Estados cada vez mais dominados pelo capital • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 02 de março de 2015

Estados cada vez mais dominados pelo capital

Estocado em Goiabas Roubadas · Política

Charles Stross

 

[1] Estamos vivendo uma era de automação crescente, e está muito claro que a adoção da automação privilegia o capital em detrimento da força de trabalho.

Tem ficado muito claro que o capitalismo não requer a democracia; ele nem mesmo se beneficia dela.

[2] Um efeito colateral da ascensão do capital é a financeirização de todas as coisas (tudo, até a força de trabalho, é reduzida a instrumento financeiro). O capital passa a fluir para os centros de lucro, e se esses não existem em número suficiente os lucros são creditados àqueles que conseguem imaginar novos (mesmo quando os produtos ou bens que estão garantindo são essencialmente imaginários: futuros, derivados, obrigações de dívida colateralizadas, crédito educativo).

[3] Desde o colapso da União Soviética e da ascensão da China pós-Tiananmen tem ficado muito claro que o capitalismo não requer a democracia; ele nem mesmo se beneficia dela. O capitalismo como sistema pode muito bem funcionar melhor na ausência da democracia.

[4] A lei de ferro da burocracia afirma que o grosso da atividade de uma organização será dedicado à perpetuação da organização, não a execução de seu objetivo declarado.

[5] Governos são organizações.

[6] Ao redor do mundo, estamos testemunhando uma militarização crescente das forças policiais e a priorização de agências de segurança e serviços de inteligência. E, na mídia, um rufar permanente do tambor do medo, da dúvida e da paranoia contra “os terroristas” (um tigre de papel que mata menos de 0,1% do que as vítimas de trânsito).

O capital pode mover-se livremente entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido, a força de trabalho não.

[7] O dinheiro pode comprar a cooperação de gente no governo, mesmo quando não deveria.

[8] A internet desintermedia as redes de suprimento.

[9] Numa democracia a legitimidade política é um recurso finito, pelo que suas fontes são limitadas.

[10] O propósito da democracia é prover um mecanismo formal de transferência de poder sem violência, quando a facção no poder perder a sua legitimidade.

[11] Nossos mecanismos de transferência de poder datam do século dezoito. Demoram inerentemente mais para responder à mudança do que a internet e as agências de notícias.

[12] Um efeito colateral de [7] é [2] a financeirização dos serviços do governo.

[13] As agências de segurança estão obedecendo a [4] (a lei de ferro da burocracia) quando entram em metástase, citando [6] (o terrorismo) como justificação para a sua expansão.

[14] A expansão da vigilância estatal é desejável para o governo não por causa da ameaça terrorista (que é em grande parte forjada) mas por causa de [11]. [9] (A legitimidade do governo) está se tornando cada vez mais difícil de justificar no contexto de [2] — [12] é profundamente antipática ao eleitorado, mas [3] implica em que os interesses do público (força de trabalho) são ignorados por Estados que são cada vez mais dominados pelo capital (devido a [1]) — a não ser que exista a ameaça de desordem civil. Por isso os Estados estão se armando para desordem civil em larga escala.

[15] O termo “Estado falido” carrega uma enorme bagagem implícita: falido em que sentido, exatamente? A resposta não-articulada é “deixou de satisfazer os requerimentos do capitalismo global” (não os da democracia — veja [3]) por deixar de facilitar adequadamente [2].

[16] Sou de opinião que um Estado realmente falido é aquele deixou de servir os interesses dos seus cidadãos (desde que seus interesses não entrem em conflito com outros Estados).

[17] No futuro a pressão entre Estados pode vir a pesar sobre Estados que deixaram de satisfazer os critérios de [15], mesmo quando não são Estados falidos no sentido legítimo de [16] (veja-se o caso da Grécia).

[18] Como seres humanos, nosso papel nesse cenário é o de unidades da força de trabalho (a não ser que sejamos podres de ricos, e portanto raros).

[19] Portanto, no contexto de [17] e [18], somos a bucha de canhão numa guerra pelo controle das sociedades por forças opositoras cada vez mais poderosas do que nós.

 

Notas posteriores:

a. Créditos estudantis são financiamentos levantados em favor de um produto imaginário — algo que pode ou não existir dentro da cabeça de alguém e que pode ou não capacitá-lo a acumular mais capital se for capaz de usá-lo do modo esperado e que permaneça útil por um período entre 20 e 30 anos.

b. Algumas pessoas (especialmente os norte-americanos) acham que fuzis AR-15 são uma garantia de que podem resistir à tirania. Armas, no entanto, são uma resposta do século dezoito a ameaças à democracia do século dezoito. O capital não precisa apontar uma arma para tirar os seus direitos democráticos; ele só precisa de mais câmeras, mais policiais e um sistema legal que seja equânime e justo e que leve você à falência se um dia for acusado de desordem pública e não declarar-se culpado.

c. Uma peça importante desse quebra-cabeças é que embora o capital possa mover-se livremente entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido, a força de trabalho não pode. O capital portanto migra em busca da força de trabalho mais barata, colhendo desse modo lucros maiores. Lembre-se disso na próxima vez em que alguém reclamar dos “imigrantes que estão vindo roubar nossos empregos“.

Charles Stross, em A different cluetrain

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