A herança perdida • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 01 de fevereiro de 2015

A herança perdida

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 1 de 2 da série Vamos falar sobre carne

A história do cristianismo é também a história da dança pública de um número limitado de palavras. É a história de para onde essa inusitada coreografia acabou conduzindo tanto as palavras que estavam dançando quanto as pessoas que estavam ouvindo.

Os primeiros articuladores da mensagem cristã, em particular o apóstolo Paulo, excederam na arte de fazer uma coisa remeter a outra, e de encontrar ressonâncias novas e elevadas para palavras antigas e comuns. Como resultado, palavras e significados que nunca tinham sido vistos na companhia um do outro foram apanhados dançando juntos no salão 1Jesus não deixou de recorrer a metáforas, mas parece ter preferido usar a narrativa – sua própria história e as histórias que contava – para remeter a uma realidade oculta, desejável ou superior..

A metáfora é uma bela ferramenta – através dela um autor pode usar uma palavra que fala de uma ideia para remeter a uma ideia que não tem talvez uma palavra que lhe corresponda. Mais do que qualquer outro autor do Novo Testamento, o apóstolo Paulo amarrou o seu raciocínio à capacidade do seu leitor de entender as suas metáforas. Graça era uma espécie de beleza, e passou a remeter à postura cavalheiresca de Deus. Corpo era uma entidade orgânica, e passou a remeter a uma comunidade orgânica. E carne – ora, o caso da carne é mais complexo, em grande parte porque Paulo construiu a sua metáfora a partir do que já era uma metáfora.

E aqui começam as agruras da carne.

 

O sucesso do cristianismo e seu impacto cultural nos primeiros séculos representam em grande parte o sucesso dos primeiros cristãos em escolher e fazer circular palavras – mas também em obscurecê-las.

Porque um dos resultados desse sucesso foi que as palavras escolhidas pelo cristianismo para apontar as suas metáforas tornaram-se tão imediatamente populares e universais que deixaram de ser vistas como metáforas: tornaram-se termos técnicos cada vez mais consagrados, mas perderam a vitalidade. Passaram a remeter em falso, a remeter circularmente a si mesmas, tendo perdido o contato com o remetente original. Não só mudou o modo como certas palavras eram popularmente percebidas e aplicadas; ninguém mais se preocupava em determinar o que realmente significavam coisas como graça, carne e justiça, ou de que modo e com qual lógica tinham nascido para essas antigas palavras as presentes associações.

Só restou o significado novo e autorizado, indiscutido e indiscutível, e ninguém percebia que essa leitura podia ter pouco a ver com a metáfora original e com aquilo a que ela remetia.

E, evidentemente, nada é mais revelador do que aquilo que deixamos de perceber.

 

Essa é uma história que já comecei a contar de várias maneiras; tentemos esta. Porque se o que passa despercebido é em todas as coisas o mais relevante, revelações profundas espreitam nas coisas mais familiares. Como nessa mais rasteira das palavras, carne.

Quando Paulo decidiu usar carne como metáfora os judeus já há mil anos a usavam como metáfora, e ela remetia à ideia de família.

Família, como espero ser capaz de demonstrar ao fim desses trabalhos, não esgota o sentido do termo bíblico carne, mas está inseparavelmente ligado a ele. Tudo que ponderarmos sobre família se aplicará sem grande desvio ao mistério que o Novo Testamento atribui à carne e nela encerra.

E a força da dupla metáfora está em que família é antes de tudo uma circunscrição. É um limite, uma cerca. Se isso ficar claro, tudo ficará.

Como a nossa carne literal, a família é uma porção da nossa identidade para além da qual parece ser impossível escapar.

Milênios e milênios antes que ao homem ocorresse forjar o método científico e que a ciência encontrasse um modo de explicar a carga genética, as pessoas já enxergavam as famílias como tutoras e representantes de um conjunto peculiar de características físicas e de temperamento. O zodíaco em alguns casos podia ser vencido e o destino com algum esforço podia ser contornado, mas numa espécie de fatalismo concordavam a literatura, a experiência e a cultura popular: do signo da família não se escapa.

Ao longo das eras fazer parte de uma família foi visto (e em algumas vezes ainda é) como representando uma verdadeira vocação – talvez a mais eloquente e inescapável de todas. Nascer em uma determinada família era tornar-se portador e guardião dos seus valores, de sua reputação e de suas tradições; em muitos casos, representava também ser perpetuador de suas falhas, de suas mesquinharias, de suas antigas fontes de renda e redes de exploração (e na maioria das vezes não se via grande diferença ou conflito entre esses dois aspectos da vocação familiar.)

Em sua condição de circunscrição povoada, uma família era uma espécie de domínio soberano, quase uma entidade geopolítica – uma espécie de reino. Como todos os reinos deste mundo, o duplo ideal de uma família foi desde sempre preservar (sua integridade, seus membros e seu conjunto de valores) e ampliar (sua área de alcance, seu poder e o número de seus habitantes). Na prática isso implicava em selar alianças eventuais com outras famílias, em antagonizar abertamente outras e tentar manter-se constantemente acima de todas. É a mesma história, seja em 2 Samuel, em Henrique V ou em Game of Thrones.

Era esse o regime ideal: na qualidade de vaso portador dos privilégios e das características da circunscrição em que havia nascido, cabia a cada membro de uma família desempenhar o seu papel na preservação e na ampliação deles. Os interesses do indivíduo eram tidos como em grande parte subalternos em relação aos interesses do circuito familiar.

Era apenas natural, nesse cenário, que os pais decidissem pelos filhos a profissão a ser seguida e a exata composição do leito matrimonial. Não se tratava de um intervencionismo gratuito, mas resultado da priorização das recompensas e das responsabilidades do sangue. Ninguém ignorava os pequenos desconfortos sociais e as enormes injustiças pessoais que resultavam desse sistema, mas não ocorreria a ninguém negar as vantagens muito evidentes que ele provia a todos – e portanto a cada um. O sangue acima de tudo: era assim que funcionavam as grandes famílias, e as pequenas famílias sonhavam em funcionar como as grandes.

A entranhada lealdade à circunscrição, esse condicionamento a que os seres humanos submetem os outros e a si mesmos – de dar atenção ao nosso em detrimento dos de fora – é a base do que Paulo vê como as limitações e problemas da carne.

 

O leitor mais sagaz (e quem quer outro tipo de leitor) vai observar que nada disso é exatamente relevante nos nossos dias, porque a família deixou de ter a centralidade social e cultural que tinha nos tempos de Paulo. Todo o edifício da argumentação do apóstolo, qualquer que tenha sido, perdeu sua relevância quando a família perdeu o poder que tinha de determinar destinos, corromper sistemas e oprimir indivíduos.

Essa observação só não é mais pertinente porque ignora alguns pontos. Primeiro, que Paulo começa na carne/família, mas a usa como metáfora para iluminar e denunciar os condicionamentos mais entranhados e universais da condição humana. É possível morar na cidade e entender que os lírios do campo não trabalham nem fiam. Do mesmo modo, a metáfora de Paulo aponta para verdades profundas mesmo diante do que mudou na sociedade – especialmente porque o que ele estava procurando denunciar são condicionamentos profundos que não mudam mesmo quando tudo parece mudar.

Em segundo lugar, a família perdeu sua hegemonia na prática, mas trata-se de medida tão entranhada de valor que não nos damos conta de que quando queremos falar de lealdade, cooperação e segurança não encontramos metáfora mais ressonante do que a família. De fato não somos capazes de conceber algo mais suficiente, mais admirável e inequívoco, mais inerentemente correto do que a família. Você pode achar isso muito doce, mas quer dizer que no que diz respeito à argumentação de Paulo nada mudou: para ele as armadilhas da carne estão relacionadas precisamente à tendência muito humana de associar lealdade, cooperação e segurança a uma circunscrição.

 

Um dos resultados das guinadas libertárias que sacudiram o ocidente no século vinte foi que o indivíduo passou a ser considerado uma circunscrição mais sagrada e inviolável do que o circuito familiar. Como resultado da entronização cultural da liberdade pessoal, a família tornou-se um fator menos determinante, um signo muito menos inelutável do que era há cem ou dois mil anos – ao menos para a porção mais privilegiada do mundo ocidental.

Porém a cultura é por definição conservadora, e está longe de encontrar modo de deixar para trás a mais antiga das metáforas de identidade e de valor.

O signo da família permanece componente mais do que fundamental das grandes narrativas a que nos submetemos na cultura popular. É essencialmente a mesma história que vem sendo contada ao longo dos séculos, mas parece-nos ainda irresistivelmente interessante e relevante o momento da trama em que entendemos finalmente quem é filho de quem, porque intuímos que essa relação ao mesmo tempo transforma e explica tudo. Há um horror catártico que é uma forma de prazer em descobrir que Luke Skywalker é filho de Darth Vader, ou entender na novela da tv que Cortiano é irmão de Rita. Séculos depois, nenhuma reviravolta nos interessa mais ou tem maior poder dramático do que aquela que envolve os laços de sangue.

Eu sou seu pai.

Você tem um irmão sobre a qual nunca lhe falamos.

Você é adotada.

Não vou descansar enquanto não conhecer minha mãe.

Case comigo.

Ela está grávida, e ele é o pai.

Mesmo para quem nunca pensou sobre o assunto, a família é o lastro que imprime ordem, sentido e esperança a um mundo que se mostraria de outro modo caótico e irredimível. Como não conseguimos pensar em algo melhor, um mundo sem família (como naqueles pesadelos de ficção científica que falam de um futuro coletivizado e impessoal) sugere uma realidade desumana e sem perspectivas: um mundo sem afeto, sem ternura e sem Deus.

Ter uma família, priorizar a família e viver em família são todas expressões com conotação irrestritamente positiva, e isso por motivos que ninguém vê necessidade de explicar. Mesmo os homossexuais, que não têm como ignorar o potencial transgressor da sua vocação, preferem em geral seguir os sulcos abertos pela instituição na pele da história – acenando, para compensar a sua controvérsia, com a ambição amortizadora de casar, de endossar a monogamia e de adotar filhos. Não ignoram, como ninguém deveria ignorar, que para ser aceitável uma conduta deve conformar-se à supremacia da família – imitando-a o quanto possível, porque imitá-la é conformar-se a ela.

E se não colocamos em dúvida a supremacia da família como solução para a vida em sociedade, é pelo mesmo motivo que tornou a instituição um sucesso em primeiro lugar: porque a família nos protege. Quer seja a máfia siciliana, uma igreja ou uma grande empresa, quando se apropria da metáfora da família (“aqui somos uma família”) uma instituição está querendo dizer uma mesma coisa: aqui você não está desamparado. Aqui você conta com uma proteção com que jamais poderia contar lá fora.

E aparentemente ninguém precisa ser ensinado que o mundo lá fora é uma ameaça que requer a proteção de uma circunscrição, o conforto de um “aqui dentro”. Agrada-nos a ideia de que todos tenham uma família (ou um organismo suplente), porque assim todos estariam protegidos.

É precisamente a esses condicionamentos, tão permeados que nos parecem existir além de qualquer necessidade de explicação ou de questionamento, que Paulo está aludindo quando fala em carne.

 

Na interpretação tradicional e autorizada da teologia sistemática, que se estende a todas as pregações e a toda a literatura cristã popular, o apóstolo Paulo vê a carne como existindo em oposição ao espírito porque acredita que a carne é por excelência maligna e perniciosa.

O argumento original de Paulo, e sou impenitente o bastante para crer que podemos recuperá-lo em alguma medida, era quem sabe menos reducionista. O apóstolo não tem qualquer paciência com a carne, mas é porque vê a carne como limitada e condicionada por excelência.

Não do mal, mas limitada. Não perniciosa, mas condicionada.

Toda a literatura de Paulo é um convite para que o seu leitor avance dos limites e dos condicionamentos da carne para um sistema de relações mais elevado, mais generoso e mais inclusivo. Um mundo além da carne (em Cristo não há homem nem mulher, nem judeu nem grego, nem escravo nem livre) é um mundo em que as seguranças e afetos não nascem da circunscrição de que fazemos parte, mas da vocação a uma humanidade comum abraçada por todos. Uma vocação que não é da carne – não é do sangue, da família ou de qualquer outra circunscrição – mas do espírito. Uma coisa espiritual.

E Paulo fala em espírito para indicar que se trata de uma coisa nova, uma empreitada além do sistema circunscrito e simbolizado na carne e no sangue: uma escolha.

 

É aqui que reside o presente paradoxo, porque num mundo ocidental cada vez mais cético em relação a qualquer sistema de valores, quem persiste defendendo o valor e a suficiência da família é a religião cristã.

Se você for dar crédito aos que se acreditam cristãos, vai ouvir que a família é tanto a estratégia quanto a manifestação redentora de Deus para uma sociedade em desintegração. A igreja vai escolher os inimigos da sociedade entre os que parecem ter poder para ameaçar a centralidade da família: os homossexuais, os comunistas, os evolucionistas, os promíscuos, os ateus. Deus aparentemente quer salvar a família dessa e de outras ameaças, porque salvar a família é salvar o mundo.

Não nos ocorreria imaginar que existe uma alternativa genuína para esse modo de pesar a realidade – e muito menos que essa alternativa seja componente essencial de uma porção perdida da herança cristã.

E pronto, falei: nada no Novo Testamento aponta para a família como solução definitiva e suficiente para o problema das relações interpessoais e da inteireza do indivíduo. É o contrário: o Jesus dos evangelhos e os autores do Novo Testamento fazem muito para questionar a suficiência e a centralidade da família.

Os testemunhos, como veremos, são numerosos, consistentes e deliciosos de se individuar.

Porém ninguém mais do que São Paulo procurou e encontrou modos de dizer que quem prioriza a família em detrimento da gentileza universal demonstra “estar ainda na carne”. Nisso ele articulava o que Jesus já havia sugerido, que quanto mais se apega ao regime de lealdades que aprendeu com a família, mais o indivíduo revela que não nos se dobrou às loucas demandas da graça e do reino do céu.

Mas foi só o apóstolo quem disse com todas as letras que precisamente por colocar a família em primeiro lugar permanecemos gente carnal.

Para Paulo, não é a família que salva o mundo, mas o corpo – uma comunidade orgânica cuja identidade reside em incluir e não em fazer distinção. A salvação não é tribal mas universal. O que é circunscrito pela carne e pelo sangue não pode representar vaso ou metáfora adequada para o amor.

continua

 

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Vamos falar sobre carne

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  1. A herança perdida
  2. A linhagem interrompida

Notas   [ + ]

1. Jesus não deixou de recorrer a metáforas, mas parece ter preferido usar a narrativa – sua própria história e as histórias que contava – para remeter a uma realidade oculta, desejável ou superior.
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