A anulação da bondade • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de dezembro de 2007

A anulação da bondade

Quero examinar uma frase bem estranha da carta de Paulo aos Gálatas. Ela está em Gálatas 3:10:

“Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: ‘Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las'”.

Aparentemente alguns mestres judeus cristãos vinham dizendo aos cristãos da Galácia que agora que haviam se batizado e tinham conhecido o Deus de Israel, deveriam também guardar a Lei de Moisés, visto que os que não a observam serão amaldiçoados, como está dito em Deuteronômio (a porção da Lei que esses mestres provavelmente recitavam aos seus ouvintes era Deuteronômio 27:26). Paulo, por outro lado, está argumentando contra essa insistência de que os recém-batizados gálatas sejam circuncidados, formalmente arrolados no povo de Israel e obrigados a obedecer a Lei de Moisés. Sua posição é que os que são da Lei (isto é, os que se amparam na Lei) é que estão debaixo de uma maldição.

O verdadeiro perigo da vida moral vem dos sistemas de bondade.

O curioso é que, à primeira vista, o texto citado por Paulo parece ser exatamente o oposto do que seria útil na sua argumentação, já que sua versão da passagem de Deutoronômio diz muito claramente: “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las”.

A implicação é que todos que de fato guardarem e obedecerem todas as coisas escritas nos livros da lei serão abençoados, e que apenas os que deixarem de guardar e obedecer serão amaldiçoados. Paulo já contou como ele mesmo costumava ser obsessivamente obediente à Lei, pelo que ele não deixa dúvidas de que é possível observar e obedecer tudo que está escrito nos livros da lei. Por que então ele usa um verso no qual a Lei formalmente amaldiçoa os que não a obedecem para embasar sua alegação de que os que são da lei é que estão sob uma maldição? Não parece ser um argumento consistente.

Paulo não está citando este texto, da forma que normalmente imaginamos que esteja, como corroboração, como um modo de dizer: “está vendo? Este texto concorda comigo”. Ele o cita, ao contrário, como evidência interna de uma estrutura antropológica. Ele cita esse verso para mostrar que porque amaldiçoa os que não obedecem a lei, o próprio texto da lei demonstra ser parte de um sistema de bondade que faz distinção entre bom e mau, e que portanto os que o sustentam, e são aparentemente abençoados por ele, estão de fato habitando na esfera da maldição. Em outras palavras, ele está citando as palavras como quem se afasta delas e diz: “observe o que essa frase revela sobre o tipo de sistema do qual ela é parte integral”.

Esse, ouso dizer, é um argumento sutil, porém quando começamos a apreendê-lo ele torna maravilhosamente claro o que Paulo segue dizendo a respeito de como Jesus tornou-se por nós uma maldição, e de como é através disso que o Espírito Santo flue sobre nós. Paulo está na verdade demonstrando sinais de uma assombrosa inteligência estrutural. Se a lei amaldiçoa alguém, ela cria necessariamente um mundo de bom e mau, e isso implica que o “bom” nesse sistema é fatalmente dependente do “mau”. Se eu dependo, para minha bondade, de sustentar e obedecer tudo que há no sistema, isso quer dizer que minha bondade “vai de encontro” à maldade de alguém, e assim, sendo dependente dela, é parte dela.

Significa, além disso, que enquanto eu estiver contemplando o sistema de bondande jamais serei capaz de obedecer ao mandamento que, todos concordam, resume integralmente a lei: “amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Gálatas 5:14) – porque a lei como sistema de bondade me impedirá de reconhecer o próximo que é como eu mesmo e precisa portanto de amor, porque irá com freqüência ocultar esse próximo sob o véu do “outro amaldiçoado”. Em outras palavras, o efeito vivenciado de um sistema de bondade é, na prática, a anulação da bondade na direção da qual aponta o mandamento.

A bondade se torna questão do grau de zelo com que se perseguem os de fora.

Temos então a clássica percepção paulina de que nenhum sistema de bondade, precisamente por estabelecer um mundo de bom e mau, benção e maldição, pode vir de Deus, visto que Deus é apenas benção, apenas promessa, e que o verdadeiro perigo da vida moral em qualquer sociedade não vem, em primeiro lugar, dos que são “maus”, já que esses são num certo sentido óbvios demais para serem motivo de preocupação, mas dos sistemas de bondade, que, por dependerem do “outro perverso”, são terrivelmente perigosos. São perigosos num sentido evidente para os que são seus “bandidos” necessários, já que a bondade se torna questão do grau de zelo com que se persegue essa gente, como o próprio Paulo havia feito. Porém os sistemas de bondade, num sentido menos óbvio, são especialmente perigosos para os “mocinhos”, já que é pouco provável que os “mocinhos” percebam que, longe de adorarem a Deus, de se tornarem dependentes de Deus e de buscarem sua identidade em Deus, que não “vai de encontro” a coisa alguma, estão na verdade tendo sua identidade determinada por esse violento “ir de encontro” pelo qual se constróem como indivíduos. Em outras palavras, são os mais propensos a se tornarem niilistas violentos, pensando em si mesmos como servos de Deus.

James Alison, Collapsing the closet in the house of God

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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