A crise das pessoas que as pessoas ouvem • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 12 de julho de 2015

A crise das pessoas que as pessoas ouvem

Estocado em Política

O PT precisava de uma oposição que não ouvisse Leandro Narloch, Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo

Dez anos (agora 11) sem assistir televisão me deram o dom que sempre desejei: o de uma enorme impaciência. Esse período mais ou menos coincidiu com os mandatos do PT, e sobre esses governos quase tudo que tenho a dizer está aqui: não puderam beneficiar-se de uma oposição articulada e coerente.

Pense o que quiser, o PT está no poder há uma década arrecadando os dividendos da oposição festiva e popular que já foi. É uma dívida que o povo teria muito mais dificuldade de continuar pagando ao PT se uma oposição perspicaz, organizada e popular (de direita, porque oposição de esquerda o PT tem muita e boa) tivesse se levantado no seu lugar.

Por décadas o PT de oposição beneficiou-se de uma lei natural que, pelo que sei, vigora apenas no Brasil: o governo pode falar quanto quiser, mas só a oposição é possível ouvir. Ou, para dizê-lo de outro modo, num país que encara toda autoridade com desconfiança, quem não está no poder não tem de lutar para ganhar a nossa simpatia.

Isso quer dizer que por quase quatro mandatos o PT falou quanto quis mas não teve permissão para dizer nada, mantendo-se no poder por boa inércia. Quer também dizer que a direita – tendo em mãos o microfone, a palavra e a preferência – nesse período nada construiu.

A crise da oposição (e, portanto, um enorme problema para o PT) está nas pessoas que as pessoas ouvem. Se não, veja:

Leandro Narloch

Motivos para ser ouvido: É curitibano como eu, articulista da revista Veja e pessoa com slogan

Em um artigo recente, Narloch propõs-se a apontar e desarmar o que ele acredita são três mitos sobre o capitalismo no discurso que o papa Francisco fez esses dias na Bolívia. O que ele vê como o primeiro mito:

O capitalismo destruiu a natureza

A princípio parece difícil de discordar do papa. Da Revolução Industrial do século 19 até a China dos dias de hoje, o avanço das fábricas cria nuvens negras nas cidades. O que pouco se diz é que só depois de um certo nível de prosperidade (criada pelo capitalismo) surge a preocupação dos cidadãos com o meio ambiente.

Só países enriquecidos pelo capitalismo podem se dar ao luxo de se importar com a natureza. Os economistas chamam esse fenômeno de “curva ambiental de Kuznets”. Quando um país atinge a marca de 4 mil dólares de renda per capita, a ecologia entra na agenda pública. Florestas, animais, ar e rios limpos ganham relevância.

Nada mais saudável do que duvidar das narrativas que as ideologias oferecem. Leandro Narloch, caçador de mitos, escolheu ser definido pelo seu ceticismo. Isso funciona, exceto quando o seu ceticismo pode se mostrar tão parcial, conveniente e inexato quanto qualquer crença.

A pior coisa que o capitalismo fez para destruir a natureza não foi, incrivelmente, permitir que se criassem “nuvens negras nas cidades”. Apresentar toda a questão ambiental como um problema de poluição urbana é raso e desonesto.

É também desonesto dizer que só os países tocados pelo capitalismo “podem se dar ao luxo de se importar com a natureza”. É desonesto porque é verdade: culturas indígenas do mundo inteiro nunca tiveram que se “preocupar com o meio ambiente”, porque viveram por milênios completamente inseridas nele – até serem, para sua conveniência, liberadas para o capitalismo.

Narloch está efetivamente dizendo que não é hora de nos preocuparmos com o desmatamento da Amazônia ou com desfiguramentos como o de Belo Monte porque, tranquilo, quando formos ricos o suficiente poderemos finalmente nos dar ao luxo de pensar em preservar o que tiver sobrado. Na verdade, deveríamos tomar como prioritário destruir a natureza, caso contrário nunca chegaremos a ter o cacife para preservá-la.

Motivos para ser ignorado: ver acima

Rodrigo Constantino

Motivos para ser ouvido: é economista, articulista da revista Veja e pessoa com slogan

Escrevendo sobre o mesmo discurso do papa Francisco, Constantino se pergunta se o papa é comunista:

Não pretendo ensinar o papa a rezar a missa em latim, mas ele agora quer nos ensinar sobre capitalismo? Deveria ficar quieto no seu canto, falando de temas religiosos com sua “infalibilidade papal” ex cathedra, e não se meter a pregar sobre o que não entende. Então o capitalismo é inimigo da natureza e dos pobres? Por isso os países socialistas poluem tão mais e possuem tanta pobreza a mais? Menos, papa Francisco, muito menos…

Rodrigo Constantino pode não entender, mas o papa está “falando de temas religiosos” e pregando sobre o que entende quando afirma que o capitalismo sem rédeas é incompatível com a herança do cristianismo. Se soubesse ele mesmo do que está falando, Constantino entenderia que para o papa a alternativa ao capitalismo não é o socialismo, mas o cristianismo. Não é o papa que se mostra simpático ao socialismo, é o socialismo que toma como prioritárias pautas humanas que sempre guiaram as prioridades cristãs.

Para lembrar que capitalismo e cristianismo são incompatíveis não é preciso recorrer à autoridade do o papa; basta ouvir Ludwig von Mises, economista austro-húngaro e um dos articuladores originais do liberalismo de mercado, para quem os ensinos de Jesus “não tem quaisquer aplicações morais para a vida na terra”

Motivos para ser ignorado: ter defendido a privatização da Amazônia com o argumento de que os tubarões estão em extinção porque “não possuem donos”, ao contrário das vacas “com proprietários bem definidos” – e ter angariado ao mesmo o tempo o apelido de “trovão da razão”. Também: ver acima

Reinaldo Azevedo

Motivos para ser ouvido: usa chapéu, é católico e articulista da revista Veja

Inflamado pela mesma ocasião, Azevedo escreveu um artigo para clarear que, embora seja católico, o papa Francisco não o representa.

Em Santa Cruz de la Sierra, nesta quinta, Bergoglio fez um discurso que poderia rivalizar com o de Kim Jong-un, aquele gordinho tarado que tiraniza a Coreia do Norte. Atacou o capitalismo, um “sistema que impôs a lógica dos lucros a qualquer custo, sem pensar na exclusão social ou na destruição da natureza”, segundo ele. E foi além: “Digamos sem medo: queremos uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema já não se aguenta, os camponeses, trabalhadores, as comunidades e os povos tampouco o aguentam. Tampouco o aguenta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia são Francisco”.

É de embrulhar o estômago. Em primeiro lugar, esse papa, com formação teológica de cura de aldeia, não tem competência teórica e vivência prática para cuidar desse assunto.

Evocando um igualitarismo pedestre, disse Sua, não mais minha, Santidade: “A distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano é dever moral. Para os cristãos, um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres o que lhes pertence”. A fala agride a lógica por princípio. Se o tal “que” pertencesse aos pobres, pobres não seriam. A fala repercute a noção essencialmente criminosa de que toda a propriedade é um roubo.

Azevedo, tivesse a formação teológica de um cura de aldeia, teria como saber que “a fala que agride a lógica” não é do papa, mas de Ambrósio de Milão, escrevendo não semana passada mas no quarto século: “Quando dá a um pobre você não está dando do que é seu, está devol­vendo o que pertence a ele. Você é quem havia usurpado o que é comum, aquilo que foi dado para o comum benefício de todos.”

A noção que Azevedo chama de criminosa – de que toda propriedade é roubo – foi cristã muito antes de ser socialista, tendo honrosos antecedentes no Novo Testamento e no pensamento dos Pais da Igreja. Pode-se dizer que criminoso é um cara como Azevedo, com sua competência teórica e vivência prática, afirmar-se cristão ignorando ao mesmo tempo a ênfase distributiva do cristianismo.

Motivos para ser ignorado:
tudo que diz, o modo como diz, a quem o diz

 

Checagem decenal para verificar se os articulistas da Veja continuam dizendo bobagem: completa.

Minha teoria da conspiração favorita permanece em efeito: há dez anos a cúpula do PT contratou secretamente Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e Luiz Felipe Pondé para falar em nome da direita e minar completamente, desse modo, qualquer autoridade, coerência ou relevância que a oposição poderia ter.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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