Árvores que andam • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 03 de janeiro de 2016

Árvores que andam

Estocado em Goiabas Roubadas

Esta é a parte 2 de 5 da série Eles sãos

Há porém muitas espécies de ortodoxia, não somente aquelas ligadas explicitamente a credos religiosos, e a ortodoxia que quero mencionar hoje é a que domina o modo como vemos a pobreza e os sem-teto.

Os serviços sociais engajados com gente que experimenta pobreza e vida sem-teto acabaram sendo dominados por uma perspectiva médica. As pessoas hoje em dia veem a pobreza e os sem-teto como questões de saúde pública ou comunitária. Quando olha as fotos abaixo, por exemplo – você acha que está vendo o contraste entre um pessoa má que se tornou boa ou entre uma pessoa doente que se tornou sadia?
 

O que você vê?

Uma pessoa que era má e tornou-se boa?

Uma pessoa que estava doente (mentalmente? fisicamente? os dois?) e ficou sadia?

De má passou a ser boa? De doente tornou-se saudável?
 

Enxergar essas pessoas como gente doente – talvez mentalmente, talvez fisicamente, talvez os dois – é provavelmente uma reação comum. Quero contudo que paremos para pensar por que fomos ensinados a ver as coisas desse modo. De fato, como ficará evidente, acredito que é inquietante e problemático ver a pobreza e os sem-teto como questões de saúde pública ou comunitária.

Não quero por outro lado voltar à perspectiva do serviço social cristão tradicional, que também acho problemática e segue na realidade as trajetórias e os objetivos do modelo médico.

Considerando as imagens que acabamos de ver, devemos refletir sobre as metamorfoses pessoais que celebramos no nosso trabalho de serviço social, e compará-las a imagens de outras metamorfoses.

E agora, o que você vê?

De mau tornou-se bom?

De doente tornou-se saudável?

De selvagens tornaram-se civilizados?
 

É notável o quanto essas imagens de remodelação pessoal através da inclusão no sistema de ensino se assemelham às imagens de “antes e depois” com que celebramos as pessoas que eram sem-teto e deixaram essa vida para trás. Parecem idênticas. Não é desconcertante?

Lembro-me neste ponto das palavras de Mary Douglas: “Embora louvemos a caridade como virtude cristã, é sabido que ela fere”. E acredito que fere, em parte, por não enxergar bem. De muitas maneiras, somos como o cego de Betsaida que Jesus cura no capítulo 8 de Marcos. Quando o cego pede que Jesus o cure, Jesus cospe nos olhos dele e pergunta o que ele está vendo. “Vejo pessoas, são como árvores que andam”, é a resposta do homem. É só depois de um segundo toque que o homem passa a ver com clareza.

Acredito que os serviços sociais cristãos estão em sua maioria no estágio de ver árvores que andam. Minha intenção é propor um outro (superior) modo de se ver – um modo informado por uma análise que leve muito sério a opressão como componente central da condição de pobreza e da vida sem-teto.

Esse modo de ver abre a porta para um novo modo de agir e de ser em nosso relacionamento com os outros. Porque o modo como vemos impacta aquilo que fazemos.

Se num beco, à noite, vejo um homem mau, ajo de determinada forma.

Se no mesmo beco vejo uma criança abandonada, ajo de outra forma.

E se no mesmo beco, à noite, vejo alguém baleado e percebo que trago na mão uma pistola fumegante, ajo de um terceiro modo.

Esses três são modos de ver com que as pessoas enxergam os que experimentam a pobreza e a vida sem-teto.

Consequentemente, nesta reflexão, quero começar analisando a perspectiva médica que domina os serviços sociais engajados com a pobreza e a vida sem-teto: de que modo essa perspectiva chegou a dominar o cenário, o que ela implica e o que ela deixa de levar em conta – antes de valer-me do manifesto de Jesus no capítulo quatro de Lucas de modo a explorar uma perspectiva informada pela opressão.

Daniel Oudshoorn em On Journeying with those in Exile

 

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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