A divisão • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de outubro de 2010

A divisão

Estocado em Goiabas Roubadas

A divisão entre cristianismo e judaísmo tornou-se mais acentuada no seguinte: da forma como os rabis escolheram apresentá-la, a sexualidade era um atributo duradouro da personalidade. Embora potencialmente rebelde, a sexualidade era passível de controle — do mesmo modo que as mulheres eram ao mesmo tempo honradas como necessárias para a existência de Israel e impedidas de se intrometerem no assunto sério da sabedoria masculina. Era um modelo baseado no controle e na segregação de um aspecto irritante mas necessário da existência. Entre os cristãos ocorreu o oposto. A sexualidade tornou-se baliza com uma elevada carga simbólica precisamente porque seu desaparecimento no indivíduo comprometido foi considerado possível, e porque pensava-se esse desaparecimento registrasse, mais acentuadamente do que qualquer outra transformação humana, as qualidades necessárias para a liderança na comunidade religiosa. A remoção da sexualidade — ou, mais humildemente, a remoção do âmbito da sexualidade — passou a representar um estado de resoluta disponibilidade para Deus e para os semelhantes, associado ao ideal de uma pessoa dedicada.

Peter Brown, 1987

A noção de que o físico é apenas um símbolo ou sombra daquilo que é realmente real deixa a porta aberta para um repúdio da sexualidade e da procriação, da importância da filiação e da genealogia, do sentido histórico e concreto da escritura e, na verdade, da própria memória histórica. Por outro lado, a ênfase no corpo como a própria sede da significância humana não dá margem a tais desvalorizações. Um eu e um coletivo que concebem sua realidade última como espiritual se comportará de modo muito diverso de um eu e um coletivo que veem o corpo como a sede privilegiada da essência humana.

Daniel Boyiarin, Carnal Israel

Leia também:
Sensualize a sua espiritualidade
Vamos pregar sobre sexo
O sacro rompimento

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas lamenta quando as coisas em que acredita são defendidas com argumentos ruins