A falta que Deus faz • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 04 de novembro de 2015

A falta que Deus faz

Estocado em Manuscritos

Esta é a parte 3 de 3 da série Os usos políticos do ateísmo

Existindo fora e acima da narrativa oficial, Deus encontrava prazer em contestar as alegações de justiça e de suficiência das soluções políticas toleradas ou admiradas pelos homens

Parte essencial da imagem que o ocidente faz de si mesmo é que nos consideramos desde sempre mais lúcidos e esclarecidos do que o resto do mundo.

Por quase dois milênios o orgulho ocidental esteve fundamentado no fato de sermos os legítimos bastiões da fé num mundo de resto cheio de incrédulos e pagãos. Como não há narrativa sem paradoxo, hoje em dia nos orgulhamos do contrário: de sermos aqueles que abandonaram as ilusões da religião num mundo de resto cheio de crédulos e fanáticos.

Os abusos do Estado Islâmico servem, em particular, como lembrete do quanto devemos nos congratular e dar tapinhas de aprovação nas costas uns dos outros por termos abandonado as armadilhas do obscurantismo. Veja o tipo de coisa em que acreditam esses caras, dizemos uns aos outros. Lamentável que sejam tão atrasados e não tenham abandonado como nós as ilusões da religião. O mundo não vai ser um lugar seguro enquanto houver gente dando crédito a esse tipo de crença sem fundamento.

Não há Deus além do mercado

Um dos problemas com essa convicção de superioridade é que ela também se baseia numa fé sem fundamento. E pode haver ilusão maior do que acreditar-se não iludido?

O século 20 entrou para a infâmia como o século das grandes e tremendas ideologias. Por razões que perdemos quase a capacidade de entender, as pessoas daquele continente perdido se permitiram acreditar em coisas como o fascismo, o nazismo, o stalinismo e o nacionalismo – grandes lorotas ideológicas que causaram toda sorte de injustiça, opressão e morte, e proveram o combustível para um circular rosário de guerras.

Entre as décadas de 1970 e 1990 solidificou-se a convicção de que as barbaridades do século 20 haviam servido para vacinar a humanidade ocidental contra o vírus de todas as ideologias. Nunca mais cairíamos em armadilhas da estirpe do nazismo e do fascismo; nunca mais nos permitiríamos a deliberada cegueira de seguir inferno adentro homens de vendas como Hitler, Mussolini ou Stalin. Nenhum líder carismático e nenhum elixir ideológico bastaria para nos seduzir ao fanatismo e nos desviar do cinismo e da lucidez que havíamos adquirido.

Quem nos convenceu que estávamos vacinados contra todas as ideologias foi, naturalmente, uma nova ideologia, a do capitalismo em sua estirpe neoliberal. O neoliberalismo ou fundamentalismo de mercado é uma modalidade extrema e fanática de capitalismo – tão ansiosa por converter e tão distante da moderação quanto a modalidade de islamismo adotada pelo Estado Muçulmano.

É uma ideologia como qualquer outra, porém mais insidiosa em que se recusa categoricamente a admitir que é uma ideologia – e pode haver algo mais ideológico do que afirmar-se não ideológico?

O neoliberalismo pede que creiamos, de um lado, que neste universo nada realmente existe se não se puder vender ou comprar; de outro, pede que acreditemos que quando todo recurso ao alcance do homem for transformado em produto haverá justiça para todos. Na verdade, o dogma não apenas alega (o que já seria incorreto, leia-se Marx ou Thomas Piketty) que o livre mercado produz efetivamente a justiça; ele insiste que a mão invisível/sobrenatural do mercado produz a única forma justa de justiça que a humanidade chegará a conhecer na história das civilizações passadas, presentes e futuras.

Nenhuma ideia humana foi evangelizada mais eficazmente, nenhuma desenhou para si uma narrativa mais totalizadora. Os monoteísmos eram totalizadores mas apelavam para a fé; os impérios eram totalizadores mas apelavam para a força. O capitalismo apela para o fim literal da história, para a rejeição literal de quaisquer alternativas, para o abandono literal de todas as narrativas competidoras. É o império dos impérios, a ideologia das ideologias, o apocalipse feito produto, e seu exército é invencível porque está onde houver um consumidor. Seu pão é o consumo, seu circo o público espetáculo do consumo.

O crente no capitalismo – e quem a esta altura pode deixar de ser – tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Nenhuma agressão e nenhuma apropriação nos parecerá em qualquer caso excessiva, porque o capitalismo deitou sobre toda agressão e toda apropriação o seu sagrado selo de aprovação. Como estamos convictos de que para o capitalismo não existem alternativas, tudo torna-se aceitável: a libertação entre aspas do Iraque, a napalmização do cerrado brasileiro com pasto e soja, a conversão da Amazônia em estacionamento de hambúrgueres, a transformação da China em calabouço produtivo do mundo.

O curioso é que aprendemos a absolutamente não tolerar o fundamentalismo e as reivindicações de supremacia na esfera da religião. Qualquer tradição religiosa que se ouse afirmar a única alternativa válida ou viável nos parecerá inerentemente obscena. Porém o que não toleramos na religião toleramos, de modo duplamente contraditório, na esfera secular. Somos os primeiros a professar em atos e palavras a fé de que para o capitalismo de livre mercado – uma ideia, uma mera ideia, uma ideia infeliz sem futuro e sem fundamento – não há alternativas.

A falta que Deus faz

De um lado, é um mundo em que todos no recinto que se consideram gente grande se creem livres das ilusões da religião. Do outro, os que sentem falta de Deus o fazem pelas razões mais mesquinhas e superficiais.

É um desfecho no mínimo curioso para a tradição judaico-cristã, que fundamentou-se desde sempre numa rigorosa polêmica contra as ilusões da civilização.

As religiões da Antiguidade existiam para legitimar impérios, ferramentas de dominação e estruturas de poder. Eram ferramenta política, e ninguém se surpreendia que fossem; seus rituais e cosmologias operavam uma ideologia a serviço das elites e do estado de coisas. A exceção, a divina exceção, espreita na Bíblia da tradição judaico-cristã, que manifesta do Gênesis ao Apocalipse um profundo ceticismo diante daquilo que os homens consideram grande e seguro, valioso e definitivo.

A Bíblia antecipa Marx, Sartre e Bernard Shaw na crueza do seu pessimismo. Aquilo que os homens consideram ordenado, justificado e inabalável, explicam as vozes bíblicas, é na verdade precário, condicionado e está prestes a ruir. Aquilo que os ricos e poderosos consideram justo e admirável, diz a Bíblia, você deve tomar por certo que justo e admirável está longe de ser.

Em particular, o Deus da Bíblia provê uma supranarrativa – uma versão da história que paira acima da narrativa oficial e desafia abertamente a sua supremacia.

Existindo fora e acima das narrativas oficiais, Deus serve para (e encontra prazer em) contestar as alegações de justiça e de suficiência de todas as soluções políticas toleradas ou admiradas pelos homens.

É da natureza dos impérios, a Bíblia alerta continuamente, fazer uso de uma narrativa totalizadora. Três milênios antes que o seu professor de esquerda mandasse você ler Eduardo Galeano, o Deus da Bíblia já ensinava que as alegações totalizadoras dos impérios não passam de discursos.

O império é do mal, mas vai explicar que é totalmente bom. O império é ilegítimo, mas vai alegar absoluta legitimidade. O império é injusto, mas vai se afirmar o grande promotor da justiça. O império vai se declarar a melhor coisa que já aconteceu, mas o mesmo disseram todos os impérios antes dele.

O império reluz como ouro, mas tem pés de barro.

De sua posição privilegiada acima da narrativa oficial, o Deus da Bíblia faz consistentemente a coisa mais surpreendente de todas, coisa tão revolucionária nos nossos dias quanto foi há três milênios: fala contra o império em nome dos oprimidos por ele.

Aqui reside, afinal de contas, a força do Êxodo, a história libertação do povo de Israel da servidão no Egito pela intervenção de Moisés. Como todos os representantes do império (porque todos os impérios são um só), o faraó esmagava aliados e oponentes debaixo de uma narrativa totalizadora de poder e legitimação. Sendo oficial e totalizador, o discurso do império produzia em tudo de humano que tocava (até mesmo no faraó) uma opressão da qual parecia impossível escapar.

A solução divina para a sujeição universal à narrativa imperial é a supranarrativa. A supranarrativa é a esfera de operação de Deus, o único personagem da novela não encarcerado pela narrativa oficial. A mera existência de Deus cria um espaço de manobra para que as políticas do estado e o próprio estado sejam severamente criticados.

A grande novidade da história do Êxodo, portanto, não é demonstrar o poder de Deus (o que acabaria reduzindo a supranarrativa a uma nova narrativa oficial). Sua subversão está em demonstrar de um lado a contingência do poder de todos os impérios, de outro a legitimidade do anseio do oprimido por justiça neste mundo e nesta vida.

O faraó aprende, e o leitor com ele, que a supranarrativa não há como contornar. Enquanto houver na Terra quem acredite que há algo mais legítimo do que o império, inteiramente legítimo o império nunca vai ser. Em termos estritos Deus não precisa sequer existir, ou basta que Deus exista nos clamores humanos por amor, igualdade e justiça.

Uma vez articulada a supranarrativa, uma vez que Deus tenha a liberdade ou a função de zombar do império e colocar em dúvida a sua suficiência, as alegações totalizadoras da supremacia imperial vêm abaixo imediatamente. Deus faz nascer a perspectiva, a perspectiva faz nascer a esperança, a esperança faz nascer o clamor por justiça – e do clamor por justiça brotam o confronto, a revolução e a reviravolta. O arbusto não precisa de outro combustível para começar a arder. A mera articulação da supranarrativa – que alguém ouse contar a história a partir do ponto de vista de Deus – serve para desencadear o processo.

O Êxodo é exemplar, mas Bíblia adentro a supranarrativa serve para desarmar as narrativas totalizadoras de um governo atrás do outro – até mesmo dos governos de Judá e de Israel . Deus é o observador cético da operação de todos os estados, o crítico social de todas as narrativas oficiais.

O império assírio, o império babilônico, o império romano – a Bíblia trabalha para anular os discursos totalizadores de cada um desses impérios, e oferece leituras cada vez mais críticas de suas operações e de sua legitimidade.

A supranarrativa oferecida e desencadeada por Jesus é por certo a mais devastadora e radical. O Pai de Jesus paira acima e além de todas as soluções políticas concebidas pelo ser humano. Ele não reconhece a legitimidade da monarquia, da democracia, da meritocracia, até mesmo da anarquia, porque todas essas soluções esbarram no detalhe – para ele inaceitável – de não serem o governo do amor e da graça, em que os prêmios são distribuídos pelo rígido critério do critério algum. No Novo Testamento a perversidade totalizadora do império só é corrigida pela instauração sempre interina do reino de Deus, o domínio em que governam não exércitos ou discursos mas o amor, que é despoder.

Um império sem uma supranarrativa

O capitalismo neoliberal é o maior império que o ocidente já ofereceu ao planeta, e é também o primeiro a não ser temperado por uma supranarrativa. Não acreditamos mais em Deus, pelo que não concebemos nada que se poste acima do capitalismo para efetivamente zombar dele, denunciar a sua ilegitimidade e clamar por justiça aos seus oprimidos. Deixamos de crer não apenas em Deus: deixamos de acreditar que para o império vigente existam verdadeiras alternativas. O império agradece.

A coisa que mais se assemelha a uma alternativa ao capitalismo é o socialismo, mas o socialismo é uma narrativa paralela, não uma verdadeira supranarrativa.

Contra o fundamentalismo de mercado uma narrativa paralela – um discurso alternativo, por mais lúcido e bem articulado que seja – não bastará jamais, porque o capitalismo é um morto-vivo que se apropria de tudo que se coloca no seu caminho, até mesmo os seus antagonistas, e reverte em seu favor a diferença de potencial. O capitalismo na verdade se beneficia da existência do socialismo como alternativa, e faz uso dele do mesmo modo que usa toda forma de concorrência ou de crítica: de modo a se legitimar.

Não sendo um discurso, a supranarrativa divina não se prestaria a esse tipo de apropriação. Porém deixamos de acreditar em Deus, deixamos de imaginar a perspectiva divina e de sonhar com ela, deixamos de dar ouvidos à divina crítica à comédia humana. A supranarrativa não representa um perigo para o capitalismo.

Nem mesmo os que acreditam em Deus, bem entendido, sentem-se compelidos a exercer a vocação divina à subversão política.

O islamismo tem a desvantagem de conter em si mesmo uma proposta política, um modelo de estado e de organização. O islamismo é capaz de criticar ocasionalmente o capitalismo mas, ao contrário do cristianismo bíblico, não está armado – não tem espaço de manobra – para criticar toda e qualquer organização política. Tendo a sua própria narrativa para defender, não está em condições de oferecer contra o império uma supranarrativa.

Os cristãos, que poderiam fazer diferente, não representam ameaça. A maior parte acompanha os evangélicos/republicanos norte-americanos em prestar irrestrita adoração ao capitalismo. Em vez de criticarem a própria natureza e a legitimidade do sistema, gastam tempo com polêmicas rasas e condicionadas, e suas intolerâncias e melindres alimentam os demônios do fascismo e do nacionalismo.

Os católicos estão mais próximos de fundamentar na divina perspectiva uma crítica ao capitalismo; veja-se por exemplo as posturas recentes do papa Francisco. Porém o capitalismo se defende negando a legitimidade da supranarrativa oferecida pelo papa e colocando em dúvida a sinceridade da sua fé. Não é que católicos como Francisco acreditam num Deus acima do capitalismo, afirmam os neoliberais; é que Francisco, por estupidez ou por maldade, acredita nas ilusões do comunismo (pouco importa que a ideia de que ninguém é melhor do que ninguém tenha sido cristã muito antes de ter sido comunista).

Desse modo o capitalismo prossegue mastigando os ossos do mundo, tendo já consumido as suas carnes, sem que qualquer supranarrativa se intervenha para oferecer perspectiva e esperança, e a partir dessas coisas a justiça.

Porque, se existisse, Deus estaria dizendo que os ricos e poderosos que você se sente tentado a invejar são na verdade canalhas e exploradores em situação precaríssima. Estaria dizendo que o capitalismo neoliberal, o sistema político-econômico que se afirma o mais justo já operado entre os homens, não passa de um império: um império maldito, ridículo, ilegítimo e perverso, que nada promove além de injustiça, desigualdade, destruição e opressão. Estaria dizendo ai dos ricos porque são demônios, e felizes dos pobres porque podem pelo menos dormir com a consciência limpa. Estaria dizendo que o reino de Deus é o domínio diametralmente oposto ao império da ganância e das explorações.

Estaria dizendo: bem-aventurados os que não consomem, porque não serão consumidos.

Curiosíssimo é que o Novo Testamento afirma, incrivelmente, quase blasfemamente, que Deus é amor. Sendo um ponto de vista, uma escolha e uma perspectiva, o amor pode sempre oferecer uma supranarrativa.

Talvez o Novo Testamento esteja certo, e Deus talvez não esteja no céu, mas no coração dos homens e mulheres de boa vontade. Talvez o reino do céu seja o reino da plena graça e igualdade na terra. Se Deus é amor, como está escrito em todas as Bíblias do planeta, acreditar em Deus tem de ser, pelo menos um pouco, acreditar no amor.

Deus então pode ser, e pode sempre ter sido, o espaço de manobra que se abre no coração de quem ousa conceber solução mais elevada do que o império. Se Deus é amor, pode muito bem não ter desejado existir em outra forma.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Os usos políticos do ateísmo

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