A hora perdida • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 24 de julho de 2007

A hora perdida

Estocado em Sonhos

Eu caminhava na divisa entre o sono e a vígilia, procurando o reino das formigas com asas, quando me deparei com uma gaiola dourada banhada pela luz do entardecer. Dentro da gaiola havia uma ave fabulosa com o porte e a aparência de uma arara, mas que ostentava uma plumagem translúcida de um colorido formidável: verdes incrivelmente luminescentes com toques de amarelo candente e vermelho.

Olhando para o animal enjaulado intuí logo que aquela, incrivelmente, não era apenas uma ave; era ao mesmo tempo uma hora do dia, uma hora de todos os dias da minha existência, bela, incandescente e aprisionada ali diante de mim. Entendi que por mais belo que fosse contemplar aquela visão capturada de bem-aventurança, cabia a mim a terrível responsabilidade de libertar de sua prisão e ave e a hora do dia que ela representava – caso contrário ambas permaneceriam ociosas, estéreis e infrutíferas naquele dia e por todos os dias para sempre.

Decidi então que libertaria imediatamente a ave magnífica e sua magnífica hora perdida. Gastei uns últimos instantes desfrutando da beatitude do seu cativeiro, e acordei do sonho antes que pudesse estender a mão na direção da gaiola.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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