Elegia para um herói quebrado • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 29 de maio de 2015

Elegia para um herói quebrado

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Dani é um cara com uma barba selvagem e um cabelo de leão. É um erudito, uma usina de força e um santo que viveu a maior parte da vida na companhia sem glamour de gente brutalizada que o mundo esqueceu: drogados, prostitutas, sem-teto, travestis, meninos de rua. Dani era um dos meu heróis pessoais por cada uma dessas razões, mas Dani quebrou e não pode ser mais usado como herói – pelo menos não do modo que eu costumava usá-lo antes.

Quando escreve sobre o que aconteceu, e o faz raramente (Dani escreve hoje muito menos do que fazia), ele explica que, essencialmente, exauriu e morreu. Morreu e foi comido pela escuridão até a escuridão não encontrar nada mais o que comer. Saciada, a escuridão se aninhou dentro dele e Dani passou ser um com o Nada: sem ódio e sem alegria, sem rancor e sem esperança.

No que me diz respeito, meu amigo Dani não morreu: ele quebrou. Quebrar é um pouco como morrer, mas pode ser um pouco pior, porque quem morre não tem de passar pela indignidade de continuar caminhando morto por aí. Quem quebra, se continua a viver é quebrado.

Quando penso em Dani antes de quebrar, meu Deus, que visão formidável. Antes de tudo, era homem desavisado o bastante para viver em conformidade com as suas palavras. Como já ousei fazer, Dani escrevia sobre os inimigos estruturais da justiça social, sobre a perversidade circular dos mecanismos de dominação, sobre povos e indivíduos esmagados pelas engrenagens inclementes do capitalismo, e em seus textos propunha uma bem amarrada cadeia de estratégias de resistência contra cada um desses demônios. Muito maior e mais insensato do que eu, Dani não se limitava a escrever, e por décadas gastou cada minuto das suas vigílias engajado nesses conflitos. Enquanto eu e você corríamos atrás de melhores salários e carreiras, de casas e automóveis que melhor representassem a nossa singularidade, Dani batia o seu ferro na rua, usando a têmpera da sua carne para reverter em arados, uma a uma, as espadas da injustiça.

Impenitente, ousou ter mulher e filhos e não os poupou dessas grandezas. Sua mulher por certo conheceu a desesperação e a fúria, e seus filhos foram vez ou outra embalados por braços marcados pela droga. Todos sabiam o que Dani fazia; todos sabiam que ele não poupava nenhuma face da sua vida da luta que era para ele a única que valia à pena lutar.

Não bastasse essa terrível consistência, Dani encontrava não se sabe de onde tempo e disposição para ser erudito maior do que jamais chegarei a ser. Lia febrilmente, citava Foucault, Zizek e Derrida como quem passa margarina no pão e colocava um contra o outro uma multidão de pensadores originalíssimos que só ele parecia conhecer.

Foi Dani quem me apresentou ao marxista cristão José P. Miranda, que encontra no nome hebraico Yahweh forte indicação de que Deus ainda não é; Deus só será num mundo de justiça, e “toda sua inter­ven­ção na história é no sentido de formar uma huma­ni­dade em que ele final­mente seja capaz de ser.” Foi Dani que me apresentou ao insano Roland Boer, autor de delícias como A economia sagrada de Israel, Crítica do céu e da terra e Ídolos das nações: mitologia bíblica e as origens do capitalismo. Foi Dani quem explicou-me pela primeira vez que o Novo Testamento deve ser lido – das subversões políticas da história do Natal às universalidades de Paulo – como tratado antiimperialista. Foi Dani quem me fez refletir pela primeira vez sobre os privilégios de raça e de sexo, e na infinidade de obstáculos e constrangimentos que não tive de enfrentar neste mundo porque tenho a fortuna arbitrária mas muito conveniente de ser branco e do sexo masculino.

A energia para iluminar toda essa metrópole Dani encontrava, naturalmente, no Novo Testamento em geral e na pessoa de Jesus em particular. Não faço ideia se Dani se preocupava em falar de si mesmo como cristão, mas era um cara radical, um cara de esquerda, um cara pra quem esperar não é fazer, que falava todo o tempo na herança subversiva de Jesus, no caráter de contracultura da igreja desenhada por São Paulo e nas formidáveis possibilidades da implantação do Reino de Deus neste mundo.

Não tinha nada de conservador, nada de fundamentalista, por isso sua desconversão e sua trajetória posterior devem ser colocadas numa categoria distinta daqueles que rejeitaram o cristianismo quando entenderam que a Bíblia não pode ser entendida literalmente.

Penso em gente como Bart Erhman, evangélico da estirpe mais literalista, e Robert M. Price, pastor batista, homens de mente brilhante mas pré-pós-moderna, que não encontraram como conciliar-se com as inconsistências e inexatidões que acharam no texto bíblico. Quando entenderam que a Bíblia foi escrita por homens, Ehrman e Price entenderam que ela não pode ter sido escrita por Deus. Quando entenderam que Deus não tinha ditado cada palavra, entenderam que a Bíblia não podia conter nenhuma palavra verdadeira. Quando entenderam que muitas das histórias da Bíblia não podem ser factuais, entenderam que essas histórias nada tem a nos dizer sobre a realidade 1Ao contrário de Ehrman, Price afirma que o próprio Jesus nunca existiu, tendo sido convenientemente inventado a partir de fontes literárias e mitológicas pré-existentes. Esse ceticismo extremo é tido como pouco fundamentado mesmo entre os oponentes mais lúcidos do cristianismo, mas estou pronto a perdoar de Price uma multidão de pecados porque ele é grande admirador de H. P. Lovecraft..

Dani é de outra geração e de outra origem, e operava em comprimento de onda muito diverso. Ele não ignorava que (como Jesus indicou em suas parábolas) os seres humanos são movidos e iluminados por grandes narrativas orientadoras. Dani encontrava conforto e beleza em entender que a Bíblia é amarrada por narrativas que ou são mitos ou como mitos funcionam (sendo que não faz diferença) – porque tratando-se de gente humana nenhuma outra modalidade de discurso teria o potencial de nos mover e de nos orientar: não por tanto tempo, não de modo tão inesgotável.

Não, quando Dani quebrou não foi pelo que quebram os outros.

Curioso é que tanto Bart Ehrman quanto Robert M. Price, que eram mais ou menos anônimos antes da sua desconversão, continuaram a estudar a Bíblia em suas origens literárias e variantes textuais e tornaram-se prestigiados estudiosos seculares do Novo Testamento. Cada um publicou vinte e tantos livros ao longo de sua carreira (Ehrman esteve entre os mais vendidos na lista do New York Times, e Price faz parte do reputado Jesus Seminar), e não cessam os dois de escrever sobre a fé que não é mais a sua e em certo sentido de beneficiar-se dela 2Bart Ehrman escreveu, por exemplo, Como Jesus tornou-se Deus, O Jesus interrompido: revelando as contradições ocultas da Bíblia e O divino problema: sobre como a Bíblia não traz a resposta para o mais profundo dos problemas (mais aqui). Robert M. Price é autor de A teoria do Cristo mitológico e seus problemas, O incrível homem que encolheu: quanto é confiável a tradição dos evangelhos e Desconstruindo Jesus (mais aqui)..

Como requer a veia dramática das histórias verdadeiras, com Dani aconteceu o contrário. Meu amigo produzia um texto atrás do outro, era lido por gente de diversas orientações e matizes ideológicas e era temido por gente que tem o que perder – até o dia em que quebrou e silenciou quase por completo. Dani não publica um livro a cada dois anos, não está na lista dos mais vendidos e não faz parte do Jesus Seminar, nunca tendo desejado para si nenhuma dessas coisas; mas mudou em que hoje em dia escreve raramente, e ainda mais raramente escreve sobre a fé que já foi sua. No blog em que convocava a igreja a derrubar em nome de Deus a desfigurante hegemonia do capitalismo global Dani fala hoje sobre poesia, sobre arte performática, sobre melancolia, sobre um dia passado com os filhos (ele e a mulher se separaram), sobre as pequenas luzes e grandes vertigens de um novo amor.

Nenhuma palavra mais sobre missão, sobre igreja, sobre Reino; nenhuma exaltação e nenhuma convocação. Nas três ou quatro vezes em que mencionou Deus depois de quebrar Dani o fez com mais embaraço do que rancor, como quem fala de um membro da família que já foi muito importante mas por qualquer motivo não se quer mais ver.

Seu silêncio se estende na verdade aos detalhes e à extensão da sua desconversão. Dani nunca chegou a explicar uma coisa nem outra. Aparentemente em algum momento sua esposa deixou claro que não se sentia capaz de acompanhar o grau do comprometimento de Dani naquela vida entre os destelhados e os tempestuosos. E como condená-la? Talvez seja justo pedir o comprometimento de outra pessoa, talvez seja justo aceitá-lo e desfrutá-lo; esperar esse comprometimento, tomá-lo como coisa certa, é de certo modo injusto e desumanizante.

Dani parece indicar que a rejeição da esposa resultou no seu rompimento final ou serviu como catalisador dele, mas creio que o faz em parte para nos distrair ou para distrair a si mesmo. Dani já estava quebrando há muito tempo, e voluntariamente. A tarefa de ajudar gente é a mais sagrada mas também a mais impossível e presunçosa de todas. Vez após vez aquele que se dispõe a dar a vida pelos outros é obrigado a rever as suas estratégias e as suas motivações. Talvez esteja atrapalhando em vez de ajudar, não? Talvez esteja sendo grande para engrandecer a si mesmo, não? Talvez devesse doar mais e ser menos, não? Talvez sendo mais e doando menos pudesse ajudar mais, não? Canalhas como eu e você estamos a salvo desses questionamentos pela confortável mesquinhez do nosso modo de vida, mas essa busca pela integridade fustiga os dias e as noites dos santos.

Não estou dizendo que é estúpido ou inútil viver dando a vida pelos outros; será talvez o único modo digno ou satisfatório de se viver. O que estou dizendo é que é estúpido e inútil viver dando a vida pelos outros esperando que não chegaremos um dia a quebrar.

A mim e a você cabe, portanto, parar imediamente de condenar como infantil o idealismo de Dani. Eu e você estamos bem (ou cremos que estamos bem) porque não vivemos de modo íntegro o bastante para chegar a quebrar.

Não posso dizer, naturalmente, até que ponto Dani acreditava em Deus e até que ponto deixou de acreditar. Quem pode dizer isso de si mesmo em um dado momento? Quem pode dizê-lo dos outros? Não creio que Dani está puto com Deus 3Puto com Deus, a propósito, me parece um nome belíssimo para um livro. Quero publicá-lo pela Mundo Cristão.. Minha suspeita é que o Deus de Dani está onde sempre esteve, e que meu amigo retém secretamente as suas aspirações e o êxtase das suas gloriosas interpretações da Boa Nova. Suspeito que Dani quebrou não por desejar que Deus fosse capaz de intervir mais, mas por desejar que o ser humano fosse capaz de intervir mais. Depois de contemplar nos sonhos de Jesus e dos apóstolos a glória que podia ser nossa, a merda crescente e quotidiana dos que não dão a mínima mostrou-se simplesmente tóxica demais. Depois de vislumbrar a devastadora beleza do convite divino à gentileza, à cura e à inclusão, Dani ficou indignado porque essa enorme beleza e essa enorme verdade não se mostraram suficientes para mudar o mundo.

E que posso dizer? Deus, se existe, compartilha pelo menos um pouco dessa indignação. Jesus parece tê-la vislumbrado ele mesmo. Às vezes acho que Jesus decidiu morrer prematuramente para ver-se livre do fardo (sempre ambivalente, sempre desfigurante) de falar de Deus. Nós que não temos a sua coragem e a sua consistência podemos ter a honradez honorária de quebrar, de falar de Deus de modo cada vez mais cauteloso e tangencial, como sonhava Bonhoeffer.

Porque não importa quão límpida e gloriosa e sã é a imagem de Deus que você consegue projetar, ela simplesmente não consegue eliminar “as outras coisas para as quais Deus é usado”, como Dani disse recentemente. Enquanto houver algum poder de marca no nome de Deus os homens vão continuar a usá-lo como ferramenta de dominação e de exploração. Mais um motivo para falar de Deus cada vez menos, porque o Reino não consiste em palavra mas em poder, o que quer que isso venha a significar.

Outro dia Dani escrevia sobre um dia tranquilo e luminoso passado com os filhos que ama tanto e concluiu declarando-se feliz porque “não preciso de um deus para saber que sou abençoado e que cada um de nós é sagrado e que o mundo sobre o qual caminhamos é terra santa”.

Quase desejo que essa seja a última vez que Dani tenha falado sobre Deus, porque está tudo aqui. “Não preciso de um deus”. Ninguém precisa de três ou quatro letras para maravilhar debaixo da verdade, da beleza e da vertigem que o discurso não comporta. O verbo, quando tudo dá certo, se fez carne.

Leia também:
O gentil martírio dos desconversos

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Ao contrário de Ehrman, Price afirma que o próprio Jesus nunca existiu, tendo sido convenientemente inventado a partir de fontes literárias e mitológicas pré-existentes. Esse ceticismo extremo é tido como pouco fundamentado mesmo entre os oponentes mais lúcidos do cristianismo, mas estou pronto a perdoar de Price uma multidão de pecados porque ele é grande admirador de H. P. Lovecraft.
2. Bart Ehrman escreveu, por exemplo, Como Jesus tornou-se Deus, O Jesus interrompido: revelando as contradições ocultas da Bíblia e O divino problema: sobre como a Bíblia não traz a resposta para o mais profundo dos problemas (mais aqui). Robert M. Price é autor de A teoria do Cristo mitológico e seus problemas, O incrível homem que encolheu: quanto é confiável a tradição dos evangelhos e Desconstruindo Jesus (mais aqui).
3. Puto com Deus, a propósito, me parece um nome belíssimo para um livro. Quero publicá-lo pela Mundo Cristão.
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