A Grécia e a Lei do Condomínio Fechado • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de julho de 2015

A Grécia e a Lei do Condomínio Fechado

Estocado em Manuscritos

É um episódio de Game of Thrones: ao norte está a Germania, o reino dos guerreiros loiros e ricos que não quer perdoar a dívida de Atenas, o reino pequeno e indisciplinado da fronteira sudeste – entre outras coisas porque não quer criar precedentes de tolerância para os outros países pequenos e endividados de Westeros que quer continuar a controlar. Mas do outro lado do Oceano o conspiratório Império Americano manda pombos-correio para que a Germania considere perdoar Atenas, porque afinal de contas a casa Merkel nunca paga as suas dívidas e (mais importante) os atenienses são os guardiões da Muralha – e só a Muralha mantém Westeros a salvo da ameaça dos sacrílegos exércitos de Ísis ao sul e de Putin ao norte.

A situação é de uma complexidade magnífica, mas resulta da aplicação em inúmeros níveis de um princípio muito simples: a Lei do Condomínio Fechado, segundo a qual não nos sentimos responsáveis por aqueles que excluímos. O que está sendo decidido, a nível de condomínio, é se os europeus preferem efetuar o despejo ou manter a fachada. Porque temos princípios, e a Lei do Condomínio Fechado tem esse embaraçoso corolário: daqueles que não excluímos nos sentimos responsáveis.

Não é à toa que para um observador de fora o conceito de União Europeia pareça difícil de decupar. Em certo sentido os próprio cidadãos europeus observam a questão de fora, tendo a coisa toda sido em grande parte articulada de cima para baixo pelas elites e governantes. Nesse sentido é coisa queridíssima que os gregos tenham neste final de semana proposto a sua questão na forma de plebiscito. A criação do euro em 1992 foi submetida à aprovação popular em apenas três países europeus, e o Tratado de Lisboa foi assinado de modo semelhante, sem plebiscitos nacionais que lhe conferissem lastro.

Porém essa crise particular chegou no mais impertinente dos momentos, interna e externamente. É difícil contemplar o sofrimento dos gregos arruinados e potencialmente excluídos, mas é um sofrimento de atendimento prioritário, porque trata-se de gente branca e ocidental e belíssima. Aparentemente esperamos (e nisso concorda conosco a União Europeia) que outros se ocupem de gente não tão bonita e não tão ocidental, cujo infortúnio não tem lastro para conquistar o nosso enternecimento de modo tão intenso e imediato.

Tudo somado, em jogo estão as questões imensamente humanas da autodeterminação e da dignidade pessoal; o problema da Grécia serve apenas para emoldurar o quanto somos arbitrários nos critérios de aplicação desses direitos. A União Europeia é um exemplo extremo de condomínio fechado, mas ninguém neste mundo tem cacife para condená-la: as nações funcionam individualmente debaixo da mesma aspiração de “aqui protegemos os da nossa carne”.

O que decidimos uma transação após a outra é se você, sendo quem é, tem direito a ser aceito no mesmo espaço físico (e portanto social) que ocupo. É essa a dívida que os europeus vão decidir se devem pagar à Grécia. E é só na curta janela em que eles têm de decidir isso que podemos contemplar quanto é absurdo atribuir a alguém o cacife para decidir esse tipo de coisa. O que os europeus devem aos gregos e não devem aos imigrantes africanos? Em que sentido a ideia de nação é menos fantasiosa, menos arbitrária e menos perniciosa do que qualquer religião?

Leia em seguida:
Débito é controle
Uma mentira útil
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Mãe, onde dormem as pessoas marrons? (via Alysson Amorim)


Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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