Abraão emigra para Harã • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 17 de agosto de 2009

Abraão emigra para Harã

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ABRAÃO: Abraão emigra para Harã

Por um período de dois anos Abraão pode dedicar-se sem perturbação à sua escolhida tarefa de converter os corações dos homens a Deus e seus ensinos. Em seu piedoso empreendimento foi auxiliado por sua esposa Sara, com quem havia casado nesse meio tempo. Enquanto ele exortava os homens e buscava convertê-los, Sara dirigia-se às mulheres. Ela foi uma colaboradora digna de Abraão. De fato, seus poderes proféticos superavam os do seu marido; devido a eles, ela era por vezes chamada de Iscah, “a vidente”.

Ao final de dois anos aconteceu que Ninrode teve um sonho. Nesse sonho ele viu-se com seu exército próximo à fornalha ardente do vale, dentro da qual Abraão havia sido arremessado. Um homem semelhante a Abraão saiu da fornalha e correu atrás do rei com espada desembainhada, enquanto o rei fugia aterrorizado. Enquanto corria, o perseguidor atirou um ovo na cabeça de Ninrode; de dentro dele uma poderosa torrente começou a jorrar, e por ela todo o exército do rei morreu afogado. Apenas o rei sobreviveu, e com ele três homens. Quando Ninrode examinou seus companheiros, observou que usavam trajes reais, e em aspecto e estatura lembravam ele mesmo. A torrente voltou a assumir a forma de ovo, e dela saiu um pintinho, que voou, sentou-se na cabeça do rei e bicou um de seus olhos.

O rei viu-se desconcertado em seu sono, e quando acordou seu coração batia como um pilão, e seu terror era impossível medir. De manhã, quando levantou, mandou chamar seus sábios e magos, e contou-lhes o sonho. Um dos sábios, por nome Anoko, ficou em pé e disse:

— Fique sabendo, ó rei, que esse sonho indica o infortúnio que Abraão e seus descendentes farão sobrevir sobre o senhor. Chegará o tempo em que ele e seus seguidores travarão guerra contra o seu exército, e irão aniquilá-lo. O senhor e os três reis, seus aliados, serão os únicos a escapar da morte. Porém mais tarde o senhor perderá a sua vida nas mãos de um dos descendentes de Abraão. Considere, ó rei, que seus sábios leram nas estrelas esse seu destino, há cinquenta e dois anos, por ocasião do nascimento de Abraão. Enquando Abraão viver sobre a terra o rei não gozará de segurança, nem o seu reino.

Ninrode levou muito a sério as palavras de Anoko, e mandou que alguns de seus servos saíssem à captura de Abraão para matá-lo. Acontece que Eliezer, o escravo que Abraão havia recebido de presente de Ninrode, estava naquela ocasião na corte do rei. Com grande pressa ele correu até Abraão para convencê-lo a fugir antes que chegassem os oficiais do rei. Seu mestre aceitou o conselho e foi refugiar-se na casa de Noé e Sem, onde ficou escondido por um mês inteiro. Os oficiais do rei relataram que, apesar dos mais zelosos esforços, Abraão não podia ser encontrado. A partir desse momento o rei deixou de preocupar-se com Abraão.

Quando Terá foi visitar o filho em seu esconderijo, Abraão propôs que deixassem aquela terra e fixassem residência em Canaã, a fim de escaparem da perseguição de Ninrode.

— Considere — ele disse — que não foi por sua causa que Ninrode o cobriu de honras: foi para vantagem pessoal dele. E mesmo que ele continue a derramar os maiores benefícios sobre o senhor, o que são esses se não vaidade terrena? De nada servem riquezas e bens no dia da ira e da fúria. Ouça o que estou dizendo, meu pai: partamos para a terra de Canaã, e sirvamos o Deus que o criou, para que tudo lhe vá bem.

Noé e Sem assistiram e reforçaram os esforços de Abraão em persuadir Tera, pelo que Tera consentiu em abandonar o seu país. Ele, Abraão e Ló, filho de Harã, partiram para Harã com suas famílias. Aquela terra eles acharam agradável, bem como seus habitantes, que prontamente cederam à influência do espírito humano de Abraão e de sua piedade. Muitos passaram a obedecer os seus preceitos e tornaram bons e tementes a Deus.

A resolução de Tera de abandonar seu país nativo por Abraão e fixar residência em terras estrangeiras, bem como seu impulso de fazê-lo mesmo antes que o chamado divino visitasse o próprio Abraão — esses foram tomados pelo Senhor como um grande mérito para Tera, pelo que lhe foi permitido ver seu filho Abraão governar como rei de todo o mundo. Pois quando o milagre aconteceu, e Isaque nasceu de seus envelhecidos pais, o mundo inteiro dirigiu-se até Abraão e Saram exigindo saber o que eles haviam feito para que coisa tão grandiosa tivesse sido realizada em seu favor. Abraão contou-lhes tudo que havia acontecido entre ele e Ninrode, o modo como ele havia se mostrado pronto a ser queimado para a glória de Deus, e o modo como o Senhor o havia resgatado das chamas. Em demonstração de admiração por Abraão e seu ensino, os povos apontaram-no como seu rei, e em comemoração ao nascimento assombroso de Isaque, a moeda cunhada por Abraão trazia as figuras de um velho casal num dos lados e de um jovem casal no outro, pois por ocasião do nascimento de Isaque tanto Abraão quanto Sara rejuvenesceram: o cabelo branco de Abraão ficou preto, e as rugas no rosto de Sara desapareceram.

Por muitos anos Tera viveu para testemunhar a glória de seu filho, pois sua morte não ocorreu até que Isaque fosse um jovem de trinta e cinco anos. Porém uma recompensa ainda maior aguardava sua boa obra: Deus aceitou seu arrependimento, e quando deixou esta vida Tera adentrou o Paraíso ao invés do inferno, muito embora tivesse vivido muitos de seus dias em pecado. De fato, tinha sido por sua culpa que Abraão quase perdera sua vida nas mãos de Ninrode.

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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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