A história da loucura • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de janeiro de 2016

A história da loucura

Estocado em Goiabas Roubadas

Esta é a parte 4 de 5 da série Eles sãos

Para entender como isso funciona pode ser útil prover um sumário da história da ideia de doença mental. Nesta seção quero resumir A história da loucura de Michael Foucault, valendo-me ainda de Deviance and Medicalization: From Badness to Sickness, de Peter Conrad e Joseph W. Schneider. Enquanto examinamos essa história é fundamental que reflitamos sobre a nossa própria experiência nos serviços sociais. O quanto nossas instituições refletem os valores, trajetórias e estruturas das instituições que descobrimos aqui?

Surgia a compreensão de que os pobres eram benéficos para a riqueza das nações e dos capitalistas

A sociedade ocidental é singular na sua compreensão de que a “loucura” é uma “doença mental”. De que modo isso ocorreu e quais são as consequências?

Foucault sustenta que com a ascensão da razão por ocasião do Renascimento os valores culturais foram se alienando das virtudes cristãs, e o comportamento que havia sido previamente classificado como pecaminoso passou a ser visto como “insensatez” ou “irracionalidade”. Como continua a ser o caso ao longo dos séculos, comportamentos que eram já classificados como fora da norma foram recategorizados como enfermidade. A doença, em outras palavras, segue padrões predeterminados de maldade, e as considerações negativas a respeito de um comportamento precedem quaisquer explicações para esse comportamento.

O pecado tendo sido reclassificado como insanidade, instituições de confinamento foram construídas ao redor do século dezesseis a fim de abrigar os que fossem considerados loucos ou doidos. Essas instituições cresceram tanto que em Paris, por exemplo, uma em cada 100 pessoas acabou estando confinada em determinada altura. Não sendo nem hospitais nem prisões, essas casas de confinamento acabava entrincheirando desempregados, criminosos, gente que experimentava a pobreza, libertinos, mendigos, desocupados e gente considerada insana.

As marcas primárias da loucura eram no entanto a pobreza, o desemprego e a inatividade.

Para a emergente sociedade capitalista era essencial associar essas características à loucura. Sua ascensão ao poder requeria uma base trabalhadora dócil e facilmente explorável (o proletariado), por isso era necessário assegurar que o trabalho permanecesse ao mesmo tempo possível e necessário para os que não podiam viver sem o trabalho assalariado. Mendigos, desocupados, indigentes e miseráveis eram vistos como incorporando uma ameaçadora alternativa a tudo isso.

As cidades já tinham tentado enfrentar essa ameaça usando de força para expulsar os mendigos, desocupados e desempregados, porém essa abordagem levou a violentas revoltas populares. Uma abordagem mais efetiva era necessária, e reclassificar como loucos os que não podiam ou não queriam trabalhar mostrou-se mais propício para o exercício da força sobre os fora da norma.

As pessoas foram reclassificadas como loucas, e desse modo recebiam abrigo e alimento – visto que sua loucura as tornava, por definição, incapazes de cuidar de si mesmas, – mas eram também destituídas de liberdade, e as instituições que as abrigavam forçavam-nas a trabalhar.

As marcas da loucura eram a pobreza, o desemprego e a inatividade

Consequentemente, as pessoas que demonstravam uma ética de trabalho adequada em sua estada nessas instituições eram consideradas sãs e recebiam permissão de voltar para a sociedade.

Nessa altura o louco não era considerado ainda doente; ele era visto como um animal controlado por paixões. Começou a se propagar, no entanto, o temor de que essa gente fosse contagiosa. As pessoas passaram a ter medo de viver perto de instituições que abrigasses os insanos, temendo o contágio.

Uma reorganização tomou lugar para lidar com esses medos: os que podiam trabalhar foram mandados para reformatórios ou de volta para a sociedade, os criminosos foram mandados para as prisões. Os loucos foram mandados para os manicômios e colocados sob o controle de médicos. Foram isolados, não para o seu próprio bem-estar, mas porque temia-se que a sua loucura se alastrasse entre os trabalhadores pobres e os criminosos.

Essa reorganização veio ao mesmo tempo em que surgia a compreensão de que os pobres – os indigentes – eram na verdade benéficos para a riqueza das nações e dos capitalistas. Os pobres permitiam uma rotação do consórcio de trabalhadores, podendo ser usados para manter os proletários na linha. Se os trabalhadores ameaçassem uma greve ou pedissem uma porção maior dos lucros, podiam ser substituídos pela reserva permanente de pobres que queriam trabalhar mas não encontravam como. Consequentemente os pobres foram legitimamente reintegrados na sociedade na qualidade de pobres, sendo sustentados por instituições de caridade a fim de operarem como ameaça para qualquer forma de mão de obra organizada. Os pobres miseráveis, em outras palavras, tornaram-se úteis na tarefa de disciplinar os pobres trabalhadores.

Daniel Oudshoorn em On Journeying with those in Exile

 

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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