A divina anarquia de Rossini • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 05 de junho de 2010

A divina anarquia de Rossini

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Eu não tinha ainda 18 anos quando fui apresentado à ópera (e à língua italiana, mas essa é outra história) pela mais abençoada e anárquica (como se houvesse diferença) das mãos: Gioachino Rossini.

Rossini (1792-1868) era um homem gordinho apaixonado pela boa mesa (na Itália alguns pratos ainda trazem a magnífica marca “alla Rossini”). Rossini era um compositor que produzia melodias com a dificuldade que o resto de nós respira. Rossini era um anjo e um duende que elevou a música cômica a um nível que, é concebível supor, jamais será superado. Quem quer testemunhar o poder da música para expressar abandono, delírio e a mais destilada das euforias deve abandonar a rave e a discoteca e correr para uma casa de ópera em busca de algum Rossini.

Foi graças a Rossini que consegui entender o que me disse certa vez Joseph Campbell, que na Antiguidade a comédia era tida como expressão de uma verdade mais contundente e mais profunda do que a tragédia. Porque em Rossini é possível entender, numa voz em que as palavras pouco importam, que a brincadeira, a ironia e a provocação tem algo de sublime. A anarquia tem um pezinho no céu, e em Rossini ela é inteiramente indistinguível de sua alegria.

A oferta que trago aqui, em duas versões muito distintas, é a porção final do primeiro ato de L’Italiana in Algeri (A italiana em Argel), dramma giocoso que Rossini compôs em 18 dias quando tinha 21 anos de idade. As duas produções propõem soluções cênicas muito distintas, quase opostas; se você for assistir apenas uma das versões, que seja a segunda, que tem a melhor orquestra e em que a ação que expressa literalmente a histeria da música (a primeira, em compensação, oferece caras e bocas impagáveis por parte dos intérpretes). Apenas devo pedir, pela nossa amizade, por tudo que é sagrado e por todos os santos, que uma vez começado você assista até o final. Você não faz ideia.

Ricardo Frizza, 2008

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Ralf Weikert, 1987

A fim de apreender todas as possibilidades desta cena pode ser necessário abraçá-la num número ainda maior de versões. Te vira:

Marilyn Horne, 1986
James Levine, 1983
RAI, 1957
Agnes Baltsa, 1989
Lawrence Brownlee, 2008

Finalmente, uma versão completa de L’Italiana, na versão de Ricardo Frizza, está disponível em vídeo aqui.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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