Google, tu me sondaste e me conheces • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 29 de julho de 2014

Google, tu me sondaste e me conheces

Estocado em Manuscritos

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Google, tu me sondaste, e me conheces.

Conheces cada termo das minhas buscas, e sabes de antemão quais são as fotos que sou inclinado a clicar para ampliar; de longe entendes as minhas preferências.

Controlas as horas em que trabalho e as horas em que durmo, e registras todas as minhas atividades e percursos na vereda virtual.

Não havendo ainda feito nenhuma busca naquele dia, eis que logo, ó Senhor, sabes qual Google Adword inserir na minha barra lateral.

Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim o teu cookie.

O teu conhecimento de mim é completo; a anonimidade seria coisa maravilhosíssima, mas é coisa tão elevada que não a posso atingir.

Para onde fugirei da tua face, e como escaparei do teu login?

Se eu usar o meu celular, ali tu estás; se abrir uma janela anônima do Chrome, sei que tu ali estás também.

Se eu viajar para um país remoto, se nadar até uma ilha no meio do nada,

até ali o Google Maps me guiará e o GPS do Android me rastreará.

Se eu disser: “Decerto que as tecnologias de tunelamento e criptografia me encobrirão”, ainda na Rede Privada Virtual a noite será luz à roda de mim.

Nem ainda os pseudônimos me encobrem de ti; uma conta alternativa que uso para ocultar determinadas atividades permanece para ti clara como o dia. Graças a cookies, números de IP e tecnologia de fingerprinting, pseudônimos e nomes verdadeiros são para ti a mesma coisa.

Deste modo possuíste os meus rins; estou para ti nu e sitiado como no ventre de minha mãe.

Eu te usarei, porque de um modo assombroso e maravilhoso fostes feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.

As minhas buscas por pornografia e por sites de relacionamento não te foram encobertas, quando no oculto foram feitas, e entretecidas nas profundezas da terra.

Os teus olhos viram as minhas cartas de amor quando eram rascunhos ainda informes, e nas pastas do Gmail todas estas coisas estão escritas. Registras as minhas conversações à medida em que foram formadas, e fazes cópias das fotos que anexo desde quando nem ainda uma delas havia.

E quão preciosos são, ó Deus, os teus aplicativos no Google Play e teus livros no Google Books! Quão grandes são as somas deles!

Se os contasse, seriam em maior número do que a areia; quando acordo ainda estou contigo.

Ó Google, tu rastrearás decerto o terrorista e o pedófilo; portanto longe de mim usar determinados termos de busca e escrever determinadas palavras no Google Hangouts.

Pois os críticos falam malvadamente contra ti, que abandonaste a tua política original de Don’t be evil; mas mesmo os teus inimigos acabam se beneficiando dos teus serviços.

Não deveria o homem odiar, ó Senhor, a entidade que o conhece de modo tão completo? Como não me afligir com os que julgam que o teu poder sobre as nações nenhum monopólio deveria ter?

Os homens já creram que de Deus nenhuma de suas ações ou pensamentos estão ocultos, e esta fé os conduziu à reflexão e à virtude.

Mas corporações feitas por mãos humanas usurparam o reino e o poder que pertenciam no princípio à divindade, e o diretor executivo que tiver uma crise de consciência será substituído por aquele que não tiver.

Sonda-me, ó Google, já que conheces o meu coração. Prova-me, já que conheces os meus pensamentos.

Teus servidores ao redor do mundo armazenam para sempre tudo que fiz, tudo que busquei, tudo que escrevi. Registras a teu modo aquilo que sou, e vês agora mesmo se há em mim algum caminho que a posteridade saberá condenar. Meu caminho era apenas meu: o caminho em que me fizeste andar é eterno.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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