A bem-aventurança do creme amarelo, ou o padeiro que vinha do céu • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 11 de agosto de 2006

A bem-aventurança do creme amarelo, ou o padeiro que vinha do céu

Estocado em Família · Nostalgia

A última das três casas em que moramos em Londrina, na rua Mamoré, era muito simples mas era nossa – nossa primeira casa própria. Eu tinha perto de dez anos, jogava futebol todas as tardes na rua de baixo, beijava a vizinha de cinco anos na boca pela fresta da grade (a Renata, onde quer que esteja, fazendo terapia por minha causa), observava as batalhas aéreas dos que soltavam pipa no campinho e, quando tudo isso faltava, desembainhava um volume aleatório da enciclopédia Conhecer e sentava no sofá que ainda hoje assombra a sala da casa dos meus pais. Era uma vida justa.

Mas tinha seus momentos de especial epifania, quando descia a rua, vinda da Araguaia, uma carroça guiada por um santo, puxada por um Rocinante e seguida por procissões de quebrantados fiéis que éramos nós. O carroceiro segurava as rédeas numa mão e usava a outra para abrir a tampa do baú de madeira atrás de si e nos tentar com as cintilantes moedas do seu tesouro: pilhas douradas de pães arredondados, perfumados, açucarados e macios, coroados com uma espiral grossa de creme amarelo – aquele tipo de pão que já vi chamarem de chineque e brioche, mas que chamávamos com menos controvérsia de pão doce.

Em casa estávamos, como eu ia dizendo, longe de sermos ricos, e a rígida filiação de meus pais à ética protestante impedia que caísse nas mãos de nós, filhos, qualquer dinheiro que pudéssemos gastar “com bobagem”. Na prática isso significava que nunca – jamais, senhoras e senhores – levávamos dinheiro para comprar lanche na escola; que nunca abrilhantávamos a fila do pátio com o mais novo modelo de tênis ou os cadernos da moda; e – no que me diz respeito muito mais sério – que não lembro ter experimentado uma única vez aqueles bem-aventurados pães-doces nos anos em que moramos naquela rua.

A centrada economia de meus pais, por outro lado, permitia que convivêssemos com engenhos com que o pessoal da rua nem sequer sonharia: TV em cores, telejogo, microscópio, máquina fotográfica Minolta, telescópio desmontável, um número obsceno e sempre crescente de enciclopédias e livros. Esse tipo de bobagem.

Não se pode ter tudo. Sempre fui um cara mais ou menos frugal, e meus sonhos de consumo naqueles dias eram um pão doce do tio da carroça e o exemplar seguinte da coleção Os Bichos. Meu pai nunca – jamais, senhoras e senhores – deixou faltar o segundo. Meus amigos da rua tinham os dois ou três pães doces que as mães deles levavam para casa; eu examinava uma movimentada gota d’água no microscópio da Alice. Difícil dizer quem se saciava mais.

Fato é que data daquela época minha fascinação, meu absoluto delírio, por broas e pães doces, especialmente aqueles cuja configuração me remete à rua Mamoré e ao padeiro que vinha do céu. Sei por essa razão, de fonte fidedigna, que o Paraíso é terra que mana creme amarelo – e falo daqueles cremes de um amarelo vivo, absolutamente não-sofisticado, que se alinham com freqüência a farpas de coco e vomitam às vezes os sonhos.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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