Como não ter medo do terrorismo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 24 de fevereiro de 2015

Como não ter medo do terrorismo

Estocado em Manuscritos

Houve guerras que pressupunham a justiça, a vingança, a ganância, a expansão territorial; entre os conflitos da sua estirpe, o terrorismo é o único que pressupõe uma audiência.

É terrorismo porque está sendo televisionado. O terrorista trava uma guerra cujos sucessos não se medem em combate, mas em pontos de audiência. O “terror” é o fascínio e a repulsa (porque não há diferença) do espectador diante da performance do terrorista.

É terrorismo porque está sendo televisionado.

O paradoxo do terrorismo é também o seu método: sem audiência não há terrorismo. Quanto mais enfezado e engajado você ficar – quanto mais vídeos você assistir, quanto mais postagens indignadas você compartilhar, quanto mais links e notícias você passar adiante – melhor uso o terrorista terá feito do seu potencial multiplicador no posicionamento de marca dele. Quanto mais mortes você assistir, mais valerá à pena para o terrorista ter matado.

Ou, como disse em 1975 o especialista em terrorismo Brian Michael Jenkins: “o terrorista não quer um monte de gente morta; ele quer um monte de gente assistindo”.

Por depender de uma audiência global e de tecnologia eficiente na difusão de imagens, o terrorista não encontrou modo de existir antes da nossa era. Desse modo, uma relação que existe pelo menos desde a década de 1970, mas que só ficou muito clara com os atentados de 11 de setembro de 2001, é aquela entre terrorismo e espetáculo.

11 de setembro entrou para a história como o ato de terrorismo exemplar, entre outras coisas porque foi aquele de que nenhuma audiência ao redor do globo conseguiu escapar. Os ataques foram orquestrados (a palavra foi usada muitas vezes logo nos primeiros dias) de modo a angariar uma audiência crescente à medida em que iam acontecendo, e de modo a produzir seus momentos visualmente mais espetaculares e de maior carga emocional quando o maior número possível de espectadores estivesse assistindo.

Em 11 de setembro ficou finalmente claro que os terroristas estavam fazendo uma citação, e consequentemente uma crítica, a Hollywood.

Não basta portanto dizer que o terrorismo se aproveitou, para nascer, de um mundo globalizado e de uma rede mundial de telecomunicações. Seria mais correto dizer que o terrorismo nasceu como reação a essas novidades, especialmente se falamos daquele praticado por grupos extremistas islâmicos. Esse terrorismo existe contra o mundo moderno, um mundo de cuja doutrina e de cujo alcance tornou-se impossível escapar, e usa contra ele as ferramentas modernas que o caracterizam.

Nesse sentido o terrorismo é a crítica mais inclemente e demolidora que o capitalismo já recebeu. E toda a sua força reside em criticar a sociedade do espetáculo fazendo uso das ferramentas do espetáculo.

O terrorista sabe muito bem que se não for televisionado não é terrorismo. Ele não apenas faz uso desse fato; esse fato alimenta toda a sua indignação. Quando comete violência diante das câmeras, o ódio do terrorista está voltado contra o espectador que não vê a multidão de injustiças que acontecem no seu mundo precisamente porque não estão sendo televisionadas: os ataques dos drones, as batalhas cirúrgicas conduzidas por satélite, as vítimas da ocupação dos países islâmicos, os excluídos criados pela invasão do modo de vida ocidental em territórios que talvez não o teriam escolhido em primeiro lugar. “É terrorismo porque está sendo televisionado” é o método do terrorista, mas é também a sua fonte de indignação.

Todas as guerras são sujas e nenhuma morte é limpa; o código de honra dos combatentes foi manter sempre que possível esses embaraços longe das objetivas. O terrorista trapaceia recusando-se a trapacear.

 

Hitler tomou o cuidado de esconder a violência dentro de uma fábrica; o extremismo islâmico tomou o cuidado de trazer a violência para o foco das câmeras.

O terrorista sabe que está se dirigindo a um espectador inteiramente dessensibilizado. É um mundo saturado de imagens, e nele nada significa mais nada. Dentro da sua casa a televisão despeja diariamente a ficção de mortes, assassinos em série e mortos-vivos; podem até refletir algum nível de realidade, mas nos fazem efeito nenhum. No que se costumava chamar de vida real pessoas morrem de fome, pessoas morrem de Ebola, pessoas morrem em guerras e bombardeios; vez ou outra imagens desses insucessos driblam nossos guarda-costas e chegam até nós, mas quem está dando a mínima. Perdeu-se dentro de nós qualquer relação que pode ter havido entre imagem e realidade.

Contra esse pano de fundo, os atos de terror são produções no sentido hollywoodiano, mas especialmente no sentido oposto. O extremista odeia o mundo que possibilitou a alienação e a frivolidade da sociedade do espetáculo, por isso envia de volta ao mundo, usando os mesmos meios de difusão e a mesma linguagem, imagens de mortes igualmente frívolas, que acontecem porém de ser muitos reais e foram produzidas de modo a que você não tenha como não olhar. Mortes que são uma paródia, uma paródia cruel e perversa mas uma paródia, de uma cultura obcecada com a imagem e com o superficial.

O terrorista não ignora que a morte é algo terrível; ele nos odeia porque é algo que aprendemos nós a ignorar.

A mensagem do terror não é a imagem da morte em si; sua mensagem é o meio, e reside na própria mídia de que faz uso. O terrorista fala contra um mundo de audiência e de espectadores em que imagens de morte perderam todo o significado. E nada deixa o extremista mais indignado do que saber que do lado de cá tudo que queremos é que aquelas pessoas parem de morrer e de interromper a programação, e não que o mundo mude de vida.

 

Como resistir a ataques que são na verdade denúncias da nossa frivolidade e da fragilidade do nosso modo de vida?

Posso dizer o que não vai ajudar: não vai ajudar dizer que a violência é inevitável à mensagem do islamismo.

O Islam é particular em que nenhuma outra religião tem a sua imagem tão fortemente determinada pela percepção dos seus observadores – por gente de fora. As percepções ocidentais do islamismo são inevitavelmente marcadas por preconceito e obscurantismo, por predisposição ou rejeição ao que é exótico, pela vontade de projetar no outro vícios que são opostos às nossas virtudes imaginadas.

No imaginário do ocidente, o Corão é já suspeito por ter sido escrito por um homem só, um homem que aconteceu de ser líder político, legislador, combatente, comerciante e estrategista militar. Jesus não conduziu exércitos e Moisés teve o recato de morrer há mais de três milênios, mas Maomé foi um general e um conquistador, por isso supomos que a devoção dos seus seguidores não tem como não ser à espada.

Dizer que o islamismo nasceu violento e por isso sua vocação é a violência expansionista é esquecer que nenhuma leitura é inerente a tradição alguma. Ninguém mais do que o ocidente da tradição cristã deveria entender isso. A mensagem de gentileza e inclusão do Jesus dos evangelhos não gerou inevitavelmente a Inquisição e as cruzadas, do mesmo modo que o Corão não gerou inevitavelmente a tolerância religiosa, inventada pela sociedade islâmica num mundo que tinha conhecido séculos de intolerância cristã. Homens não precisam de seus livros sagrados para justificar a violência, e se for para justificar a gentileza vão encontrar argumentos até mesmo fora de seus livros sagrados.

Do mesmo modo que a narrativa cristã gerou no ocidente diferentes tradições, há dentro do Islam inúmeras vertentes e inclinações.

O verdadeiramente curioso é que o extremismo islâmico, em sua ideologia e em seus atos de terrorismo, está refletindo diretamente uma tradição que pertence ao imaginário ocidental – aquela a que Walter Wink deu o nome de mito da violência redentora.

O homem encontra satisfações na violência desde que o mundo é mundo, mas nenhuma cultura mais do que a ocidental aperfeiçoou a noção de que a violência tem um caráter redentor: a ideia de que violência pode ser contida através de violência, e de que a violência pode produzir a justiça em caráter decisivo e definitivo.

Em certo sentido, o mito da violência redentora é o eixo de tudo que fizemos e imaginamos em três mil anos de cultura ocidental, tendo gerado o Coliseu e as cruzadas e a Inquisição e o Purgatório e os pelourinhos e a doutrina (cristã) da guerra justa e a Revolução Francesa e as touradas e as gangues de Nova Iorque e a cadeira elétrica e os filmes de faroeste e Batman e A Paixão de Mel Gibson e o heavy metal e a série Dexter e Os Vingadores da Marvel.

Através do mito da violência redentora entendemos a febre e a gana de todos os justiceiros, e o mundo parece que finalmente se conserta quando o mocinho dá o último (e desnecessário) murro no bandido que está já caído no chão. Através do mito da violência redentora podemos nos convencer de que os Estados Unidos estavam “liberando” o Iraque, quando estavam na realidade travando guerra contra aquele país, uma guerra muito chã com mortos, avanços, tiros, atrasos, bombardeios, justificativas, alvos, relatórios, reveses e patrocinadores.

Através desse grande mito orientador, gente de resto muito gentil e sensata como eu e você pode acreditar que a violência é realmente – realmente – capaz de efetuar a justiça.

O ocidente difundiu essa ideia mundo afora através de atos, narrativas e imagens. Seu maior evangelista pode ter sido Hollywood, e é a Hollywood que os terroristas fazem referência (mesmo quando o fazem inconscientemente) na difusão gratuita de suas imagens de violência gratuita.

Evangelizados por nós e pelo nosso senso de estética e enquadramento, o terrorista coloca em prática o seu próprio projeto, sua própria superprodução, de violência redentora.

É a religião deles, mas a liturgia é nossa.

 

Evidentemente, não se pode combater o mito da violência redentora com mais violência. Como vêm comprovando as iniciativas militares norte-americanas e a luta bilionária “contra o terror”, o terrorismo é uma manifestação de guerra que não se pode combater pelo combate. Trata-se de um fogo que quanto mais se procura apagar num lugar mais se acende em lugares onde não estava antes. E o fogo tira sua força do poder do seu mito.

Resta, porém, que o ocidente é portador de outro grande mito orientador, um mito cristão no sentido de originado no Jesus dos evangelhos. É um mito singular em que sua força reside na sua fraqueza, na sua completa e irrestrita rejeição do mito de violência redentora.

Falo, naturalmente, da disciplina da não-violência, da herança da gentileza e da inclusão, das propostas de subversão e contracultura do Sermão do Monte. Falo da hashtag #todoserhumanomerepresenta.

De acordo com esse mito alternativo, a singularidade de mensagem cristã está em ter inventado uma narrativa (e portanto um mundo) de gente que não acredita em retaliação. Nenhuma violência é legítima, mas como todo ser humano nos representa, cada um é condenável por todas. Antes de atirar a primeira pedra cada um pesa a pedra que tem nas mãos, e no resultante embaraço comum nenhuma violência é desferida. De acordo com esse mito alternativo, todos estão perdoados quer dizer que todos devem estar prontos a responder pelas mancadas de cada um.

De acordo com esse mito alternativo, ser cristão é não acreditar na retaliação.

O Jesus dos evangelhos, em palavras e atos, foi o grande demolidor original da ideia da retribuição. Sua primeira declaração pública foi um absolutamente sem precedentes perdão universal dos pecados, e através dele Jesus queria criar menos uma nova religião do que uma nova sociedade, um novo homem e um novo modo de vida. Uma sociedade em que todos se creem irrestritamente perdoados é uma sociedade sem culpa, sem recalques e sem medo de retaliação. O reino de Deus é essa sociedade em perpétua reconstrução, em perene aprendizado do que representa não ter medo da retribuição e não ter qualquer vontade de impô-la aos outros.

É da invenção ou da revelação de Jesus um Deus que neste mundo não dá preferência e não retribui, oferecendo o mesmo sol, a mesma chuva e o mesmo tratamento a grandes canalhas e a grandes santos – e, como se não bastasse esse escândalo, requer de nós essa mesma desconcertante ausência de critério.

O projeto de demolição do mito da violência redentora está explícito no Sermão do Monte. É aqui que Jesus vai dizer para darmos o paletó a quem pedir a camisa, para andarmos duas milhas a quem quiser nos forçar a andar uma; para enchermos nossos inimigos de presentes, abraços, afeição, atenção e boas vibrações. Vai explicar que limitar-se a amar quem nos ama é coisa tão rasteira e desfigurante que mafiosos e cafajestes são conhecidos por fazer a mesma coisa, e vai dizer que o modo de combater a violência de um primeiro tapa é receber sem reagir o segundo.

É um projeto exigentíssimo, naturalmente, mas tudo na narrativa de Jesus testemunha que neste mundo a retribuição pode ser ferramenta de homens ou demônios, mas não é o modo de operação de Deus e dos divinos correligionários. Os discípulos querem saber pela ofensa de quem Deus está punindo o homem que nasceu cego, e Jesus meio que blasfema ao sugerir que nenhum infortúnio serve para demonstrar a ira de Deus, mas talvez todos possam ser revertidos para mostrar o poder do seu amor. Os discípulos perguntam se sete vezes é um número razoável para se perdoar o próximo, e Jesus arredonda esse número para setenta vezes sete, querendo sugerir, na realidade, uma tolerância que os números não podem comportar.

Quando esperamos que o filho pródigo receba uma boa descompostura e seja forçado a pagar pelas consequências da sua falta de consideração, ele é tratado como um príncipe, seus delitos não apenas perdoados pelo pai, mas tratados como se não tivessem qualquer consequência, como se não tivessem acontecido, como se do mundo tivesse sido apagado o conceito de retaliação. Quando esperamos que ele morra como um mártir que se preze, derramando silenciosamente sobre os seus algozes a culpa pela injustiça que estão cometendo, Jesus toma o cuidado de manter-se até o fim o sujeito que não acredita em retribuição: “perdoe esses caras” – ele diz ao seu Pai, mas em voz alta de modo a ser ouvido pelos seus executores, – “eles não sabem o que estão fazendo”.

E é morrendo na cruz, senhor de exércitos que nunca são acionados e soberano de um reino que não é deste mundo, que Jesus amarra o projeto de aniquilar o mito que rege o tráfico da justiça entre os homens. Se não há retribuição, se há o perdão de todas as ofensas e se há a disposição a morrer em vez da vontade de matar, esgotado está todo o poder do mito da violência redentora.

A narrativa de Jesus é também exemplar em sugerir que o preço da não-violência é via de regra a morte violenta. O portador da mensagem da não-retaliação pouco pode fazê-la para imprimi-la ao mundo além de viver sem retaliar – e morrer, quase sempre prematuramente.

Se estou dizendo que a disciplina da não-violência pode eliminar o terrorismo Sim e não.

Uma característica da não-violência é que ela é um projeto mínimo, sem outra aspiração imediata que alterar a realidade imediata. A boa notícia, mas também a mais custosa, é que à medida em que deixamos de acreditar na retribuição, o mundo inteiro a que temos acesso – toda nossa interface com o mundo – se altera por completo, dobrando-se graciosamente em direção a destinos que ninguém tem como prever. Pode parecer tarefa para santos, mas entender que ninguém é melhor do que ninguém requer uma lucidez que existe à margem do rancor; a gentileza debaixo da qual opera é também uma forma de dureza e de cinismo.

Tudo de bom começa, como em todos os casos, com uma boa dose de desilusão. Você não vai conseguir mudar o modo como funcionam as mídias sociais; você não vai conseguir eliminar o seu fascínio com corpos desmembrados; você não vai conseguir evitar que o alarmismo se alastre entre amigos e conhecidos que se acreditam gente boa. Mas você vai assumir o controle sobre aquilo sobre o que você tem controle. A respeito desse poder que temos de mudar a face do [nosso] mundo, Jesus observou: se vocês perdoarem os pecados das pessoas, eles serão perdoadas; se não perdoarem os pecados das pessoas, elas não conhecerão o perdão.

O que você está esperando.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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