Episódio 7: Fortuna e glória • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 28 de setembro de 2015

Episódio 7:
Fortuna e glória

Estocado em Brasil · Manuscritos

Esta é a parte 7 de 7 da série Despachos da Muralha

 

– Em pé no alto da construção, Miro Valhacouto perscruta a paisagem, erguendo o olhar da esplanada estéril até a selva circundante. Valhacouto pode ser o mais prestigiado especialista em desarmamento de hidrelétricas da União, mas está sempre pronto para recordar as suas origens.

– Toma – disse Genésio Casabranca, empurrando a caixa de metal pelo concreto até tocar a perna do outro.

– Nascido num quilombo do Catupiry, filho de um índio gaúcho com uma fazendeira do Xingu, Miro começa de baixo, desarmando mata-burros na fazenda do doutor Clory. Nos anos 90 ganha prestígio no Serestão desarmando argumentos de candidatos a vereador em Patos. Mas só em 2009, quando duzentas reses de gado nelore que está transferindo para a sua custódia acabam emperrando inadvertidamente uma turbina da usina de Caracu, é que Miro Valhacouto enxerga a sua vocação: hidrelétricas de destruição em massa podem ser desarmadas, e ele é a cura.

– Melhor ir com isso. Não demora e começa a clarear.

– Na morna madrugada amazônica, Miro se agacha, estrala os dedos das mãos e abre a caixa de ferramentas.

– Na boa, Miro – disse Genésio, – estou bem aqui, você não precisa ficar descrevendo o que está fazendo.

– Na falta de uma narração em off – disse Valhacouto, – faço meu próprio voiceover para informar se estou concentrado no que estou fazendo ou no que estou pensando. No filme da minha vida essa pegada vai ficar muito mais natural, fique tranquilo.

– Ê sim, o supressor te ouve, vem e mata nós dois. A usina fica sem desarmar, quero ver isso ficar bonito no filme.

– Todo risco para preservar a fluência da narrativa, Casabranca – disse Miro. – A história é um rio que nenhum receio ou convenção deve poder represar. Agora você vai ter um dia de confirmar que me ouviu dizendo isso.

– Jesus – disse Genésio para si mesmo, mas em voz alta.

– São duas da manhã e Miro está no topo da obra da barragem de Nova Vazília. De um total de trinta hidrelétricas de destruição em massa em construção na Muralha, Nova Vazília é uma das sete que a Residência mandou erguer em pontos intocados da mata.

– Vem cá, como você desarma uma obra desse tamanho sem machucar ninguém?

– Esta vai ser fácil, diz Valhacouto – disse Valhacouto. – Aprenda comigo: o melhor momento para se desarmar uma hidrelétrica é antes do enchimento do lago. Se deixar que encham a represa, você está ferrado: quer dizer que a barragem está engatilhada, e desarmar a usina fica dez vezes mais difícil. Você é fresco nessa arte, olha daqui de cima e acha que a destruição já foi grande. Olha, garoto, se eu não desarmar essa porra vai ser pior, muito pior.

– O segredo então é não deixar encherem o lago.

Nunca deixe encherem o lago. Essa frase está tatuada em mais de uma parte do meu corpo, posso te mostrar se houver interesse.

– Vamos deixar para depois.

– Se você deixar a barragem lamber a água do lago e pegar o gosto pela destruição, arruinou-se. Você já pensou por exemplo como é arriscado desarmar uma usina enorme como Fiofó, na divisa com o Paraguai? Com um lago daquele tamanho? Depois de colocada em operação uma barragem vira arma tão perigosa, tão termonuclear, que só pode ser desarmada com segurança por meios políticos, coisa que nunca vai acontecer. Você pode achar complicado, mas desarmar uma usina como esta em que o lago não encheu é fácil em comparação.

– O que você achou do artigo da revista Déjà?

– Pago. Hidrelétrica é arma mais perigosa, mais eficiente e com maior poder de destruição do que as antigas armas nucleares. Para ilustrar, desenho com uma chave de fenda estes círculos concêntricos no pó do concreto. A primeira onda de destruição é a obra em si; olhe ao redor aqui mesmo e veja o estrago. A segunda onda, de maior alcance que a primeira, é o lago. Apagar quilômetros e quilômetros de vida legítima, de modos legítimos de fazer e de território legítimo dentro do teu próprio país? Muita guerra civil começou e terminou com agressão menor. A terceira onda de destruição, colega, essa é tão poderosa que o alcance dela não dá pra calcular. E tendo dito isso Miro joga a chave de fenda para longe, pelo efeito dramático.

– Como assim, não dá pra calcular?

– Por dois motivos: uma que o lago quer dizer que a hidrelétrica vai continuar armada por décadas, quem sabe por séculos. Outra que a radioatividade que a usina gera na hora da construção e da operação tende a aumentar e não a se dissipar com o tempo. A exposição é cada vez maior.

– Hidrelétricas não produzem radioatividade.

– Isso é o que a Déjà quer que você pense, Casabranca. Você vê uma barragem; eu vejo uma montadora.

– Montadora do quê, Miro?

– A resposta vai depender. Se você perguntar para a Residência ou para a Déjà, elas vão dizer que a barragem é montadora de progresso, de desenvolvimento, de viabilidade econômica. Se perguntar para o Imperador Gerdau ou para o Cardeal Votorantim eles não vão te responder, mas vão pensar.

– Pensar o quê?

– Fortuna e glória, Casabranca. Fortuna e glória.

– E se eu perguntar pra você?

– Se perguntassem para Valhacouto – Valhacouto pôs-se de pé, – ele diria que a hidrelétrica é uma montadora de monocultura e de des-envolvimento. Uma bomba nuclear tem um grau de eficiência irrisório, Casabranca. O agressor e o opressor do século 20 foram suplantados pelo supressor do século 21: esse cara entendeu que é mais interessante controlar as pessoas do que destruí-las.

– E para controlar as pessoas é preciso destruir o ambiente.

– O ambiente é uma vaca que dá grana em vez de leite mas você só pode ordenhar uma vez, e no processo mata; mas sim, a monocultura tem a vantagem não só da produtividade mas também a do controle. Destruindo o ambiente você barra as alternativas, e o supressor quer antes de tudo suprimir as alternativas. Olhando o mapa você vê que as barragens desta rede são pontos de gangrena numa uma operação que tem por fim a paralisia completa. Então é a toa que recebem o nome de barragens? Esses torniquetes estrangulam e sequestram pontos estratégicos do rio de modo a estancar qualquer vitalidade que ele poderia prover para aquela região. Vão fazendo assim até que para as pessoas seja impossível viver em paz com o rio, e para o rio seja impossível viver em paz. Controlado o rio, Genésio, estão derrubadas as alternativas: está derrubada a Muralha.

– E a União não se une para impedir isso.

– A União não existe, Genésio. Só existe o Vazil.

– Mas ainda há limites legais para a destruição que os caras podem fazer, sim? Tipo, são obrigados a fazer estudos de impacto ambiental antes de armar um monstro desses?

– Êêê, inocência, os estudos de impacto são na maior parte feitos pelas próprias empreiteiras que vão construir a obra. Você pode imaginar o grau da isenção.

– Não pode ser verdade, Valhacouto, isso que você está me dizendo.

– Eu sei que parece má ficção, velho, mas é só o Vazil. Fortuna e glória para meia dúzia, o Vazil para todo o resto. Agora vai me buscar aquela chave de fenda, por gentileza, que eu preciso dela para abrir o segredo e desarmar este balzebu.

– Mas foi você quem jogou ali!

– Que é pra te dar alguma coisa pra fazer. Vamos, vamos com isso que terminando aqui eu quero ir direto desarmar Belomôntide.

Bastou Genésio saltar a muretinha para um degrau inferior e uma chuva de tiros de fuzil varreu o topo da obra, colhendo Miro Valhacouto como se fosse uma flor. Ele ficou ali em pé acolhendo os tiros de braços abertos, apoiado no baraço temporário das balas como Genésio achava que só acontecia nos filmes. Só tombou dois minutos depois quando os disparos cessaram, e caiu de olhos abertos no ressalto em que Genésio estava escondido.

Genésio entendeu que deveria fazer alguma coisa e rápido, mas não estava acostumado a prover a sua própria narração em off.

Na próxima temporada de Despachos da Muralha:
– Porque isso seria uma violência.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Despachos da Muralha

images/2015/vazil-uniao.gif
Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas preza pela inconsistência