Como reter o direito sobre o corpo de outras pessoas • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de janeiro de 2016

Como reter o direito sobre o corpo de outras pessoas

Estocado em Goiabas Roubadas

Esta é a parte 3 de 5 da série Eles sãos

Primeira parte: “Pare de resistir, estamos fazendo isso para o seu bem!”

Uma crise na coerção justificada: da religião aos serviços de saúde

Quando consideramos a ascensão do modelo médico e a difusão da linguagem de comunidade e saúde pública, a primeira coisa é entender que esse é um fenômeno relativamente recente.

A idade da razão gerou uma crise para os que usavam os discursos religiosos de modo a justificar o uso da força

A medicina costumava ser praticada de modo muito diferente, saúde e doença eram compreendidas e priorizadas de modo muito diferente, e os que se ocupavam dessas coisas tinham uma posição inferior e menor influência dentro da sociedade. O que aconteceu para mudar isso? De que modo as práticas discursivas da saúde chegaram a predominar?

O que aconteceu foi que do Renascimento em diante ocorreram guinadas radicais dentro das sociedades ocidentais. A ciência, o empiricismo e o racionalismo passaram a desafiar a visão de mundo fornecida pelas modalidades dominantes de cristianismo. Esse confronto criou uma crise de autoridade para aqueles que buscavam legitimidade para exercer força sobre outros indivíduos dentro da sociedade.

Durante a Inquisição, por exemplo, grupos ou indivíduos dissidentes ou que representavam alguma ameaça podiam ser classificados como bruxas ou hereges, e podiam por conseguinte ter força legitimamente exercida sobre os seus corpos: ser torturados ou mortos, ou ambos. Esse direito que algumas pessoas tinham de agir de modo violento e controlador sobre outras pessoas era justificado pelo modo católico romano de ver, que era predominante naquele tempo.

Semelhantemente, no lado protestante das coisas, gente como Martinho Lutero podia encorajar os príncipes alemães a chacinar sem misericórdia quaisquer camponeses que ousassem desafiar a autoridade desses príncipes. De acordo com o modo luterano de ver, a autoridade dos príncipes estava alinhada com a autoridade de Deus: falar ou agir contra eles era falar ou agir contra Deus, crime que merecia a morte. Em consequência, o que era essencialmente um levante popular de gente oprimida e explorada foi esmagado com a benção divina e numerosas referências a Romanos 13, enquanto Lutero instava os príncipes a “apunhalar, golpear e trucidar a quem bem quisessem”.

O despontar da idade da razão gerou uma crise para os que usavam os discursos religiosos de modo a justificar o uso da força contra os outros. Se os dissidentes não eram mais bruxas, hereges e pecadores, que justificativa os detentores do poder centralizado podiam usar a fim de usar a força e garantir desse modo que a trajetória do estado de coisas continuasse estruturada de modo a favorecer os seus próprios interesses e entrincheirar ainda mais o seu acesso ao poder, à riqueza, ao status, à influência, à terra e a propriedade?

A força pode ser sempre usada pelos que tem recursos para usar de força – qualquer um com uma faca, uma arma de fogo ou uma cela pode usá-los para ferir o corpo de outra pessoa, – mas como usar a força de modo justificado? Como usar a força de modo a que agir assim pareça certo, apropriado e aceitável para o resto da sociedade? Com o declínio da religião e a ascensão da razão, surgiu como que um vácuo de legitimidade.

Com o tempo, uma consequência desse abandono da cosmovisão religiosa ou cristã foi uma alteração no eixo do poder centralizado dentro da sociedade. No fim das contas, o declínio da religião levou ao declínio da ideia de que havia legitimidade no poder de monarcas, nobres e aristocratas. Esse vácuo criou um brecha para que outro grupo desse um passo em direção ao topo.

O grupo que ascendeu ao poder foi a classe capitalista – os membros de elite da burguesia. Avanços tecnológicos na produção e no transporte de bens permitiram a esse grupo que adquirisse e acumulasse vastas quantidades de riqueza. A riqueza, aliada ao colapso da crença de que as hierarquias na terra espelhavam as hierarquias do céu, permitiu que os capitalistas assumissem ou criassem novas instituições de poder central. A cristandade foi desse modo substituída pelo estado-nação, a aristocracia foi substituída pelos capitalistas e o sangue foi vencido pelo dinheiro.

Surgiu porém um vácuo relacionado à questão de justificar o uso da força sobre os outros. As classes abastadas tendem a querer reter todo o dinheiro, bens e terra que acumulam com a sua habilidade de explorar o trabalho e as vidas dos outros. Os explorados, no entanto, tendem a ver as coisas de modo diferente, pelo que a força é necessária para manter esse arranjo.

Dizer, no entanto, “tenho mais dinheiro do que você e isso me dá o direito a usar de força”, não resulta numa justificação de alta credibilidade popular. Foi necessário algo diferente para preencher o vácuo criado pelo declínio da religião e pela ascensão do capitalismo. Esse vácuo foi preenchido pela ascensão da medicina e do discurso da saúde pública.

Daniel Oudshoorn em On Journeying with those in Exile

 

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Eles sãos

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