A irmandade do sermão perpétuo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de junho de 2014

A irmandade do sermão perpétuo

Estocado em Manuscritos

Você que nunca foi a uma igreja dessa tradição não tem como saber, mas um culto protestante tende a durar de duas a seis vezes mais do que uma missa católica, e uma grande percentagem desse tempo (entre 25 e 50%) é ocupada pela pregação.

E sim: se a conta está certa muitos protestantes (ou evangélicos, como certos círculos preferem ser chamados) tomam por coisa habitual ouvir pregações que se estendem relógio adentro quando missas inteiras já começaram e terminaram.

Essa diferença nasce de outra: a missa está centrada na eucaristia, mas o culto orbita ao redor da pregação.

O momento da missa que mais ou menos corresponde à pregação protestante é a homilia – um comentário efetuado sobre uma das leituras requeridas pela liturgia 1Uma leitura do Antigo Testamento, uma leitura das cartas do Novo Testamento e, com maior destaque cerimonial, uma leitura dos evangelhos.. Porém a homilia é um componente sujeito a uma estrutura maior, a Liturgia da Palavra, e esta por sua vez serve na prática para emoldurar a Liturgia da Eucaristia.

Dito de outra forma, o católico vai à igreja muito mais para participar do eterno – a comunhão em todos os sentidos da palavra – do que para ouvir algo novo. A missa, sendo construída em cima de repetições, foi projetada para ser uma encenação continuada do perpétuo, do infinito e do inalterável: um encontro com aquilo que se pode satisfazer é porque não tem nada a acrescentar. O componente da missa com maior vocação para “inédito” é o (usualmente breve) comentário da homilia, mas uma missa pode muito bem existir sem ele (a homilia só é obrigatória aos domingos e dias santos).

O católico vai à igreja encontrar o eterno; o evangélico vai consumir conteúdo original.

Em contraste, um culto evangélico pode muito bem prescindir do rito da comunhão (cada facção tem critérios diferentes para decidir a periodicidade com que seus membros participam do pão e do suco de uva 2Evangélicos em geral não admitem beber vinho (ou qualquer outra bebida alcoólica), embora em geral não neguem que Jesus bebia. Não, não espere coerência.), mas (numa regra para a qual não conheço exceção) não existe sem a pregação.

Dito de outra forma, o evangélico/protestante vai à igreja menos para encontrar-se com o eterno do que para consumir conteúdo original. Essa obsessão com a novidade definiu o espírito da Reforma e todas as suas revoluções por minuto posteriores.

Paradoxalmente, os católicos vão à igreja essencialmente para comer, mas é para os crentes que a igreja é um lugar de consumo. O evangélico vai ao culto muito claramente esperando ouvir/consumir algo novo: o que Deus vai me revelar, o que Deus tem a me dizer, o que na pregação irá aplicar-se a mim, o que na pregação vou poder aplicar na minha vida, o que o Espírito vai me falar ou – como os pastores estão habituados a colocar – o que a Bíblia tem a nos dizer hoje.

Essa perene atualização da mensagem (que está encapsulada nas palavras protestante e Reforma) é o espírito e a razão de ser da pregação de tradição protestante. Ao contrário do católico, o evangélico está pouco se lixando que a divina mensagem seja eterna; ele exige que ela permaneça atual. A Palavra deve aplicar-se aqui, agora, e deve aplicar-se de modos novos, como nunca se aplicou antes.

Espera-se que, sendo o centro da experiência evangelical, a atualização perpétua da mensagem produza conteúdo original em proporções assombrosas, a fim de manter continuamente saciada a sede evangélica por novos esclarecimentos, novas revelações, novos refinamentos, novas percepções, novas descobertas, novos discernimentos, novas compreensões, novas conexões, novas aplicações.

Na prática, o fiel protestante requer de si mesmo a fé de que o seu pastor terá quarenta minutos de conteúdo lúcido, relevante e original para apresentar agora de manhã; que será capaz de apresentar a mesma medida de lucidez e de conteúdo original ainda esta noite e também no domingo próximo e no seguinte e perpetuamente, e com ele todos os pregadores presentes e futuros espalhados pela face da Terra, agora e na hora de nossa morte, amém.

Por um lado ele não considera um milagre que ele mesmo acredite nisso, por outro não percebe que este é um sistema de consumo – como as novelas da televisão, como a timeline do Facebook, como os novos lançamentos de celular, como os modelos da nova estação, como as atualizações de programas e sistemas operacionais, como os produtos de grife: sistemas que garantem a sua subsistência e prendem a sua atenção colocando diante de você a perene promessa de terem algo novo para oferecer. Sistemas que persistem não porque demonstram resistir ao teste do tempo, mas porque nunca se apresentam em uma versão definitiva; persistem não porque se mostram invariavelmente relevantes, mas porque suas permutações nunca se esgotam.

Na igreja de tradição protestante, esse sistema reduz todos os pastores a comentaristas, todos os membros de igreja a comentaristas de seus pastores, e todos esses a acreditar que essa conversa circular entre colunistas é o verdadeiro e justo cristianismo.

Os Estados Unidos do que não pode ser saciado

O desejo pela novidade e a insatisfação diante da tradição explicam muita coisa nas culturas de formação evangélica. Para ver um país inteiro vivendo sobre esse prisma e debaixo dessa visão de mundo, basta olhar os Estados Unidos – entre outras coisas porque foi ali que nasceu o evangelicalismo, o ramo mais ativista e conversionista do movimento protestante. Protestantes tradicionais tendem a ficar mais ou menos na deles; os crentes que armam circos, berram nas esquinas, sequestram as rádios e querem a todo o custo converter você e o mundo inteiro – esses são com toda a probabilidade evangélicos de herança norte-americana.

Converter o mundo permanece o alvo dos Estados Unidos, mesmo que seja à modalidade secular do consumismo.

Que só tem valor as coisas que se podem comprar e possuir ensinaram os materialistas de todas as eras. Os norte-americanos são os evangelistas globais do capitalismo tecnológico, e essa doutrina acrescenta que as coisas que devemos desejar comprar são aquelas na estreita margem da novidade: as coisas em suas versões mais novas ou atualizadas, no rarefeito intervalo antes que sejam superadas por versões mais novas e percam por conseguinte interesse e valor. Esta cenoura; não, esta, não, ESTA! Veja, você comprou esta mais saiu agora uma nova. Com o dobro de memória. Ou de beta caroteno.

Os Estados Unidos são ainda a terra das teorias da conspiração e dos livros de Dan Brown, que procuram sem pausa reler os sinais tradicionais do mundo e encontrar neles novos vislumbres, novas conexões, novas revelações – coisas que até agora passaram despercebidas, porque nada que é antigo ou que se apresente como concluso deve poder bastar. Nada que não seja novo deve poder ser considerado admirável, interessante ou satisfatório.

Os evangélicos americanos leem a sua Bíblia e o seu mundo desse modo, procurando (e encontrando) década após década sinais claros do Anticristo, referências inequívocas do sinal da Besta, indícios incontestáveis do fim iminente dos tempos. A geração seguinte descartará todas essas interpretações em favor de outras e não verá contradição nessa postura. O esplendor da nova lucidez e a obsessão tipicamente capitalista com o excepcionalismo – a doutrina do “comigo vai ser diferente” – os justifica inteiramente a seus próprios olhos. Eles não ignoram que tudo que passou deve ser descartado em favor desta-coisa-nova-que-estou-oferecendo-agora.

Os Estados Unidos, finalmente, são o berço do pentecostalismo, movimento nascido do século XX e que adicionou à tradição evangélica e à experiência cristã uma atualização de sistema operacional, uma benção 2.0: o batismo do Espírito Santo – ele mesmo uma fonte adicional (e para todos os efeitos inesgotável) de novas revelações, descobertas e interpretações, muitas vezes em tempo real.

A doutrina do sermão perpétuo

Dos aspectos litúrgicos da experiência da igreja, a pregação – chamada algumas vezes de sermão, estudo bíblico, mensagem, meditação da Palavra ou simplesmente “Palavra” – é de longe aquele de que menos sinto falta. Na verdade, hoje em dia meu cinismo com relação à palavra falada se estende a praticamente todas as suas manifestações (teatro, cinema e humor são as exceções em que consigo pensar). Basta que eu ouça alguém falando em modalidade discurso, ao vivo ou em qualquer mídia, para acionar o meu detector de fascismo, que mandei ajustar e é mais sensível do que o seu.

Eu não ouviria pregações ou palestras, ao vivo ou no youtube, nem por dinheiro nem por amizade – especialmente aquelas com que eu estivesse inclinado a concordar; especialmente se fosse eu que estivesse falando.

Reuni abaixo algumas das razões pelos quais a igreja deveria apressar-se em quebrar o círculo da pregação perpétua. Já pensou, uma igreja inteira com sermão nenhum?

► A doutrina do sermão perpétuo dá a entender que se Deus fala é dentro da igreja

Ou, mais precisamente: o fiel entende que fora da igreja, no mundo da experiência cotidiana, não precisa prestar atenção.

O católico vai à igreja para executar um ritual, não para aprender algo novo (e isso o catolicismo tem em comum com outras tradições religiosas). Porém é o próprio caráter ritual da sua experiência religiosa que o estimula a buscar a iluminação e o aprendizado em outros lugares e em outros momentos, no fluxo contínuo da vida e não nas exceções dominicais.

Em contrapartida, o que o culto diz continuamente ao protestante é este é o momento em que você está aprendendo; este é o momento em que você pode ouvir o que Deus tem a dizer. Ao contrário do protestante, o católico não está condicionado a pensar que Deus fala de um único modo, num único lugar e com um único recurso de linguagem.

► o sermão perpétuo adia perpetuamente a maturidade e a responsabilidade

Inúmeras tradições religiosas pressupõem um período de aprendizado, por vezes longo, por vezes exigente e complexo. Porém a maioria estabelece um momento de maturidade, a partir do qual o fiel é estimulado a prosseguir pelos seus próprios meios, e a preparar quem sabe outros para atingirem a mesma condição de autonomia e de responsabilidade.

Outras tradições, como o judaísmo, postulam um aprendizado que dura a vida inteira, mas oferecem mecanismos que estimulam a independência de pensamento e o exercício intelectual. O judeu é ensinado a ouvir opiniões que divergem entre si e que divergem da sua própria opinião, e a respeitá-las. É ensinado e estimulado a discordar, a contra-argumentar e a contribuir. A discussão e o diálogo são as próprias ferramentas de aprendizado na tradição judaica.

O regime do sermão perpétuo, em contraste, impossibilita e inibe o diálogo, desencoraja a independência intelectual e não oferece nenhuma perspectiva de autonomia e de equalização.

O ouvinte sabe que nunca estará “pronto”; sabe que nunca terá voz ou oportunidade de contribuir à discussão. Ele não vê em si mesmo qualquer perspectiva de autonomia e de responsabilidade, e se assustaria se alguém lhe oferecesse um horizonte com essas características.

O sermão quer permanentemente ensinar e iluminar, mas como resultado os seus ouvintes nunca se sentem iluminados ou prontos. O ouvinte é encorajado a esperar semana após semana por uma nova revelação essencial que até agora lhe falta, aquela parcela de informação particular que o levará finalmente a vencer e mudar de vida: uma meditação sobre a oração de Jabez, o próximo livro devocional do Paulo Brabo, o novo comentário desta nova tradução, aquela vírgula que muda o por completo o sentido deste verso, a série de pregações do megapastor sobre aquele livro obscuro da Bíblia, o significado daquela palavra grega que lhe abrirá um leque inteiro de vislumbres e interpretações.

Se quer que as pessoas ajam como crianças basta alimentá-las como crianças, alertava o próprio Apóstolo. A doutrina do sermão perpétuo pressupõe a imaturidade de todos, e assim produz em todos a imaturidade que pressupõe.

► O sermão perpétuo estimula o crente a enxergar na participação passiva a própria identidade

Uma multidão de pessoas de tradição católica, mesmo aquelas que não participam regularmente da missa e de outros rituais requeridos pela Igreja, fazem questão de identificar-se como católicas, e não encontram grande contradição nessa sua identificação.

Sem jamais dizê-lo com todas as letras, o sistema encoraja essas pessoas a acreditar que a sua identidade católica não está limitada ao que acontece dentro da igreja. Como resultado, o catolicismo produz desigrejados que são ao mesmo tempo mais devotos e menos neuróticos do que os outros. O católico acidental em geral deseja ser um católico melhor mais do que deseja voltar a participar dos rituais requeridos pela Igreja. Ele consegue separar uma coisa da outra, e é levado a concluir que a sua participação ativa tem mais peso do que a sua participação passiva.

O protestante que deixa de se submeter ao regime semanal do sermão perpétuo não sente a mesma facilidade para apegar-se à sua identidade protestante. Ele vê sua identidade de tal modo ligada à participação passiva no culto que entende imediatamente que deixou de ser protestante se deixar de ir à igreja. Como nunca foi estimulado a ter uma participação ativa na sua experiência religiosa, sente que se não participar do culto sua participação será nenhuma.

► A pregação perpétua dá a entender que o conhecimento teórico sobre Deus aperfeiçoa a prática do homem

Isso, claro, quando nada na Bíblia dá a entender coisa semelhante.

O sermão perpétuo é um exercício sem fim em explicar como Deus funciona. Ele requer a tripla fé de que é possível saber sem engano como Deus funciona, de que é possível transmitir esse conhecimento uma vez que exista e de que é possível a seres humanos beneficiarem-se dele – nenhuma das quais tem a sanção da Bíblia ou da sensatez.

Na Bíblia o “conhecimento de Deus” é invariavelmente pessoal, nunca intelectual. Ninguém fez mais para desestimular o conhecimento intelectual de Deus, sua redução a regras, teologias e discursos, do que o próprio Jesus e seus primeiros seguidores.

Dito de outro modo, “o que Deus tem a nos dizer hoje” é o que Deus teve a nos dizer sempre. Não faz sentido ficar revendo as anotações e reformulando as definições até que todos estejam satisfeitos.

Trata-se de um aprendizado exigentíssimo, mas o conteúdo em si é bastante curto. Anote aí: Deus é amor.

Vamos à prática.

Católicos, protestantes e o deslocamento das esferas

Muitas das diferenças entre a experiência religiosa protestante e a católica podem ser explicadas por algo que não tem nada a ver com religião.

O que aconteceu por ocasião da Reforma foi um portentoso deslocamento de esferas.

O católico operava, e em grande parte ainda opera, no modo medieval. Para ele a esfera pública é o que acontece fora da igreja; sua experiência dentro da igreja ele toma por privada e pessoal.

O protestante opera no modo capitalista. Como espero explicar melhor em outro lugar, isso quer dizer que sua vida passou, sem qualquer metáfora, por um processo de privatização. Para o protestante o que acontece dentro da igreja passou a ser considerado público; tudo que acontece fora da igreja ele toma por privado e de caráter pessoal.

Sou eu que estou pedindo: releia por favor esses dois últimos parágrafos.

Para o católico a missa é a encenação ritual de um único momento. A missa tem um único teor e este é: isto é seu, celebre isto. É uma mensagem pontual. O adorador sente-se convidado a celebrar fora das portas, de um modo que ninguém sabe como será.

O protestante é convidado a exercer o seu cristianismo dentro das portas. A congregação é a sua esfera pública: é aqui que ele sente-se compelido a celebrar. Fora das portas é o seu domínio privado, e ali se sentirá livre para voltar a celebrar a si mesmo.

O nome “missa” quer dizer, incrivelmente, “dispensa”, e seu uso tem origem na expressão latina que era usada na conclusão da liturgia: ite, missa est – ou seja: “podem ir embora; vocês estão dispensados”. Como se sabe, o próprio Jesus disse “vá para casa” com mais frequência do que “venha me seguir”. A implicação clara é que abraçar integralmente a esfera do cotidiano – “ir para casa” – pode ser o modo mais exigente e legítimo de efetivamente segui-lo.

“Vocês estão dispensados” é o tipo de coisa que um culto jamais diria a um protestante.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Uma leitura do Antigo Testamento, uma leitura das cartas do Novo Testamento e, com maior destaque cerimonial, uma leitura dos evangelhos.
2. Evangélicos em geral não admitem beber vinho (ou qualquer outra bebida alcoólica), embora em geral não neguem que Jesus bebia. Não, não espere coerência.

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas é abrigo de argumentos que se repetem