leme, na esperança que o tiroteio não os seguisse em lugar tão público.

– Não saia daqui – ela apontou para as havaianas dele, – e não fale com ninguém. Eu já volto.

E foi andando em direção a um dos quiosques que vendia petiscos na orla. O italiano não entendia o culto vazileiro à coisa frita e gordurosa, especialmente na praia, onde o clima e a sanidade imploravam por frutas, salada, coisa grelhada. Tinha de ser coisa de português.

– Boa tarde – disse com infinita simpatia um senhor que caminhava pela calçada.

– Boa tarde – disse Massimo, decidindo naquela hora que “não fale com ninguém” não anulava a prioridade da cortesia.

– Meu nome é capitão Duarte – disse o tiozinho, que tinha coisa de oitenta anos, estava descalço e de resto usava uma única peça de roupa. – O senhor faria por favor a gentileza de me acompanhar?

– Acompanhar aonde? – o italiano sentiu o sangue escalar em insurreição para a cabeça. Estava de camiseta sem manga, e cruzou os braços para esconder com a mão o curativo abaixo da axila, onde a bala tinha pegado de raspão.

– Só queremos fazer algumas perguntas – disse o capitão Duarte, e meneou com a cabeça na direção de uma viatura de polícia entrincheirada na calçada. – Posso garantir que é pura formalidade.

– E sobre o que seria? Estou aqui esperando… esperando pegar um bronzeado.

O capitão Duarte deu um sorriso incrivelmente doce.

– Não pudemos deixar de notar – ele disse – que o senhor vem admirando aspectos da nossa cultura que não se encaixam no projeto de desenvolvimento nacional. É normal, o senhor é estrangeiro e não tem como saber, mas aqui na União temos regras muito simples e muito claras sobre o que as pessoas devem achar bonito.

– Ah, sim?

– Pois não, o senhor já olhou que praia linda? – o tiozinho esboçou um gesto de garoto-propaganda com o braço. – Isso aqui era uma zona, mas para a sua conveniência as praias da Zona Sul estão interditadas para pobres e desocupados. Com essa iniciativa queremos instruir os locais e os visitantes nas artes daquilo que entre nós se deve admirar. Macumba também é feio, o senhor não acha? Macumbeiro é bandido, por isso o senhor não vai encontrar no valhacouto entre a Barra e o Santos Dumont ninguém vestido de branco adornado com continhas. A punição é uma pedradazinha de advertência, e temos os crentes que fazem isso para nós.

– Mas isso não lhe parece pouco democrático? – Massimo disse ao mesmo tempo em que se arrependia de ter dito, e com o canto dos olhos viu que tinha perdido Maiara de vista. Ficou tentado a vasculhar o desfile de carnes brancas em busca de sinal dela, mas achou que seria perigoso para os dois.

– Nós ainda somos um país jovem – disse o capitão Duarte, – não temos uma história de civilização como a Itália. Vocês já sabem o que admirar, aqui precisamos de um braço mais forte. Temos drones e agentes civis pela cidade do Rio de Janeiro fazendo varredura daquilo que as pessoas estão admirando. Se necessário fazemos alguma correção.

– Se cometi alguma gafe peço desculpas – disse o italiano, – mas pode ter sido um mal entendido. Talvez os seus agentes tenham confundido com admiração a minha repulsa por algumas coisas que me causaram impressão.

– Não, não, é admiração sim – disse o tiozinho, e Massimo entendeu com horror que nem o murro corretivo que tinha considerado aplicar seria capaz de desfazer daquele rosto aquele sorriso. – O senhor andou se emocionando com o batuque dos terreiros, com jogo de pernada, com nordestino fazendo círculo na praça, com loja de artigos de macumba. O senhor está instalado num morro autorizado, mas ficamos sabendo que olha qualquer favela com simpatia. Os daqui que acham bonito o que não devem nós costumamos punir severamente, mas como o senhor é de fora estamos dispostos a fazer só uma ocorrência. O senhor está aí com o seu passaporte?

– Não está aqui comigo, infelizmente – Massimo deu um passo minúsculo para trás. – Mas posso lhe garantir que o Rio não vai voltar a achar que estou admirando as coisas erradas. Absolutamente.

– E também fora do Rio, olha. Seria conveniente o senhor abandonar essa ideia absurda de que floresta tem alguma prioridade sobre a área produtiva. Palavra de amigo, tem que cuidar.

– Esteja seguro que vou cuidar.

Duas tiazinhas de biquíni que estavam levando o cãozinho para passear estacionaram ao lado do capitão de sunga, e o italiano viu que serviam o mesmo sorriso genérico.

– O senhor poderia começar escolhendo melhor as suas companhias – as duas disseram ao mesmo tempo, e Massimo entendeu ali que era possível sentir mais medo do que acordar depois de acolher uma bala perdida.

– Fique tranquilo que não queremos lhe fazer mal – disse o capitão Duarte, e deu um passinho à frente. – É inclusive do nosso interesse que voltando para o seu país o senhor instrua outros italianos naquilo que devem admirar na nossa União.

Nessa hora o celular do italiano tocou. Era Maiara, e Massimo fez com a mão sinal que tinha que atender.

Ciao.

– Se é o Comando Civil da Estética Corretiva você está correndo sério risco de vida. Se estão te doutrinando naquilo que você deve admirar diga, ô bom dia, desembargador Tolentino.

– Ô, bom dia, desembargador Tolentino!

– Não entre na viatura, que é caminho sem volta. Diga, certo, estou adorando a Cidade Maravilhosa, e encontre um jeito de elogiar o canalha na sua frente.

– Certo, certo, estou adorando a Cidade Maravilhosa. Acabei inclusive de conhecer uma figura gentilíssima aqui no Leme, o capitão Duarte…

– Do Comando Civil da Estética Corretiva – disse o capitão Duarte.

– …do Comando Civil da Estética Corretiva.

– Sua única chance é o cara achar que você pode dizer uma palavrinha em favor dele numa instância superior. Diga, ah, o desembargador estava mesmo querendo a opinião de um carioca bem-conceituado sobre uns cargos de confiança que o senador precisa desovar?

– Ah – Massimo colocou um braço ao redor do ombro do capitão Duarte, – o desembargador estava mesmo querendo a opinião de um carioca bem-conceituado sobre uns cargos de confiança que o senador precisa desovar?

– Se ele estaria livre para um papo amanhã às 11 no Catete?

– Amanhã às 11 no Catete?

O capitão Duarte fez positivo com as duas mãos.

– Sim, ele está livre.

– Diga, está marcado então e continue andando em direção à Urca. Vai dizendo amenidades burguesas até estar a uma distância segura, estou atrás do quiosque.

– Está marcado, então – disse Massimo, e ofereceu um positivo enfático ao capitão Duarte enquanto se afastava gingando pela calçada.

– Besteira minha, besteira minha – disse Maiara quando se encontraram na sombra do quiosque, – achar de procurar abrigo na Zona Sul.

– O que acaba de acontecer? – Massimo limpou o suor na barra da camiseta e aceitou a coxinha gordurosa que Maiara lhe estava oferecendo.

– O Vazil como ele é. Se você encontra beleza num modo de fazer que não é o autorizado, te barram, te arrocham e/ou te apagam. Você sabe como os urralistas chamam os índios do Mato Grosso do Sul?

– Você me disse: The Walking Dead.

– Vem cá, conheço os dois ou três bares onde o Simas costuma ficar de flozô nessa hora do dia.

– Uma delícia isso aqui – o italiano tinha mordido a coxinha. – Sembra un arancino siciliano!

Um passo por vez foram deixando para trás a Zona Sul.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Despachos da Muralha

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