A perversidade do bem • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 02 de abril de 2015

A perversidade do bem

Estocado em Goiabas Roubadas

Luiz Antonio Simas

 

O processo de morte do futebol como cultura reduz o jogo ao patamar de mero evento. Contamina, inclusive, o vocabulário, que perde as características peculiares do boleiro e se adéqua ao padrão aparentemente neutro do jargão empresarial. O craque se transforma em “jogador diferenciado”, o reserva é a “peça de reposição”, o passe vira “assistência”, o campo é a “arena multiúso” e o torcedor é o “espectador”. As conquistas não são mais comemoradas em campo; mas em eventos fechados, sob a chancela de patrocinadores e com a participação do “torcedor virtual”, aquele chamado a se manifestar pelas redes sociais a partir do que verifica nas telas da televisão.

Mais grave é constatar que o exemplo do futebol não é a exceção. A regra é gentrificar. Como carioca, este é um processo que talvez me espante e entristeça mais nos nossos 450 anos de história. Penso nas arenas futebolísticas e acho inevitável comparar com o famoso Parque Madureira, com o elevador do Cantagalo, com o projeto de revitalização da zona portuária e similares. O discurso do embelezamento urbano, do ecologicamente correto, da dignidade do morador, é acompanhado da especulação vigorosa e proposital do solo urbano e da ruptura criminosa de laços comunitários, com a saída de uma população que não consegue mais pagar o aluguel ou não tem como adquirir o imóvel na área embelezada. Há ainda um discurso hegemônico na mídia que glorifica o embelezamento e esconde as contradições sociais que ele traz. A limpeza social é silenciosa, enquanto a limpeza urbana toca seus tambores, se apropria de códigos do que ela mesma destrói e domina, pela propaganda, os corações e mentes.

Já escrevi sobre isso e tenho me referido a este processo nocivo como “perversidade do bem”; ele hoje é uma das mais ardilosas estratégias de submissão do homem aos ditames dos grandes interesses corporativos.

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Moysés Pinto Neto

 

A partir dos anos 80 e sobretudo 90, com o aumento da violência devido à explosão populacional das grandes cidades, à desigualdade econômica cumulada com a ostentação do luxo e “camarotização” da sociedade, gerando fortes contrastes motivadores de pesado ressentimento entre classes, começa a emergir um discurso anticonstitucional por parte dos setores sociais atingidos pela violência urbana (isto é, a violência dos pobres) que depositam no reconhecimento de direitos para essas camadas mais vulneráveis o motivo para o crescimento da violência.

Em outros termos, é como se a Casa Grande estivesse sentindo falta do chicote sobre a Senzala, como se a “suavização” gerada pelo reconhecimento de direitos provocasse a indisciplina dos setores que deveriam servir à Casa Grande e “desequilibrasse” a ordem social brasileira. A partir dessa ideia, começa-se a atacar os direitos humanos como responsáveis pelo violência e, mais tarde, o Estatuto da Criança e do Adolescente como parte do problema, ao garantir direitos e tratamento diferenciado (veja só, que heresia isso) para os adolescentes em situação de conflito com a lei. Assim, a Casa Grande, os donos do Brasil, podem ficar sossegados: o problema do Brasil não é ter uma sociedade totalmente desigual, violenta, fundada no genocídio e na escravidão, indiferente à miséria e à injustiça, mas sim o fato de que os sujeitos desta condição, os pobres e miseráveis, não são suficientemente domesticados para servir. O problema é o excesso de direitos. Por isso, não precisamos mudar nada na sociedade, apenas suprimir esses “erros” (os direitos) e “endurecer” o controle – fundamentalmente a partir do Estado policial – sobre a Senzala. Trata-se, por isso, de um conservadorismo antiliberal que, na falta de palavra melhor e considerado seu teor higienista, repressivo e policialesco, pode ser chamado de fascista.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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