A sorte de justiça que fomos quase capazes de prover ao mundo

«Um dia», me disse o Giovanni num bar da Itália, «a música popular brasileira vai salvar o mundo.»

Era a minha primeira vez fora do Brasil e eu estava numa papelariazinha de Florença comprando um caderno decorado. O italiano que me atendia entregou o troco e aproveitou aquele último momento para arriscar:

– Ma lei è brasiliano?

Quando respondi que sim, testemunhei pela primeira vez A Transformação. O cara, que tinha se mostrado até ali cordial mas muito na dele, se encheu de uma alegria ao mesmo tempo solene e indisfarçável, o tipo de alegria que se abre no coração quando você recebe a notícia de que vai ter um filho, ou quando você esbarra no seu artista favorito e ele se mostra um cara muito gente boa e te dá um Continue lendo →

A manhã em que ninguém é mais justo que ninguém

Se você for dar a cada um o que merece, quem escapará do açoite?
Hamlet, Ato 2, Cena 2

As regionais de São Paulo e do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil se pronunciaram entre ontem e hoje sobre os grampos vazados por Sérgio Moro. Em sua nota a OAB do Rio de Janeiro se mostra estarrecida com o fato das gravações terem sido feitas e divulgadas. Em sua nota a OAB de São Paulo se mostra estarrecida com a opinião de Lula sobre a justiça no Brasil, registrada nas gravações. A fenda entre essas posições recorta o país.

Até onde você quer ir com a justiça? – é a pergunta que Sócrates faz continuamente a Continue lendo →

A justiça no Brasil

O que é preciso temer é o número de delações que a justiça não premia

Isso porque para entender a relação do Brasil e dos brasileiros com a justiça é conveniente começar deste ponto: não somos norte-americanos.

Para o juiz Sérgio Moro, se for para comparar o Brasil com alguém, que seja com a Itália.

A partir da semelhança de temperamento institucional e de uma compartilhada tolerância para com a corrupção, Moro está convicto de que o sucesso da operação Mani Pulite/Mãos Limpas, que varreu camadas ancestrais de corrupção na Itália, pode ser replicado no Brasil na operação Lava Jato.

E como discordar da lógica dele? Quando descreve o que acredita serem as causas estruturais da corrupção na Continue lendo →

Batman, Sócrates e Jesus:
buscai primeiro a sua justiça

Nunca deixe Sócrates perguntar ao Batman o que é justo

Um dos motivos pelos quais sou 100% impermeável ao apelo dos quadrinhos e filmes de super-herói é que a obsessão norte-americana com a justiça não faz qualquer sentido para um sujeito nas minhas latitudes. As narrativas de super-herói são ensaios e variações na sondagem dos extremos da aplicação da justiça, e o sertanejo/letão/italiano dentro de mim não consegue conceber exercício mais almofadinha e mais maçante.

Os uniformes e narrativas de origem mudam, mas o arcabouço é o mesmo: o super-herói é compelido a agir porque tem despertado o seu senso de justiça, e este é despertado quando ele entende que a justiça tradicional Continue lendo →

A queda da casa do mundo

– Tem uma página na internet, esqueci o endereço – me disse o Zé Márcio – que mostra um mapa-múndi e uma linha do tempo. Você arrasta para a direita o triângulo que representa um ponto remoto na linha do tempo, e faz com que as fronteiras nacionais mostradas no mapa se ajustem à medida em que as datas destacadas se aproximam da nossa. Você vê o contorno do Império Romano, e no instante seguinte o sul da Europa e o norte da África pertencem já aos muçulmanos. Aqui a Índia e a África pertencem aos portugueses, no momento seguinte a América do Norte aos espanhóis. Agora a Itália ainda não existe, agora a Alemanha engole Continue lendo →

Na cama com a Bíblia

Os últimos quarenta anos testemunharam sensíveis impulsos de acomodação cultural por parte da igreja evangélica. Porém, na batalha contra a plena identificação com o mundo, a sexualidade é a última grande trincheira atrás da qual a igreja procura defender a sua identidade. Entendemos (e somos ensinados a entender) que um cristão pode ceder com relação a tudo que o Novo Testamento ensina – pode, por exemplo, encontrar lugar para abençoar a guerra ou a acumulação de bens, – mas não deve haver espaço para que se contornem as demarcações tradicionais do exercício da sexualidade.

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Atrás da casa de Niconó havia uma casa menor, antiga, em que a família tinha morado antes de construir a de agora. Nessa casa morava a esposa de Niconó, Laís, porque tinha a doença do esquecimento e não conseguia sentir-se em casa na casa nova.

– Eu estava colocando uma roupa para secar – disse o menino – e me chamou para conversar a mulher de Niconó de casa sua.

– Ah – disse o homem. – Agora como foi.

– Foi bonito. Ela lembra de pouca coisa. Dizem que mesmo depois que deixou de acumular memórias novas lembrou por tanto tempo das antigas; recorda agora menos. Ela fez aparecer biscoitos, falou sobre o tempo e sobre a forma Continue lendo →

De que modo o sistema reverte em seu favor os alertas dos pessimistas

O capitalismo não só anula os esforços dos seus críticos, mas os incorpora e se beneficia deles

Por milênios as instituições se perpetuaram com base em autoridades “fortes” e centralizadas, coisas como a vontade de Deus e o direito de sangue das monarquias. Eram autoridades que os próprios discursos oficiais tomavam por inquestionáveis. Qualquer dissidência tinha de ser tomada como absurda e sem fundamento, e todo dissidente tinha de ser tirado espetacularmente do tabuleiro, devidamente desqualificado pela nudez, pela tortura, pela forca, pelo fogo ou pela cruz.

Apesar de terem funcionado por séculos, o fato de serem fortes e centralizadas era para essas autoridades, sem que ninguém se desse conta, uma desvantagem. Seu ponto Continue lendo →

Sobre barragens

O fundamentalismo de mercado requer a fé de que as coisas podem ser mantidas isoladas umas das outras por muros de contenção.
A má notícia é que as barragens funcionam. A notícia pior é que não funcionam indefinidamente.

Em algum momento entre hoje e o instante em que desliguei uma televisão pela última vez, em 2004, o capitalismo tornou-se tudo que existe.

A expressão “espacialização do capital” quer dizer várias coisas, inclusive que não resta espaço – real ou virtual, distinção que o capitalismo trata de ignorar – que não tenha sido ocupado pelo capitalismo ou distorcido pela sua força gravitacional. Faz sentido continuar chamando de Império ao Império que anulou toda a competição? Tendo ocupado todos os espaços, o capitalismo tornou-se indistinguível daquilo com que poderia ser contrastado.

Mas “espacialização do capital” quer Continue lendo →


Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas apoia causas aleatórias