Como sobreviver ao pós-comunismo (sem ter motivo para dar risada) • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 04 de julho de 2015

Como sobreviver ao pós-comunismo (sem ter motivo para dar risada)

Estocado em Goiabas Roubadas

A Europa celebrou recentemente o 25º aniversário da queda do muro de Berlim e o colapso do totalitarismo na Europa Oriental

Slavenka Drakulic

Em 1992, publiquei um livro chamado Como sobrevivi ao comunismo e até dei risada; foi um dos primeiros relatos da vida de uma mulher sob o comunismo na Europa oriental.

Eu de fato sobrevivi ao comunismo e até dei risada. Mas parei de rir muitas vezes desde então. Antes de tudo porque, naturalmente, na antiga Iugoslávia o colapso do antigo sistema resultou em guerras. Aquela que costumava ser uma vantagem nossa em relação aos outros países do bloco soviético, uma espécie de totalitarismo soft, demonstrou ser uma desvantagem. Resultou que não havia uma oposição política democrática, exceto nacionalistas, pronta para assumir depois do colapso do comunismo.

No restante da Europa oriental muita gente parou de dar risada simplesmente porque o pós-comunismo mostrou ser algo diferente do que as pessoas sonhavam. Depende do país, é claro – a Polônia não pode ser comparada à Albânia, – mas muita gente na Europa oriental viu-se numa situação de pobreza e insegurança crescentes. A pobreza não era algo novo, mas a distância crescente entre ricos e pobres era. Nosso mundo pode hoje parecer um supermercado repleto de bens, mas a maior parte de nós ficou do lado de fora olhando pela vitrine.

Um personagem do meu livro Uma visita guiada pelo Museu do Comunismo descreve da seguinte forma o consumismo e suas novas igrejas:

É assim que funciona, e não mudou, desde 9 de novembro de 1989: todo centro comercial (bem como o menor dos supermercados) é supervisionado por máquinas caça-níqueis chamadas caixas registradoras. Essas máquinas são colocadas não na entrada, mas precisamente na saída de cada igreja. Quando um adorador se aproxima da máquina com um cesto cheio dos bens desejados para satisfazer a sua sede de possessões, a máquina esquadrinha a pessoa em questão. Imagino que o faça para realizar algum teste de fé; ela deixa você passar e ir embora só se você for um verdadeiro crente. Isso você tem de demonstrar enfiando um cartão de plástico na fenda correspondente, ou dando papel ou fichas de metal simbólicas para a pessoa, normalmente uma mulher, sentada atrás da caixa registradora. Os que não passam no teste tem de devolver todos os bens fabulosos que haviam recolhido, e ficam muito, muito tristes.

Em 1990, imediatamente após o colapso do comunismo, viajei pela Europa oriental pela Ms., uma revista feminista dos Estados Unidos. Cada mulher com que falei, seja na Bulgária ou na Polônia, na Tchecoslováquia ou na Hungria, sabia dizer onde o comunismo havia na opinião delas se mostrado falho: no desabastecimento de bens alimentares, na escassez de fraldas descartáveis, na falta de apartamentos e de papel higiênico. Foram essas coisas banais e quotidianas que derrubaram o comunismo, muito antes de 1989, e não, sinto dizer, o desejo das pessoas por liberdade, direitos humanos e democracia.

[. . .] Quando tudo ao seu redor muda de forma dramática, você tende não a abraçar as novas circunstâncias, mas a apegar-se aos hábitos, valores e ideias que prevaleciam antes – antes do comunismo. Infelizmente, isso implica num retrocesso radical, um retorno a um sistema de valores feudais. Depois do colapso do comunismo, a maior parte dos países da região experimentou um ressurgimento do nacionalismo e da religião – precisamente as duas coisas que o comunismo havia suprimido. Foi tudo que restou do passado pré-comunista. O patriarcalismo, que parecia ter desaparecido, mostrou novamente a sua cara, mostrando estar mais saudável do que nunca.

Slavenka Drakulic em
How women survived post-communism (and didn’t laugh)

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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