A capacidade de maravilhar-se • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de abril de 2014

A capacidade de maravilhar-se

Estocado em Pormenor

► Quando minha sobrinha de 14 anos vem contar as memórias bonitas que angariou durante a semana entendo como deve ser forte a frustração de crianças e jovens diante da incapacidade dos adultos em geral de maravilhar-se de coisas pequenas. Certo que pressão alta, conta negativa no banco e orçamentos de encanador podem requerer atenção urgente e prioritária, mas não têm como ser mais interessantes do que um livro, uma festa de aniversário, um poema, um cartão de aniversário feito à mão, uma ida ao restaurante, um vídeo do youtube, uma visita ao museu, um encontro fortuito no corredor da escola, um esmalte de unha com propriedades magnéticas, um desenho feito para se dar de presente, uma resposta engraçada e não totalmente inexata que alguém colocou na prova de História, uma viagem, uma coreografia para se aprender e ensinar e encenar, deparar-se pela primeira vez com o enredo de O médico e o monstro ou A ilha do Dr. Mureau.

► A internet como foz de uma bacia hidrográfica de maravilhas pode estar dando a um mundo de gente ferramentas para prolongar esse aspecto da infância, e isso não tem como não ser uma coisa boa. Imaturo é agir como se a maturidade requeresse a perda do senso de maravilha.

► Não me deixe esquecer de registrar, nesfalando, que os desenhos despretensiosos e irresistíveis que crianças e adolescentes da era da internet conhecem como memes, e que são base de um fluxo ininterrupto de piadas e comentário social, são uma belíssima manifestação contemporânea do grotesco medieval.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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