A desculpa • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de setembro de 2010

A desculpa

Estocado em Sonhos

Era de noite e conversávamos ao redor de uma mesa num pátio pendurado em terraço, numa aldeia de pedra nos apeninos italianos, debaixo de aviões com som em retardo e de estrelas cadentes que não se podiam distinguir uns dos outros. Filosofávamos naquele tom codificado em que está implícito que o que foi dito deve ser esquecido assim que os interlocutores se levantarem da conversa; em determinado momento alguém sugeriu (estávamos em três ou quatro) que entrássemos no carro e partíssemos para algum outro lugar, meia dúzia de aldeias adiante ao longo do vale.

Costuramos as abas da noite com as curvas da estrada, e quando chegamos a uma aldeia iluminada, que talvez não fosse ainda o nosso destino, cercaram-nos grupos armados de jovens e adolescentes de alguma frente de libertação (num colete pensei entrever a palavra “Líbano”, mas posso estar errado). Estavam parando e revistando todos os carros, e do meu posto no banco de trás fiquei refletindo no embaraço que podia representar para mim, como brasileiro, ser encontrado e capturado por aquela gente. Tirei do bolso a carteira e o passaporte e escondi na fenda do banco, pensando que a solução mais simples seria ficar quieto e passar silenciosamente por italiano; se me interrogassem, podia sempre falar inglês e, de acordo com a conveniência, dizer que havia deixado os documentos em casa ou no hotel.

Saímos do carro com as mãos para cima e deixamos as portas abertas, mas os soldados nos ignoraram por completo; obviamente não era gente o que estavam procurando noite adentro. Intuí que buscavam uma coisa – uma coisa antiga, secreta e poderosa, que valia todo esforço e toda violência recuperar. Alguém levou o carro embora, meus amigos perderam-se na multidão armada e fiquei ali sozinho, sem dinheiro e sem documentos, ponderando o embaraço da minha situação se alguém decidisse naquele ponto me interrogar – sem falar o bem italiano e sem ter como me identificar.

Afastei-me da multidão e vi-me no que podia ser um restaurante ao ar livre ou uma festa de igreja (tenho a memória indistinta de, entre uma coisa e outra, ter sido obrigado a roubar de um soldado uma metralhadora e de ter varrido com ela a multidão, a fim de encontrar uma oportunidade para escapar). Sentei-me diante de um padre numa mesa pequena com um único prato, e no instante seguinte conversávamos sobre Francisco de Assis, o padre acusando e eu defendendo. Apontei inclementemente a singularidade do santo e ele apontou de modo inclemente seus defeitos; quando sugeri que as falhas de Francisco podiam ser atribuídas à sua humanidade o padre exaltou-se e ergueu a voz pela primeira vez, “mas é a desculpa que usam todos!”

Atravessei em seguida densas florestas de aventura, mas na passagem para a vigília as dobras da consciência derrubaram de suas hastes o pólen da memória. Só recordo a cena final, em que beijava com despejo canastrão uma heroína sem rosto, aos pés de um paredão de pedra marcado por rugas verticais. Pouco antes uma folha de papel deslizou sobre uma plataforma côncava, com uma única palavra impressa, como se fosse o título de um filme; não lembro a palavra, mas lembro que representava o nome ou a condição da heroína, e que duas letras “i” haviam sido substituídas, adolescentemente, pelo algarismo “1”.

Na noite de ontem para hoje

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas se pergunta repetidamente o que pode dar errado