A validação da rasura • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 08 de maio de 2015

A validação da rasura

– É só uma formalidade – disse o homem de camisa branca e gravata que me atendeu na salinha lateral. – Ou menos que uma formalidade. Sente um minutinho, por favor (e aqui ele ergueu uma folha da prancheta para olhar a que estava por baixo), seu Paulo.

Sentei-me diante da mesinha que nos separava. Pela janela interna que dava para o corredor eu via a atividade da aduana, e congratulei-me de poder tratar com um ser humano e não com um dos anjos, que eram seres enormes, cinzentos, não falavam a nossa língua e portavam nas cabeças raspadas um olhar de contínuo e resoluto terror.

– Estou vendo que o senhor não preencheu um dos campos do formulário.

– Porque não entendi – eu disse. – E me pareceu importante.

– O senhor só não entendeu que não é importante – ele sorriu. – É uma formalidade. O senhor só precisa decidir de que modo a sua vida deve ficar registrada: que o senhor morreu de forma trágica com vinte e sete anos de idade ou faleceu tranquilamente na sua cama com oitenta e seis anos.

– Mas só uma das duas coisas pode ser verdadeira – eu disse. – Não se trata de uma coisa que eu possa decidir; é uma coisa que eu só poderia lembrar, e não me lembro.

– Como está escrito no contrato – disse o homem, ostentando um pouco o quanto estava sendo paciente – o senhor vai se lembrar de tudo quando for admitido.

– E não posso esperar ser admitido para responder?

– Não, porque para ser admitido é preciso responder – ele claramente entendia o absurdo da coisa toda, mas tinha tido mais tempo para calejar. – E o senhor não precisa se preocupar, seu Paulo, porque o senhor vai ser admitido de qualquer forma. Só faltou essa pergunta, é só fazer um x no quadradinho correspondente.

– Sem saber se estou respondendo certo.

– Tecnicamente não há uma resposta errada – ele observou. – O senhor não está falando do que aconteceu, mas de como o senhor quer que fique registrado. Para que seja emitida a certidão.

– E se o seu sistema é tão organizado, porque sou eu que tenho que decidir, e por que nesta altura do processo? Por que não podemos deixar o registro da minha vida para quando eu tiver recuperado alguma memória daquilo que vivi?

– Algumas pessoas se incomodam com essa questão, eu entendo perfeitamente – ele disse. – Mas foi um pedido pessoal da divindade essa pergunta. Para Deus é importante saber como o senhor gostaria de ser lembrado, antes de ser admitido.

– E por que então só essas duas opções? Por que não trinta? Por que não setecentas?

– Porque para a divindade não faz diferença – o homem disse, resignadamente. – Mas para o senhor pode fazer.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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