O gerenciamento da esperança [3]

Em sua carta o Oliver esboça duas heranças ideológicas: de um lado a linhagem de Caim, gananciosa e otimista, que ignora a fragilidade e as contradições da condição humana e insiste em construir, cercar, organizar, produzir, conquistar, ampliar, ordenar e progredir (Ordem e Progresso!); do outro, a linhagem de Sete, lúcida e desiludida, que reconhece tanto a sua insuficiência quanto o potencial destrutivo da sua condição, pelo que avança um dia após o outro com toda a cautela, esperando misericórdia de Deus ou do universo. Caim é produtividade, Sete é responsabilidade.

Uma utopia interina

Neste recinto maldizemos o capitalismo desde 2004, mas não creio que eu tenha produzido texto mais imediatamente popular (e impopular) do que A direita de Deus – e sua possível esquerda.

A verdade mais crua é que o meu ceticismo político não conhece limites, e enfatizei esse meu cinismo numa nota àquele mesmo documento. Deixo assinado também aqui o meu termo de isenção de responsabilidade. Prefiro, como se sabe, evitar assuntos polarizadores, porque não podem ser tocados sem prejuízo, mesmo com a luva da mais grossa imparcialidade

A direita de Deus – e sua possível esquerda

A natureza da mensagem divina é que ela rejeita e existe em contraste com muitos dos valores e crenças centrais comumente aceitos na cultura e na sociedade.
Daniel M. Keeran

 

Que alguns cristãos pendam politicamente para a esquerda e outros para a direita depende menos de uma convicção política do que do modo como enxergam o próprio cristianismo.

Porque você acredita que o mundo é justo – e porque você se engana

De que modo a crença na justiça inerente do sistema garante, em cada sistema, que a justiça nunca chegue a se estabelecer

Não encontrei nome melhor, por isso resolvi chamá-los de discursos de distribuição automática de justiça. Um discurso, no sentido em que estou usando a palavra, é uma ideia (nem sempre consciente e nem sempre articulada com palavras) que tempera e justifica as nossas convicções e posturas. Eu poderia dizer com a mesma facilidade “fé na distribuição automática de justiça”. Cada cultura tem a sua, e cada cultura é ao mesmo tempo mantida e sequestrada por ela.

Falo da confortável crença de que no mundo as coisas funcionam de tal modo que, sem a intervenção de ninguém, especialmente sem a minha, as eventuais injustiças Continue lendo →


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