A primeira seção de «As divinas gerações» se chama «As divinas gerações» • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de novembro de 2013

A primeira seção de «As divinas gerações» se chama «As divinas gerações»

Estocado em Pormenor

E está dividida em quatro capítulos. Deixo um ou dois parágrafos de cada um, para sua degustação ou desgosto:

1. As indivinas perfeições

As facções cristãs tiveram gerações e gerações para burilar as suas formulações. Como resultado, os ramos da cristandade são cada vez mais perfeitos, mas perfeitos em modos diferentes, isto é, ideológicos. Tanto Lutero quanto Erasmo acreditavam que Deus é perfeito, mas Erasmo acreditava que Deus é perfeitamente bom, e Lutero acreditava que ele é perfeitamente justo. Uma vez articuladas, as perfeições deixam de se falar e passam a se tratar como inteiramente incompatíveis. O que homem separou nem mesmo Deus, em sua perfeição, parece ser capaz de unir novamente. E, claro: uma vez definida a perfeição, fica fácil demarcar quem está dentro e quem está fora.

2. As divinas gerações

É a própria Bíblia, portanto, a ensinar que novas circunstâncias não apenas permitem, mas requerem novas interpretações de um mesmo corpo de tradições bíblicas. Os cronistas, os salmistas, os profetas, Jesus e Paulo (bem como os que foram registrando as suas histórias) – todos esses propuseram interpretações das tradições bíblicas que se distanciavam sensivelmente do ensino da ortodoxia da sua época. E, muito declaradamente, não o fizeram movidos por outra coisa que não a perspectiva privilegiada que sua posição na linha do tempo concedia a cada um. O testemunho coletivo dessas vozes intra-bíblicas é que as revoluções da história fornecem chaves de interpretação que quem deseja se aproximar da divina herança não se pode dar ao luxo de ignorar.

3. Uma delicada trindade

Os discursos religiosos, que são raramente inofensivos, prestam-se em particular à desfiguração da humanidade das gentes e à sua manipulação, porque nele vem embutido como bônus terrível o nome de Deus – e o nome de Deus é ele mesmo um discurso particularmente poderoso. Mesmo em sua manifestação mais gentil e generosa, o nome de Deus vem carregado de agressão e desumanização, inerentes à sua condição de autoridade máxima e indiscutível. Dos personagens bíblicos, Jó sentiu-se particularmente violentado diante do caráter esmagador da autoridade divina. Devastado por uma adversidade sem razão, Jó sentiu-se muito mais compelido a convocar a divindade ao tribunal do que a pedir a sua intervenção restauradora; na terrível lucidez da sua dor ele intuiu que os motivos de Deus eram tão incompreensíveis, incontroláveis e arbitrários que até mesmo uma eventual generosidade da sua parte podia ser entendida como agressão.

4. Amor, esse desestabilizador de sistemas

A supremacia do amor implica que Deus não pode ser mantido o mesmo; implica que não podemos manter Deus sob controle. Nossa imagem de Deus evoluirá necessariamente com o tempo, porque novos desdobramentos históricos, novas riquezas e novas circunstâncias requererão sempre novas formas de amar – isto é, novas formas de se entender e de se exercer o caráter de Deus.

[…] É o horror a essa incompletude que leva o conservador a resistir ao convite insensato do amor. Ele quer ser um sujeito completo, e o amor vai lhe negar dia após dia essa satisfação. Ele quer obedecer as regras, e o amor blasfema que suas regras não bastam. Ele quer ser um cara estável, e o amor quer desestabilizá-lo. As heresias que o incomodam não são as que convidam à libertinagem, mas as que sugerem que ele pode estar fazendo menos do que deveria. E, dia após dia, o amor não tem outra coisa a dizer a cada um.

 

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Paulo Brabo @saobrabo

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