Desse silêncio • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 23 de fevereiro de 2014

Desse silêncio

– Quantas vezes vou ter de te dizer – diz-me noite passada o anjo que me visita todas as noites, enquanto me acaricia sem pausa uma ruga da testa, como se quisesse eliminá-la pela simples fricção: – ninguém, ou praticamente ninguém, vai ter aquilo que mais deseja nesta vida. Não é uma prova, não é um teste: chama-se condição humana.

Tento replicar, mas me entorpece um sono que é um vinho, um leite e e uma febre. O anjo em seguida beija cada centímetro do meu corpo nu, porque sabe que o afeto me enfurece e me desarma, e continua:

– Quantas vezes vou ter de te dizer, o erro mais comum e mais grave dos homens é acreditar que desilusão e ternura são incompatíveis. Que diabo soprou no coração de vocês a ideia de que para ser gentil é preciso ter ilusões? Os gigantes de gentileza e de ternura da humanidade foram todos gente desiludida. Na verdade, embora todos achem importante escondê-lo, não há ser humano cujo coração não seja secretamente conduzido pela gentileza e pela bondade. Todos os seres humanos são gentis; as guerras e injustiças não nascem de não haver gente terna em número suficiente, mas do fato de haver tão pouca gente desiludida.

Ele então puxa o dardo sedativo do meu pescoço, para que eu desperte dali a pouco sem a lembrança do que ele me disse. E conclui, os pés nus no parapeito da janela aberta:

– Quantas vezes vou ter de te dizer que é para isso que os homens são colocados para dormir todas as noites, para que se vejam por algumas horas livres de ouvir os seus próprios argumentos? Para que desse silêncio vocês saibam quem sabe pescar palavras de vida, isto é, palavras que não são suas.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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