A queda da casa do mundo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de fevereiro de 2016

A queda da casa do mundo

Estocado em Manuscritos · Política

Esta é a parte 3 de 3 da série Sobre barragens

– Tem uma página na internet, esqueci o endereço – me disse o Zé Márcio – que mostra um mapa-múndi e uma linha do tempo. Você arrasta para a direita o triângulo que representa um ponto remoto na linha do tempo, e faz com que as fronteiras nacionais mostradas no mapa se ajustem à medida em que as datas destacadas se aproximam da nossa. Você vê o contorno do Império Romano, e no instante seguinte o sul da Europa e o norte da África pertencem já aos muçulmanos. Aqui a Índia e a África pertencem aos portugueses, no momento seguinte a América do Norte aos espanhóis. Agora a Itália ainda não existe, agora a Alemanha engole a Polônia e termina a refeição anexando a França.

– Acho que já vi essa página – eu disse, e não sabia se estava mentindo.

– Então, à medida que o cursor desacelera séculos 20 e 21 adentro, o que muda é que o mapa-múndi deixa de mudar. A União Soviética se desfaz, mas a União Soviética já nasceu desfeita. Fora essa exceção, o mapa permanece essencialmente o mesmo desde 1945.

Estávamos num bar em São Mamede, intermediados por um totem de cerveja, esperando que chegassem o Rondinelly e o Aurino.

– Quer que eu procure a página? – toquei com a mão o celular sobre a mesa.

– Não – disse Zé Márcio. – Só falei no assunto porque um demônio pra me atormentar veio à minha casa me contar como aconteceu.

– E como aconteceu?

Zé Márcio cruzou as mãos diante do rosto e inclinou-se para a frente sobre a mesa.

– Agora, as elites se reúnem uma vez por ano no inferno para uma oficina e umas TED talks. Na virada do século 19 para o 20 acontecia que o método tradicional de produzir riquezas e recursos pela permutação das fronteiras nacionais, entenda-se guerra de invasão, estava demonstrando as suas limitações.

– Mas as guerras de conquista continuaram século 20 adentro – eu disse. – Até tipo 1945, quando o mapa-múndi como você disse parou de mudar.

– Deixa eu explicar! – ele disse e deixei, por causa do sotaque paraibano. – Aconteceu que naquela época, sei lá 1900, nessas reuniões da elite nos infernos começou a se discutir uma alternativa para a guerra de conquista. Foi um alvoroço, porque naquela época ninguém podia imaginar algo mais eficaz do que a invasão na tarefa de drenar os recursos da terra, eliminar a ameaça da revolução e consolidar poder e riqueza nas mãos das elites.

– A guerra de conquista implicava em custos enormes – eu disse, porque tinha lido na internet, – mas os retornos eram sempre assombrosos. Ganhavam as elites nos países vencidos como nos vencedores.

– Certo, mas esse pessoal queria sempre mais. Foi então que o Satanás, o Cabrunco, o Nem-sei-que-me-diga, deu na semana do encontro uma TED talk sobre uma ideia que estava dando certo em alguns países da Europa, a coisa do nacionalismo.

– Ah, o nacionalismo – eu disse, e esvaziei o copo de cerveja. Nessa hora adivinhei o rumo que ia tomar a história, mas deixei o Zé Márcio continuar porque o Zé Márcio diz sempre aquilo que o discurso comporta e aquilo que não.

– Então foi aquela febre, todo mundo abraçou a ideia do nacionalismo – Zé Márcio fez com os braços os gestos de quem está amassando massa de pão. – Organizaram comitês, fecharam diretrizes, adotaram um plano mestre que vigora até hoje, e olha deu no que deu.

Ele esvaziou o copo dele num gole e perguntei se ele queria outra. Disse que sim e fiz sinal para o garçom.

– As proezas do nacionalismo – ele continuou, depois de ajeitar a cabeleira debaixo do chapéu de couro – foram basicamente duas. Primeiro, o nacionalismo alterou para sempre a sensibilidade popular. As fronteiras nacionais, que eram até ali tidas como coisa em grande parte contingente e sujeita a permutação, de uma hora pra outra viraram como que uma tatuagem sagrada na pele do planeta. O mapa-múndi fechou o seu cânone, por assim dizer. Qualquer mudança nas fronteiras nacionais passou a ser vista como ilegítima e apócrifa.

Eu já tinha escrito um pouco sobre o assunto, mas nunca teria arrebanhado aquelas palavras em particular para dizer a mesma coisa. O garçom, que se parecia muito com o Eduardo Viveiros de Castro, veio e substituiu a cerveja no totem.

– A segunda proeza do nacionalismo – disse Zé Márcio – foi prover o combustível para as guerras mundiais. De um lado o nacionalismo motorizou diretamente as duas guerras, de outro saiu delas mais fortalecido do que nunca.

– Sempre achei isso muito surreal, que as Grandes Guerras tenham consolidado a paixão global pelo nacionalismo em vez de explicar a cada um porque a ideia de nação devia ser apagada do mapa. Com o perdão do chiste.

– É coisa do demônio, estou dizendo a você. Mas estava tudo planejado. Em vez de apagar, o horror das guerras fez com que o conceito de nação ganhasse o status de coisa sagrada no panteão popular. Do jeito que a história foi contada, a Segunda Guerra em particular foi a coisa pior do mundo porque as fronteiras entre as nações foram desrespeitadas quando todos os países tinham decidido já que isso não se faz. Hitler em Paris inspecionando a Torre Eiffel, aquela coisa bem Tarantino.

– Se foi planejado foi muito mal planejado – eu disse, reclinando para trás – porque a autonomia das nações sendo vista como sagrada impossibilitou as guerras de invasão que faziam o inferno girar em primeiro lugar.

– É aí que vossia se engana, Paulo Brabo, porque essa foi a parte mais planejada da coisa. Do começo a ideia toda foi essa, foi. O que se queria desde aquela TED talk, a primeira, eram os benefícios das guerras de invasão sem os custos.

Foi nesse ponto que fui entendendo o diabo da coisa.

– Cáspita – eu disse.

– E cáspita omnia vincit – disse Zé Márcio. – As vantagens da guerra de invasão eram a quantidade tremenda de capital que trocava de mão, a exploração dos pobres como bucha de canhão e o bônus de eliminar a possibilidade da revolução. Essas coisas o novo sistema teria de manter e se possível acentuar.

– As desvantagens da invasão eram o quê? A quantidade enorme de gente que morria?

– Eita, essa era uma das vantagens, macho véi. As desvantagens eram a resistência local e nacional à invasão, a imagem negativa que ganhava o país invasor, a quantidade de gente que se deslocava da sua terra e ganhava o dom da perspectiva, tornando-se difícil de controlar, e ainda o custo de se manter um exército.

– Eita eu, que agora entendi forte a vantagem de fixar das barreiras nacionais para o capitalismo que surgia.

– O diabo me disse que era só isso que faltava – disse Zé Márcio, que àquela altura tinha deixado a cerveja esquentando no copo porque eram coisas materiais, – e é desde 1945 que não falta mais nada. O que o inferno queria era fechar as pessoas dentro das nações e deixar o capital livre para circular entre uma nação e outra.

– Golpe de mestre – eu disse, e desse ponto em diante esqueci da cerveja eu. – As nações se fechando atrás de aduanas e passaportes significava que os países ricos não precisavam mais temer o influxo de pobres, imigrantes e refugiados.

– Exato. O discurso da democracia vale da boca pra fora, só dentro do território nacional. Como se isso fosse justo ou fizesse algum sentido. Sabe Atenas, em que os plebeus não tinham direito a voto?

– E estou adivinhando que naquela TED talk original Satanás propôs a criação de entidades supranacionais que facilitassem a exploração dos despossuídos e a circulação da riqueza dos mais pobres para os mais ricos, independentemente de onde uns e outros se encontrassem no mapa.

– Evidente que sim, meu caro Brabo. As entidades supranacionais são as corporações e os conglomerados, que passeiam entre as nações cagando pra governos e autonomias nacionais e têm o aval de Deus e o mundo para invadir o território que for, explorar o recurso que for, expulsar a população nativa que for.

– Se não é isso o que está acontecendo com o bombardeio de pasto e soja no cerrado e na Amazônia – eu disse, estarrecido, – e sabe-se lá com que outras áreas mundo afora.

– Áreas que ninguém teria deixado um outro país invadir, porque seria visto como uma grande violação…

– …mas áreas que o sistema deixa as megacorporações assolarem até aplainar tudo em estacionamento. Paisagens e ecossistemas esses sim apagados do mapa, populações inteiras e modos de vida eliminados segundo a conveniência, recursos naturais sugados até o tutano.

– Barragens – dissemos os dois ao mesmo tempo.

– Toda a exploração e a assolação das guerras de invasão sem nenhum dos inconvenientes, Brabo velho.

– Todos os custos foram terceirizados, e pagam os encarcerados em países-fábrica tipo China e Indonésia, pagam os índios e sertanejos brasileiros e sei lá quantas repúblicas africanas.

– Tudo pelo progresso, Paulão. E basta que um único país tenha exército – Zé Márcio ergueu um dedo, – aquele que sustenta e policia a aplicação do sistema dos infernos mundo afora. O meu, o seu, os nossos –

– Estados Unidos.

Sem que outra palavra fosse necessária, entendi que aquela era a encarnação do conceito lovecraftiano de uma ideia tão hedionda que basta o cabra ser submetido a ela para imediatamente enlouquecer ou expirar.

Zé Márcio intuiu a minha intuição e ofereceu-se uma libação de cerveja quente.

– Os Grandes Antigos despertaram nas megacorporações – ele disse – e passeiam neste nosso esmagando mundos.

Quando chegaram Aurino e Rondinelly encontraram não sei se o Zé Márcio de sempre, mas um cara que não era mais o Paulo Brabo.

Eu, que sempre me considerei o cara mais pessimista que conheço, me encontrava agora na posição do legítimo herói de Lovecraft, inteiramente devastado pela vastidão do conhecimento adquirido e sem qualquer ideia do que seria mais terrível ou mais fútil: contar esta história ou não.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Sobre barragens

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