A integridade das coisas • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 31 de outubro de 2004

A integridade das coisas

Estocado em Nostalgia · Política

J. R. R. Tolkien (e quero enfatizar sempre isso, eu que prefiro casas velhas de madeira) desconfiava da modernidade tanto quanto da democracia. Ele acreditava que, do mesmo modo que a democracia radical (todos os homens são iguais) era uma afronta ao que ele cria ser o caráter único do indivíduo (todos os homens são únicos e infinitamente distintos), a obsessão com a tecnologia mecanizava a alma da humanidade.

Quanto mais próximos da perfeição moral, menos mecanizados são os povos da Terra Média.

Em 1955, numa entrevista, um repórter de Nova Iorque perguntou a Tolkien o que o fazia clicar [gíria da língua inglesa para “motivar, tocar intensamente”]. “Eu não clico”, respondeu Tolkien, “não sou uma máquina. E, caso clicasse, não teria opinião formada a respeito. Você teria de perguntar ao que me daria corda”.

Essa desconfiança com o culto ao “progresso” aparece claramente em O Senhor dos Anéis. Quanto mais próximos da perfeição moral, menos mecanizados são os povos da Terra Média. Os hobbits conhecem apenas as máquinas mais simples, e suas casas são tocas escavadas nas encostas das colinas: para costruí-las não é necessário derrubar árvores e nem mesmo mover rochas do local onde repousam há milênios. Essa preocupação em não sacrificar o cenário natural no altar do progresso é exemplificada pelo desespero de Sam ao encontrar as árvores do Condado derrubadas e substituídas por feios barracões. Ainda mais que os hobbits, os elfos de Lothlörien aprenderam a viver sem “impactar” o meio ambiente de qualquer forma. Os ents mobilizam-se para vingar as árvores derrubadas por Saruman e enterram o seu reino sujo, corrompido e mecanizado debaixo de um inclemente dilúvio de águas purificadoras.

É natural pensar que os índios brasileiros tinham mais em comum com hobbits e elfos do que com Homens.

Hoje em dia bosques e florestas não são mais protegidos por elfos e os Homens pisam-nos a seu bel-prazer. Duas das mais bonitas montanhas da região onde moro ostentam em suas encostas gigantescas feridas abertas de pedreiras empoeiradas. Rios sujos, nascentes aterradas e árvores caídas são elementos tão comuns do meu cenário imediato que sou culpado de deixar por completo de percebê-las, sem jamais ostentar a indignação justificada de Sam.

É natural pensar que os índios brasileiros tinham mais em comum com hobbits e elfos do que com Homens. Por centenas de anos antes do Descobrimento eles conviveram com a paisagem natural sem alterá-la de qualquer forma representativa. Como os seres mais sábios da Terra Média, eles na sua “selvageria” intuíam que destruir a integridade das coisas simples e eternas, como árvores e rochas, era um ataque ainda maior à alma humana do que à alma das coisas.

Leia também:
A ansiedade das coisas

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas informa que ao ler esta página você se compromete contratualmente a concordar com a totalidade do seu conteúdo, obrigando-se ainda a alinhar suas crenças e prioridades às nossas; subscrever todas as nossas opiniões e juízos; acalentar, fomentar, promover e maravilhar-se diante da lucidez de tudo que dizemos até o fim dos seus dias