Abraão em Canaã • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 26 de abril de 2010

Abraão em Canaã

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ABRAÃO: Abraão em Canaã

Com dez tentações Abraão foi tentado, e ele resistiu a todas, ficando demonstrado quão grande era o seu amor. A primeira prova a que foi submetido foi a partida de sua terra natal. As dificuldades que enfrentou foram numerosas e severas, e Abraão além disso tinha reservas contra deixar sua casa. Ele disse a Deus:

— Será que não dirão de mim: “ele está se empenhando para trazer todas as nações para debaixo das asas da shekiná/glória divina, mas agora abandona seu velho pai em Harã e vai embora”?

Porém Deus respondeu:

— Descarte do pensamento qualquer preocupação com seus pais ou com seus familiares. Eles podem até dirigir a você palavras gentis, mas estão todos de acordo no propósito de arruiná-lo.

Abraão então deixou seu pai em Harã e peregrinou até Canaã, acompanhado pela benção de Deus, que disse a ele: “Farei a partir de você uma grande nação; eu o abençoarei e farei com que seu nome se torne grande”. Essas três bençãos foram designadas para neutralizar as consequências negativas que, ele temia, ocasionariam a emigração — pois viajar de um lugar para o outro interfere com o crescimento da família, diminui o patrimônio e prejudica a reputação de que a pessoa desfrutava.

A maior de todas as bençãos, no entanto, foi quando Deus disse: “E você mesmo, seja uma benção”, sendo que seu significado ~e que todos que entraram em contato com Abraão foram abençoados. Até mesmo os navegadores no mar tornaram-se devedores dele pelo sucesso de suas viagens. Deus, além disso, manteve a promessa que fez a ele de que no futuro seu nome seria mencionada nas Bençãos — que Deus seria louvado como o Escudo de Abraão, distinção conferida a nenhum outro mortal além de Davi. Porém as palavras “E você mesmo, seja uma benção” só serão cumpridas no mundo futuro, quando a semente de Abraão será conhecida entre as nações e sua geração entre os povos como “a descendência que o Senhor abençoou”.

Na primeira vez em que foi dito a Abraão que deixasse sua terra não lhe foi dito para qual país deveria imigrar — e por obedecer esse comando de Deus sua recompensa se mostraria proporcionalmente maior. Abraão demonstrou sua confiança em Deus, pois disse:

— Estou pronto a ir para onde for que o senhor me mandar.

O Senhor então disse a ele que fosse para uma terra que ele mesmo iria revelar; mais tarde, quando Abraão foi a Canaã, Deus apareceu a ele, e ele soube que aquela era a terra prometida.

Quando entrou em Canaã Abraão não soube imediatamente que aquela era terra que lhe havia sido designada por herança, mas ainda assim encheu-se de alegria por ter entrado nela. Na Mesopotâmia e em Aramnaharaim, cujos habitantes havia visto comendo, bebendo e agindo com impudência, ele sempre havia desejado: “ah, que minha porção não seja nesta terra”; porém quando chegou a Canaã e observou que ali as pessoas se dedicavam diligentemente ao cultivo da terra, Abraão disse: “ah, que minha porção seja nesta terra!”

E Deus disse a ele:

— À tua descendência darei esta terra.

Feliz diante desta boa nova, Abraão erigiu um altar ao Senhor a fim de agradecer-lhe por essa promessa, depois seguiu viagem para o sul, na direção do lugar onde mais tarde se ergueria o Templo. Em Hebrom ele erigiu outro altar, tomando dessa forma posse da terra por completo. Semelhantemente, erigiu um altar em Ai, porque previu o infortúnio que ali recairia sobre a sua descendência, por ocasião da conquista da terra sob a liderança de Josué. Esse altar, ele esperava, seria capaz de impedir os terríveis resultados que se seguiriam.

Cada altar erguido por ele tornava-se o centro de suas atividades missionárias. Tão logo chega ao lugar em que desejava se demorar, Abraão montava primeiro uma tenda para Sara, depois outra para si mesmo, e passava em seguida a fazer convertidos e trazê-los para debaixo das asas da shekiná. Dessa forma ele cumpria o seu propósito de levar todos os homens a confessarem o nome de Deus.

Por enquanto Abraão não passava de um estrangeiro em sua terra prometida. Depois da divisão da terra entre os filhos de Noé, quando todos haviam ocupado as porções que lhes haviam sido designadas, aconteceu que Canaã, filho de Cão, viu como era boa a terra que se estendia do Líbano ao Rio do Egito, e recusou-se a partir para o seu próprio lote. Ele fixou-se na terra acima do Líbano, a leste da orla do Jordão e a oeste da orla do mar. Cão, seu pai, e seus irmãos Cuche e Mizraim disseram a ele:

— Você está morando numa terra que não é sua, porque não nos foi designada quando as sortes foram lançadas. Não faça isso! Se insistir nesse erro você e seus filhos cairão, malditos, sobre a terra, em rebelião. Foi rebelião você fixar-se nesta região, e através de rebelião seus filhos tombarão, e sua descendência será destruída para toda a eternidade. Não fique vivendo na terra de Sem, pois a Sem e aos filhos dele essa porção de terra foi designada. Maldito é você, e maldito será diante de todos os filhos de Noé por conta dessa maldição, pois fizemos um juramento diante do santo juiz e diante de nosso pai Noé.

Porém Canaã não deu ouvidos às palavras de seu pai e de seus irmãos; habitou com seus filhos na terra do Líbano de Hamate até a própria entrada do Egito. Embora os cananeus tivessem se apropriado ilegalmente daquela terra, Abraão respeitou-lhes os direitos, colocando focinheiras em seus camelos para impedir que se apascentassem na propriedade de outros.

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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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