1500 • A carta de Caminha em português contemporâneo [3] • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 01 de julho de 2015

1500 • A carta de Caminha em português contemporâneo [3]

Estocado em Brasil · História · Ilustração

Esta é a parte 9 de 14 da série História da alocação de recursos no Brasil

 

A maior curiosidade a respeito da certidão de nascimento do Brasil – a carta que Pêro Vaz de Caminha enviou ao rei D. Manuel no primeiro dia de maio de 1500 – foi que ela não teve qualquer papel na formação da imagem que brasileiros e estrangeiros fizeram desta terra nos seus primeiros séculos, tendo sido publicada pela primeira vez em 1817.

Muito mais influentes foram os relatos repletos de incidentes (naufrágios! intriga política! canibais!) de Américo Vespúcio, Jean de Léry e Hans Staden (publicados pela primeira vez em 1504, 1578 e 1557, respectivamente), reimpressos e traduzidos inúmeras vezes ao longo daqueles anos.

A Carta fala de um encontro cuja peculiaridade parece o fato de ter sido inteiramente pacífico. Índios e portugueses olharam-se com curiosidade, respeitaram-se mutuamente, comunicaram-se por intermédio de sinais, ajudaram-se em pequenas tarefas, trocaram presentes, dançaram e brincaram juntos. Ninguém foi hostilizado, ninguém foi constrangido a fazer o que preferia não fazer 1A não ser, com toda a probabilidade, os dois degredados deixados na praia, que foram em certo sentido os primeiros colonos designados para o Brasil pela Coroa portuguesa. Dois outros marinheiros portugueses ficaram por vontade própria, sem a permissão dos navegadores: escolheram a terra dos papagaios e dos índios nus e não voltaram aos seus postos. e nenhum sangue foi derramado. Ser brasileiro é tentar recriar continuamente essa atmosfera de cordialidade – sob tensões igualmente irreconciliáveis, com intenções igualmente superficiais e resultados igualmente temporários.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

História da alocação de recursos no Brasil

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Notas   [ + ]

1. A não ser, com toda a probabilidade, os dois degredados deixados na praia, que foram em certo sentido os primeiros colonos designados para o Brasil pela Coroa portuguesa. Dois outros marinheiros portugueses ficaram por vontade própria, sem a permissão dos navegadores: escolheram a terra dos papagaios e dos índios nus e não voltaram aos seus postos.
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