Fanfarra para o homem comum • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 20 de agosto de 2007

Fanfarra para o homem comum

Estocado em Pense comigo

 

A sombra na súbita celebridade de Paul Potts está, é claro, na possibilidade (a certeza, dirão alguns) de a fama acabar corrompendo um sujeito tão evidentemente gente boa como ele. A fama é uma gasolina implacável que queima tanto quanto ilumina; ninguém, absolutamente ninguém, escapa ileso da celebridade.

A fama quer destruir Paul Potts, quer destruir Ricardo Gondim, quer destruir o Papa, quer destruir até mesmo este pobre articulista de que ninguém ouviu falar. É preciso uma tremenda dose de integridade pessoal – e penso em exceções como Jesus, Gandhi e Madre Tereza – para resistir ao cal descaracterizador da celebridade. Esses heróis da resistência fugiram constantemente da celebridade, mas mesmo eles morreram um pouco a cada dia com o toque profano dela.

A celebridade é doença terminal porque extrai do sujeito a sua coisa mais essencial, a sua humanidade. Transformar homens em ídolos é despojá-los de sua humanidade, e portanto de sua relevância. É ajoelhar-se diante do acessório recusando-se a abraçar o essencial. É espetáculo de antropofagia, consumo público de seres humanos.

E, depois de conviver por tempo suficiente com a adoração, a vítima da celebridade enfrentará um dia a tentação de ajoelhar-se diante de si mesmo – tentação que é possível resistir por algum tempo, mas não indefinidamente ou o tempo todo. E quando o ídolo finalmente resvalar e cair, cairá publicamente, e seu público estará pronto para contorcer-se em horror e prazer diante da sua capitulação – num êxtase fora do corpo que terá precisamente a mesma natureza e intensidade daquele em que o aplaudiram na primeira vez.

* * *

Há no entanto algo de terrivelmente belo, algo de profundamente certo e curativo, na ascensão meteórica e na adoração arbitrária do azarão Paul Potts. Minha impressão é que apenas parte desse sentimento origina-se no prazer rasteiro do anacronismo – o deleite plebeu de ver um homem ordinário fazendo feitos extraordinários.

É claro que amamos Paul pela sua medida de competência, mas – e há aqui uma surpresa – amamo-lo também pelas suas incompetências, que razoavelmente nos representam. Um homem sem atrativos brilha por alguns momentos como um deus, e nos ocorre a atordoante possibilidade de que talvez haja um deus à espreita dentro de cada homem. Imagino que todos os homens sejam redimidos, por um instante, por essa nossa percepção fugaz do mistério que permanece fechado em todos.

Shakespeare opinou, pela boca de Hamlet, que se déssemos a cada homem o que merece não haveria quem escapasse do açoite. A glorificação do anônimo Potts, por outro lado, faz-me imaginar que se a cada homem fosse dado encontrar uma voz para expor sua ânsia sem nome e a ourivesaria de sua arquitetura interior, não haveria quem escapasse do aplauso.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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