A segunda Encarnação do Verbo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 18 de agosto de 2005

A segunda Encarnação do Verbo

Estocado em Fé e Crença · Pense comigo

Em algum momento do século XX o mundo converteu-se, talvez irreversivelmente, ao materialismo. Em algum momento, de forma individual e coletiva, dissemos adeus ao espírito, engolimos fundo e forçamos sobre nós mesmos a maturidade de reconhecer que tudo que existe é a matéria, a realidade física e palpável, o pão-pão, terra-terra. Tudo que foi escrito e pensado sobre o invisível, o imaterial e o espiritual merece aparentemente apenas uma gigantesca errata no registro do pensamento humano: ERRÁMOS QUANDO DISSÉMOS QUE EXISTE UMA REALIDADE ALÉM DO MUNDO FÍSICO.

Desculpem a nossa falha e os problemas que ela pode ter causado. Hoje em dia os sábios são o que sabem que todos os aspectos da experiência humana podem ser reduzidos à atividade química e elétrica do cérebro.

Como sustentaram Jung e, de modo diferente, Freud, metade dos problemas psicológicos da humanidade podem ser traçados à nossa dificuldade em lidar com o trauma de perder a confiança no espiritual e cair de boca no cimento frio da realidade material. Porque, não importa o quão espiritual você acredite ser, estamos todos condicionados a acreditar que o que de fato existe é estritamente o físico, o cru, o mensurável, o adquirível – se for virtual, pode ser pelo menos experimentado pelos sentidos.

Essa reviravolta é no mínimo curiosa, já que durante a maior parte de cinco mil anos de sua história civilizada o homem brincou com a ideia do espírito. Éramos mais ingênuos, talvez, e criamos para a realidade compartimentos adjacentes e invisíveis, vastíssimos repositórios de deuses, demônios e ideias.

Para o idealista, as ideias precedem a realidade material.

Antes da conversão em massa ao materialismo a humanidade perdia ao que parece muito tempo e valiosos recursos – não apenas na sua obsessão com Deus e deuses, mas com coisas inadmissíveis como a filosofia e a metafísica, matérias austeramente dedicadas ao estudo do que não pode ser estudado.

Havia curiosidades como a alma e o espírito – “realidades” separadas da realidade, independentes dela e de alguma forma superiores a ela.

O melhor exemplo de uma visão de mundo que a conversão ao materialismo tornou obsoleta e incompreensível talvez seja o Mundo das Ideias de Platão. Hoje chamamos sua doutrina de Idealismo, mas Platão cria que as Ideias são mais reais do que o que costumamos chamar de Coisas. Na verdade, ele sustentava que as coisas emprestam a sua realidade das ideias puras, que vivem num mundo superior e à parte, uma biblioteca de recursos fora do tempo. Uma maçã é redonda porque compartilha imperfeitamente da ideia pura da Redondeza, é vermelha porque compartilha do ideal da Vermelhidão, que reside em estado puro apenas no perfeito mundo das ideias.

Resumindo, Platão e todos que o seguiram, inclusive cristãos, muçulmanos, poetas e hare-krishnas, criam na hoje obsoleta noção de que as ideias precedem a realidade material. Para o idealista, e hoje não resta um sequer, as ideias tem precedência sobre o universo físico – as ideias são reais, o mundo é acessório, subalterno, talvez residual.

Para o autor do evangelho de João, tanto a Criação quanto a Encarnação seguem a lógica do idealismo: ideias primeiro, coisas depois. Primeiro havia a Ideia (o Verbo): o mundo foi feito por ela e sem ela nada do que foi feito se fez. Mais tarde, e quase contingencialmente, o Verbo se fez Carne – a Ideia se fez Coisa. As ideias têm precedência sobre a realidade material.

Para o materialista, a realidade material precede as ideias.

Hoje em dia, tudo que lemos, fazemos e pensamos parte da noção oposta. Graças ao brilho ofuscante do iluminismo científico, sabemos que as ideias não tem qualquer existência real fora do cérebro. Não apenas Deus e deuses estão indefinidamente cancelados, mas filosofias e poesias e especulações e monstros e sonhos são apenas curiosas excreções da atividade cerebral.

Sabemos hoje, ao contrário do obsoleto Platão e do velho apóstolo João, que a realidade material precede as ideias. A Coisa real gera as Ideias irreais. O Verbo foi reduzido a Carne, mas dessa vez por outro caminho e sem ter qualquer ideia do caminho de volta.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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