A falta que o inverno faz • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de novembro de 2008

A falta que o inverno faz

Estocado em Pense comigo

Era outono na Itália setentrional e nas florestas, fora um pettirosso ou outro, não havia som ou movimento que não fosse o recatado som e movimento das plantas. Meu amigo naturalista explicou que ao longo do outono os insetos se recolhem e não voltam a dar as caras até a primavera. Para um brasiliano habituado a encontrar exuberância de vida mesmo em paisagens minimalistas como o cerrado, aquilo tinha um ar um tanto surreal de O Dia em Que a Terra Parou. Nenhuma borboleta, nenhum besouro, nenhuma abelha, nenhum caracol, nenhuma formiga. Nada.

As folhas caíam e os bichos calavam, e mesmo entre os seres humanos havia todos os sinais — no bafo dos caçadores de javali, nos rolos de feno sob a chuva, nos pastores de ovelhas descendo para terras mais baixas, na raposa que atravessou ligeira a estrada e fechou-se floresta adentro — de quem está se preparando para o inverno. A terra se preparava para prender a respiração, e o próximo fôlego só viria dali a três ou quatro meses. Meu amigo disse que o corpo sente uma mudança que é quase hormonal quando, depois da castidade do inverno, chega às narinas o primeiro pólen da primavera.

Uma civilização temperada é obrigada a encaixar no seu modo de vida esse espantoso momento em que o mundo natural encerra-se em jejum. É inevitável ponderar que preparar-se para o inverno é uma disciplina, como tantas, que desconhecemos por completo numa civilização tropical. Ela não apenas envolve um empreendedorismo calvinista de que só ouvimos falar em histórias como A Cigarra e a Formiga, mas exige um regime de rigorosa humildade na relação da gente com a terra.

A natureza das regiões temperadas é tão generosa quanto a nossa, mas periodicamente recolhe a mão; durante pelo menos dois meses a natureza recusa-se a ser explorada — e nas civilizações tropicais, em que temos duas, às vezes três colheitas ao ano, não sabemos o que é isso. Não conhecemos uma natureza que se recuse a ser explorada; desconhecemos um momento em que o mundo natural feche a sua despensa e exija respeito.

Também por essa razão, nosso modo padrão é encarar a natureza como recurso inesgotável; o mundo natural é para nós uma mãe que está continuamente provendo, uma amante que não recusa algum carinho mesmo depois da mais impensável violência. Para nós a natureza não merece periódico respeito, mas contínua exploração, ao ponto da mais completa descaracterização.

Nossa natureza não morre periodicamente, pelo que não temos que orar periodicamente pela sua ressurreição.

É evidente que vivemos no engano, e que nossas florestas morrem tão irremediavelmente quanto qualquer floresta temperada (por vezes mais irremediavelmente, como acontece com a floresta amazônica, seu solo ralinho e seu delicadíssimo equilíbrio ecológico). Nossa natureza não morre periodicamente, mas morre de uma vez só, pelo golpe da nossa própria mão e sem qualquer esperança de ressurreição.

Libertos do inverno, deixamos para trás uma porção da alma européia, uma porção que é cautelosa, austera, mística e respeitadora. Deixamos para trás a porção da alma que abraça árvores, porque o sentimento de viver num mundo sem fronteiras naturais — sem responsabilidades naturais — é eloquente e euforizante e aparentemente suficiente.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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