A Terra pertencia a todos • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 25 de setembro de 2014

A Terra pertencia a todos

Estocado em Goiabas Roubadas

Stefan Zweig

 

De fato, nada deixa mais claro o imenso retrocesso que recaiu sobre o mundo depois da Primeira Guerra Mundial do que as restrições sobre a liberdade de deslocamento do homem e a diminuição dos seus direitos civis. Antes de 1914 a Terra pertencia a todos. As pessoas iam para onde desejassem e ficavam o quanto quisessem.

Não havia vistos nem autorizações de permanência, e sempre me dá prazer deslumbrar os mais jovens contando que antes de 1914 viajei da Europa para a Índia e para a América sem ter um passaporte e sem ter em qualquer momento visto um. Embarcava-se e desembarcava-se sem questionar e sem ser questionado: não era necessário preencher um único dos inúmeros formulários requeridos hoje em dia.

As fronteiras, que com seus oficiais alfandegários, milícia e polícia tornaram-se barreiras de arame farpado graças à suspeita de todos quanto a todos os demais, não passavam de linhas simbólicas, que se cruzavam com a mesma despreocupação com que se cruza o meridiano de Greenwich.

O nacionalismo emergiu para agitar o mundo somente depois da guerra, e o primeiro sintoma visível dessa epidemia intelectual foi a xenofobia: uma mórbida aversão aos estrangeiros, ou pelo menos o medo dos estrangeiros. O mundo ficou na defensiva contra os estrangeiros, e em todo lugar eles passaram a receber pouca consideração. As humilhações que tinham sido concebidas para criminosos passaram a ser impostas aos viajantes, antes e durante cada viagem.

Requereram-se fotografias a torto e a direito, de perfil e de frente, e o cabelo passou a ter de ser curto o suficiente para deixar as orelhas visíveis. Impressões digitais passaram a ser tomadas, inicialmente só do polegar mas mais tarde de todos os dez dedos. Tornou-se necessário ainda apresentar atestados de saúde, certificados de vacinação e atestados de bons antecedentes. Cartas de recomendação passaram a ser requeridas, e convites para visitar o país tiveram de ser granjeados. Pediram-se endereços de parentes, garantias morais e financeiras, questionários e formulários em três ou quatro vias, bastando uma única via faltante nesse feixe de documentos para deixar o viajante num beco sem saída.

(…) De seres humanos foi exigido que passassem a sentir-se menos como sujeitos e mais como objetos; sentir que nada era direito seu, e tudo favor concedido por alguma autoridade oficial. Foram numerados, codificados, registrados e carimbados. Mesmo hoje, cidadão da república mundial dos meus sonhos 1Zweig estava morando no Brasil quando escreveu essa frase. Ele morou e suicidou-se em Petrópolis, onde escreveu ainda Brasil, um país do futuro., tomo por estigma cada impressão de carimbo no meu passaporte, tomo por humilhação cada uma dessas audiências e interrogatórios. São ninharias sem importância, sempre e somente ninharias, sei muito bem disso, ninharias num mundo em que as qualidades humanas perdem valor em ritmo mais acelerado do que essas moedas. Porém é só quando registramos esses sintomas insignificantes que uma era posterior poderá fazer um registro clínico apropriado do estado mental e dos distúrbios mentais que tomaram conta do nosso mundo entre as duas Guerras Mundiais.

Stefan Zweig em sua autobiografia, Die Welt von Gestern/O mundo de ontem (1942)

 

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Zweig estava morando no Brasil quando escreveu essa frase. Ele morou e suicidou-se em Petrópolis, onde escreveu ainda Brasil, um país do futuro.
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