A divina claridade • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 24 de dezembro de 2010

A divina claridade

Estocado em Gírias e Falares · Manuscritos

Em seu encorpado The Road to Middle-Earth, Tom Shippey revisa laboriosamente e termina por demonstrar a noção de que Tolkien construiu o mundo de O Senhor dos Anéis a partir das palavras — seu peso, seu som, e em particular a sua história, — e não meramente através delas, como faria (ou pelo menos acreditaria) um autor comum.

Se forçados a tanto, podemos chegar a admitir que as palavras foram criadas e persistem não para que objetos sejam nomeados, mas para que histórias sejam contadas. Alguns dentre nós somos capazes de crer que as narrativas são essenciais o bastante para que as palavras existam meramente a fim de mantê-las vivas.

Tolkien, no entanto, dava sinais de crer em algo mais ousado e, para o resto de nós, menos intuitivo. Para ele, as palavras não apenas existem para perpetuar histórias isoladas, mas as histórias se perpetuam elas mesmas em palavras isoladas.

Tolkien enxergava as palavras não como entidades estanques e mortas, mas como células vivas, portadoras de um DNA etimológico passível de análise, comparação e compreensão. Para usar uma metáfora contemporânea, ele via cada palavra como um arquivo compactado de computador, um daqueles arquivos (também pouco intuitivos) que escondem dentro de si arquivos mais numerosos e que ocupam mais espaço na memória do que eles mesmos. Para aqueles que sabem descompactá-las, cada palavra — digamos, “Tolkien”, “Shippey”, “benedetto”, “brabo” ou “sertão” — mostra ter embutida em si não apenas o seu significado (que é, por assim dizer, sua camada mais evidente), mas também a história de suas alterações, de seu emprego e de sua origem.

O Senhor dos Anéis foi concebido e executado a partir dessa crença de que as palavras são tão poderosas que histórias inteiras podem caber dentro delas. Em As duas torres, Barbárvore professa algo parecido quando afirma: “Nomes verdadeiros contam a história das coisas a que pertencem, no meu idioma.” Como demonstrado por Shippey, Tolkien acreditava que, em certa medida, o mesmo era verdadeiro para todas as línguas.

Se for assim, num certo sentido todas as palavras são autoexplicativas, em qualquer que seja o idioma, e toda tradução é uma desnecessária redundância. Em conformidade com essa crença, Tolkien não se preocupou em apresentar ao seu leitor a tradução de alguns dos sonoros poemas recitados pelos elfos em seus idiomas nativos — muito embora na altura das primeiras edições da trilogia ninguém no mundo, além do próprio Tolkien, fosse capaz de interpretá-los.

Se digo tudo isso, e hoje, é porque acabei concluindo que a história do Natal e, portanto da encarnação, está de fato compactada nas palavras que usamos para contá-la — coisas como estrela, paz e boa-vontade, mas também pastores, panos, cidade, presentes.

E isso, muito evidentemente, em todas as línguas. No nono verso do segundo capítulo do evangelho de Lucas, na versão da Vulgata, está escrito:

Et ecce angelus Domini stetit iuxta illos et claritas Dei circumfulsit illos et timuerunt timore magno.

Está aqui, muito evidentemente, toda a história; tudo que veio antes e tudo que veio depois, da criação do mundo à precária luz que persista talvez neste preciso momento. Para ser honesto à visão de Tolkien, esta tudo embutido neste único claritas.

Agora que penso nisso, vejo como tremendo desafio não encontrar na claritas que circundou os pastores, apavorando ao mesmo tempo em que iluminava, todas as coisas. Estão aqui toda a lucidez, toda a glória, todo o desafio, todo o temor, todo o convite à coragem e cada “não tenham medo”, que antes de estarem no anjo já estavam em Jesus, e antes de serem descompactados em Jesus já corriam livres no sonho de Deus.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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