A estrela no oriente • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de setembro de 2009

A estrela no oriente

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ABRAÃO: A estrela no oriente

Tera havia sido um alto oficial na corte de Ninrode, e era tido em alta conta pelo rei e seus ministros. Nascera-lhe um filho, a quem ele chamara de Abrão, porque o rei o alçara a um posto elevado.

Na noite do nascimento de Abraão os astrólogos e sábios de Ninrode foram à casa de Tera, comeram e beberam, e celebraram com ele naquela noite. Quando saíram de casa eles ergueram os olhos para o céu para observar as estrelas e, para sua surpresa, viram uma enorme estrela que surgiu do oriente, «Estabeleça um preço para me dar o seu filho.»correu ao longo do céu e engoliu as quatro estrelas nos quatro cantos. Ficaram todos atônitos diante dessa visão, mas entenderam o que representava e compreenderam sua importância. Disseram uns aos outros:

— Isso apenas significa que o filho que nasceu a Tera esta noite crescerá e será fértil; significa que ele se multiplicará e possuíra toda a terra, ele e seus descendentes para sempre, e abaterá grandes reis e herdará suas terras.

Foram para casa naquela noite e acordaram cedo na manhã seguinte, e reuniram-se na sua casa de reuniões. Então disseram uns aos outros:

— Ora, a visão que tivemos noite passada permanece oculta do rei: ele não foi informado dela. Se essa coisa chegar ao conhecimento dele mais tarde, ele nos dirá “Por que vocês ocultaram esse assunto de mim?”, e seremos todos mortos. Vamos agora e contemos ao rei aquilo que vimos, bem como sua interpretação, e estaremos livres dessa culpa.

Eles foram ao rei e contaram da visão que tinham tido, bem como sua interpretação, e acrescentaram a recomendação de que ele pagasse a Tera o valor do bebê, em dinheiro, e matasse a criança.

Em conformidade com isso, o rei mandou chamar Tera, e quando chegou disse a ele:

— Foi-me contado que seu filho nasceu ontem à noite, e que um sinal maravilhoso foi observado no céu por ocasião do céu nascimento. Ora, me dê o menino, para que possamos matá-lo antes que algum mal nos sobrevenha através dele, e darei em troca dele a sua casa cheia de ouro e prata.

— Isso que o senhor me promete — respondeu Tera — é como a história do homem que disse à sua mula: “eu lhe darei uma grande pilha de cevada, uma casa cheia, desde que você me deixe cortar-lhe a cabeça”. A mula respondeu: “De que uso será a cevada para mim, se você cortar-me a cabeça? Quem irá comer aquilo que você me der?” Da mesma forma eu digo: “O que posso fazer com prata e ouro depois da morte do meu filho? Quem será meu herdeiro?”

Porém quando viu que a ira do rei se atiçava diante dessas palavras, Tera acrescentou:

— Qualquer coisa que o rei desejar fazer a este seu servo, assim seja feito. Até mesmo meu filho está à disposição do rei, sem a necessidade de qualquer compensação ou pagamento; ele e seus dois irmãos mais velhos.

O rei, no entanto, disse:

— Meu desejo é adquirir seu filho mais novo por um preço.

— Dê-me três dias — respondeu Tera — para considerar o assunto e consultar minha família.

O rei concordou com essa condição, e no terceiro dia mandou chamar Tera e disse:

— Estabeleça um preço para me dar o seu filho, como eu lhe disse, e se você não o fizer mandarei matar a todos na sua casa: nem um cachorro lhe restará.

Então Tera tomou o filho que sua criada havia dado à luz naquele dia, e trouxe o bebê ao rei, e recebeu a compensação por ele. O rei pegou a criança e esmigalhou-lhe a cabeça contra o chão, pensando que fosse Abraão. Enquanto isso Tera tomou seu filho Abraão, junto com a mãe da criança e sua ama, e escondeu-os numa caverna, para onde levava provisões uma vez ao mês. O Senhor estava com Abraão na caverna, e ele cresceu, embora o rei e seus servos achassem que Abraão estivesse morto.

Quando Abraão completou dez anos ele, sua mãe e sua ama saíram da caverna, pois o rei e seus servos haviam esquecido o caso de Abraão.

Naquele tempo todos os habitantes da terra, com exceção de Noé e os da sua casa, transgrediam contra o Senhor, e cada homem fez para si um deus, deuses de madeira e de pedra, incapazes de falar, de ouvir e de libertar da aflição. O rei e seus servos, e Tera com os da sua casa, foram os primeiros a adorarem imagens de madeira e de pedra. Tera fez doze deuses de enormes dimensões, de madeira e de pedra, correspondendo aos doze meses do ano, e prestava-lhes adoração a seu turno, de acordo com o mês a que correspondiam.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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