A guerra dos reis • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 25 de novembro de 2011

A guerra dos reis

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ABRAÃO: A guerra dos reis

Em seu retorno do Egito as relações de Abraão com sua própria família foram perturbadas por circunstâncias importunas. Conflitos surgiram entre os pastores do seu gado e os pastores de Ló. Abraão colocou focinheiras no seu gado, mas Ló não se importou em fazê-lo. Quando os pastores que cuidavam do gado de Abraão confrontaram os pastores de Ló a respeito dessa omissão, eles responderam:

— É sabido que Deus disse a Abraão: “à sua descendência darei esta terra”. Mas Abraão é estéril como uma mula: nunca vai ter filhos. No dia em que ele morrer, Ló será seu herdeiro. Os rebanhos de Ló só estão consumindo o que é por direito deles e do mestre deles.

Mas Deus disse:

— É verdade, eu disse a Abraão que daria a terra à sua descendência, mas só depois que as sete nações fossem eliminadas da terra. Hoje em dia habitam ali os cananitas e os perizitas. Eles têm ainda o direito de habitação.

Porém, quando a disputa estendeu-se dos servos para os senhores, e Abraão inutilmente chamou Ló à responsabilidade pelo comportamento impróprio deles, Abraão decidiu que seria obrigado a separar-se de seu familiar, ainda que tivesse de obrigar Ló a fazê-lo à força. Desse modo Ló separou-se não apenas de Abraão, mas também do Deus de Abraão, e dirigiu-se a uma região na qual a imoralidade e o pecado reinavam sem rédeas, pelo que lhe sobreveio punição, pois mais tarde sua própria carne seduziu-o ao pecado.

Deus ficou desgostoso com Abraão por não viver em paz e harmonia com sua parentela do modo como vivia com o restante do mundo. Por outro lado, Deus também ressentiu-se de que Abraão estivesse aceitando tacitamente Ló como seu herdeiro, muito embora tivesse prometido a ela em palavras claras e inequívocas: “À tua descendência darei a terra”.

Depois de separar-se de Ló Abraão recebeu a confirmação de que um dia a terra pertenceria à sua descendência, a qual Deus multiplicaria como a areia da praia. Do mesmo modo que a areia enche a terra, os descendentes de Abraão se espalhariam por toda a terra, de um extremo a outro; do mesmo modo que a terra só é abençoada quando é umedecida com água, seus descendentes seriam abençoados através da Torá, que é comparável à água; do mesmo modo que a terra perdura mais do que o metal, sua descendência perduraria para sempre, enquanto os gentios desapareceriam; e do mesmo modo que a terra é pisoteada, sua descendência seria pisoteada pelos quatro reinos.

A partida de Ló teve sérias consequências, pois a guerra travada por Abraão contra os quatro reis esteve intimamente relacionada a ela. Ló desejava estabelecer-se no círculo bem irrigado do Jordão, mas a única cidade da planície disposta a recebê-lo foi Sodoma, cujo rei admitiu o sobrinho de Abraão por consideração ao tio.

Os cinco reis ímpios planejaram fazer primeiro guerra contra Sodoma, por causa de Ló, e em seguida avançar contra Abraão — pois um dos cinco, Amrafel, não era outro que não Ninrode, antigo inimigo de Abraão.

O motivo imediato da guerra foi o seguinte: Quedorlaomer, um dos generais de Ninrode, rebelou-se contra ele depois que os construtores da torre foram dispersados, declarando-se rei de Elam. Ele em seguida subjugou as tribos canitas que viviam nas cinco cidades da planície do Jordão, tornando-as suas tributárias. Por doze anos essas cidades foram fiéis ao seu soberano governante Quedorlaomer, mas depois disso recusaram-se a pagar o tributo, persistindo em sua insubordinação por treze anos.

Aproveitando-se do embaraço de Quedorlaomer, Ninrode conduziu um exército de sete mil guerreiros contra seu antigo general. Na batalha travada entre Elam e Shinar, Ninrode sofreu uma desastrosa derrota, perdendo seis mil soldados, e entre os abatidos estava o filho do rei, Mardon.

Humilhado e abatido, Ninrode voltou para seu país e foi obrigado a reconhecer o suseranato de Quedorlaomer, que por sua vez formou em seguida uma aliança com Arioque, rei de Elasar, e Tidal, rei de diversas nações, com o propósito de esmagar as cidades do círculo do Jordão.

A força conjunta desses reis, totalizando oitocentos mil homens, marchou contra as cinco cidades, subjugando o que quer que encontrassem no caminho e exterminando os descendentes dos gigantes. Fortalezas, cidades muradas e terrenos em campo aberto caíram todos nas suas mãos.

Eles avançaram deserto adentro até a nascente que brotava da rocha de Kadesh, o lugar apontado por Deus como lugar onde se proferiria julgamento contra Moisés e Arão por causa das águas da discórdia.

Dali voltaram-se para a porção central da Palestina, a região das tâmaras, onde foram ao encontro dos cinco reis sem deus: Bera, o vil, rei de Sodoma; Birsha, o pecador, rei de Gomorra; Shinabe, o odiador do pai, rei de Admá; Shemeber, o voluptuoso, rei de Zeboim; e o rei de Bela, a cidade que devora seus habitantes. Os cinco foram empurrados para o fértil vale de Siddim, cujos canais formam o Mar Morto. Os soldados que restaram fugiram para as montanhas, mas os reis caíram nos poços de lodo e ficaram presos ali. Só o rei de Sodoma foi resgatado, miraculosamente, para que pudesse converter à fé em Deus os pagãos que não haviam crido, no maravilhoso livramento de Abraão da fornalha ardente.

Os vitoriosos despojaram Sodoma de seus bens e provisões, e tomaram também Ló, vangloriando-se: “Tomamos cativo o filho do irmão de Abraão!” — revelando nisso que o verdadeiro objeto de sua empreitada era o mais profundo desejo de atingir Abraão.

Era a primeira noite da Páscoa, e Abraão estava comendo do pão sem fermento, quando o arcanjo Miguel trouxe a ele a notícia do cativeiro de Ló. Essa anjo tem também outro nome, Palit — o sobrevivente, — porque quando Deus lançou Samael e seu exército de seu lugar santo no céu, o líder rebelde agarrou Miguel e tentou arrastá-lo consigo para baixo, e Miguel só escapou de cair do céu através da ajuda divina.

Quando chegou-lhe a notícia da condição de seu sobrinho perverso, Abraão colocou imediatamente de lado todas as suas desavenças com Ló, e sua única preocupação passou ser encontrar modos e meios de libertá-lo. Ele convocou seus discípulos, aos quais havia ensinado a verdadeira fé e que chamavam-se todos pelo nome de Abraão, deu-lhes ouro e prata e disse:

— Saibam que estamos partindo para a guerra com o propósito de salvar vidas humanas. Peço, portanto, que não cobicem o dinheiro dos outros; eis aqui ouro e prata diante de vocês.

E advertiu-os também com as seguintes palavras:

— Estamos nos preparando para guerrear. Que não se aliste qualquer um que tenha cometido uma transgressão e que teme que a punição divina pode recair sobre ele.

Alarmados por essa advertência, ninguém quis alistar-se no seu exército, temerosos por causa dos seus pecados. Somente Eliezer permaneceu com ele, pelo que Deus disse:

— Todos o abandonaram, menos Eliezer. Pois saiba que darei a ele a força dos trezentos e dezoito homens cujo auxílio você buscou em vão.

A batalha travada contra os poderosos exércitos dos reis, e da qual Abraão saiu vitorioso, aconteceu no décimo quinto dia do mês de Nisã, a noite designada para feitos miraculosos. As flechas e pedras lançadas contra ele não produziram efeito algum, mas a poeira, a palha e o restolho que Abraão atirasse contra o inimigo era transformada em dardos e espadas mortais. Abraão, com a altura de setenta homens, e requerendo a comida e a bebida de setenta homens, marchou avante com passos de gigante — cada passo medindo quatro milhas, — até alcançar os reis e aniquilar as suas tropas. Mais adiante ele não teve como ir, pois havia chegado a Dã, onde mais tarde Jeroboão ergueria os bezerros de ouro, e nesse local fatídico a força de Abraão diminuiu.

Sua vitória só foi possível porque os poderes celestiais tomaram o lado dele. O planeta Júpiter fez com que a noite ficasse iluminada, e um anjo chamado Laila lutou por ele. Num sentido muito verdadeiro, foi uma vitória de Deus. Todas as nações reconheceram a sua como uma realização mais do que divina; fizeram um trono para Abraão e o colocaram no campo de batalha. Quando tentaram fazer com que se assentasse nele, entre exclamações de “És nosso rei! És nosso príncipe! És nosso deus!”, Abraão os repeliu, e disse:

— O universo tem o seu Rei, e tem o seu Deus!

Ele recusou todas as honras e devolveu a cada homem a sua propriedade. Só as criancinhas ele reteve para si; criou-as no conhecimento de Deus, e elas mais tarde expiaram a desgraça de seus pais.

De modo um tanto arrogante, o rei de Sodoma resolveu encontrar-se com Abraão. Ele estava orgulhoso de que um grande milagre, seu resgate de um poço de lodo, tivesse sido feito também em favor dele, e propôs que Abraão ficasse com os despojos que havia tomado. Mas Abraão se recusou:

— Elevei minha mão em juramento ao Senhor, o Altíssimo, que criou o mundo por causa dos piedosos, de que não ficaria com um barbante, um cadarço ou coisa alguma que lhe pertence. Não tenho direito sobre quaisquer bens tomados como despojo, com exceção daquilo que comeram os jovens e a porção dos homens que se demoraram nas vizinhanças, embora não tenham se envolvido na batalha em si.

O exemplo de Abraão, de dar uma porção dos despojos até mesmo aos homens que não haviam se envolvido diretamente na batalha, foi seguido mais tarde por Davi, que não deu ouvidos ao protesto dos perversos e indignos que estavam com ele, de que os sentinelas não tinham direito de se beneficiar da mesma forma que os guerreiros que haviam se envolvido na batalha.

Apesar de sua grande vitória, Abraão estava ainda preocupado com a questão da guerra. Ele temia por ter sido transgredida a proibição de se derramar o sangue de seres humanos, e temia também o ressentimento de Sem, cujos descendentes haviam perecido no embate. Porém Deus o tranquilizou:

— Não tenha medo. Você só extirpou os chifres. Quanto a Sem, ele vai abençoá-lo, não maldizê-lo.

E assim foi. Quando Abraão voltou da guerra, Sem — ou, como é às vezes chamado, Melquisedeque, rei da justiça, sacerdote do Altíssimo e rei de Jerusalém, — veio ao encontro dele com pão e vinho. Esse sumo sacerdote instruiu Abraão sobre as leis do sacerdócio e sobre a Torá, e a fim de demonstrar sua amizade Melquisedeque o abençoou e chamou-o de parceiro de Deus na possessão do mundo, visto que através dele o nome de Deus seria primeiro tornado conhecido entre os homens. Melquisedeque, no entanto, arranjou as palavras de sua benção de um modo inconveniente: ele disse primeiro o nome de Abraão, depois o de Deus. Como punição, foi deposto por Deus de sua dignidade sacerdotal, que foi transferida desse modo para Abraão, com cujos descendentes permaneceu para sempre.

Como recompensa pela santificação do Santo Nome, o que Abraão promoveu quando recusou-se a reter qualquer um dos bens que havia angariado em batalha, seus descendentes receberam dois mandamentos: a regra das franjas na borda de suas túnicas e a regra do uso de cadarços como sinais nas suas mãos e por frontais entre os olhos. Desse modo eles celebram o fato de que seu ancestral recusou-se a apropriar-se de sequer um barbante ou um cadarço. E porque ele recusou-se a tocar um cadarço que fosse dos despojos, seus descendentes jogaram seu sapato sobre Edom.

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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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