Da ininsistência • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 31 de dezembro de 2015

Da ininsistência

Estocado em Goiabas Roubadas · The Net

Foi só na véspera de Natal, muito piegasmente, que encontrou-me o poema ultrabíblico que dedicou-me em abril e em silêncio (porque ele é a pessoa mais modesta e menos insistente, e não me interromperia mesmo que fosse para me dar presentes) meu amigo Manuel Anastácio, o Venturoso, de uma cidade em Portugal que se chama Guimarães, onde há uma Praça da Oliveira em que um dia vamos sentar, calar e, incrivelmente, conversar.

O evangelho seja hoje este: bem-aventurados os poetas porque não insistem, porque terão a última palavra.
 

DA ININSISTÊNCIA

Para o cristianíssimo apóstolo, bem amado das mais pagãs e sedutoras divindades,
Paulo Brabo

O tempo, que não existe, tudo destrói.
Tudo corrói
Tudo.
O tempo tudo anula,
Tudo engole,
Tudo apaga,
Tudo arrasa
Tudo.
Caem os Impérios, revelam-se os mistérios,
Povoam-se ermitérios e nascem vivas,
ressurretas,
as almas mudas, esquecidas, dos cemitérios.
O nada explode,
O tudo encolhe,
O algo foge.
O burro aprende.
O inevitável suspende o seu olhar
E retrocede.
O maior inimigo, rendido, cede.
O Tempo tudo constrói
sobre os membros mortos das suas vítimas.

O Tempo, que não existe, insiste em ser,
e, não existindo, nele tudo insiste em converter.
 

Manuel Anastácio, em A condição humana

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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